Eu morri um pouco

Quando você emudeceu e arrastou tuas malas pela porta. Eu morri um pouco com a eletricidade do choque ao descobrir que era o fim. Eu morri um pouco quando eu saí daquele banho. Quando li tuas cartas antigas. Quando fui dormir em uma cama cheia de lágrimas, onde antes dormiam nossos sonhos. Eu morri um pouco no beijo de despedida não dado, no último abraço, na falta de cuidado. Eu morri um pouco a cada tapa de realidade nos amanheceres quase insuportáveis. No café azedo. Nas coisas que você gosta de comer e ainda estão na geladeira. Eu morri um pouco no silêncio das noites vazias, na ausência da tua voz, na série não terminada, nas músicas que ouvíamos. Eu morri um pouco nos planos para o fim de semana que nunca acontecerão. No show que iríamos semana que vem. Eu morri um pouco no colo de desconhecidos que enxugavam lágrimas no teu lugar. No frio dos meus sonhos desmoronados como um castelo de areia pisado. Eu morri um pouco na dúvida, na falta de explicações, no amor questionado. Eu morri enquanto caminhava pela rua naquele domingo, arrastando os passos moídos sem rumo, o choro descontrolado, o desespero. Eu morro todos os dias no desespero. Eu morri um pouco nos teus nãos, que eram tão cheios de sim. Na falta de perspectiva, no futuro estragado, na incerteza do amanhã. Eu morri um pouco nos porta-retratos, no cheiro cravado no travesseiro, nos teus programas de TV, nas tuas pequenas manias ausentes. Eu morri um pouco no teu passo apressado, na tua quietude, no frio de uma década que congela o meu peito. Eu tinha poucas certezas, e elas bastavam. Hoje resta essa tristeza ardida diluída nos chãos de casa. Eu só queria ter parado o mundo naquele instante que antecede.

Não adianta, baby

Eu sei que você vai conhecer mais uma meia dúzia de garotas interessantes. E vai transar com mais outra meia dúzia, mas talvez com essas não tenha química. Com algumas, porém, você sentirá um pouco de tudo, um pouco de paixão, um desejo que vai te queimar por dentro, uma vontade de estar perto, de ouvir suas vozes, de sentir seus gostos, de dormir abraçado com elas até o mês que vem. 

Talvez elas tenham até mais qualidades do que eu e seus defeitos sejam menos problemáticos. É difícil amar quem já tem os erros escancarados, eu sei.

Talvez elas também tenham um coração gigante, amem cachorros, sejam incríveis na cama, conversem sobre Baudelaire e cervejas trappistas. Talvez sejam inteligentes, tenham alguma habilidade artística e uns sorrisos que te enlouqueçam. 

Quem sabe essas garotas façam com que você me esqueça por alguns meses, anos, talvez. Quem sabe você me veja bem pequena perto delas, enquanto suas qualidades expõem todos os meus defeitos. Quem sabe, por algum tempo,  você perceba que nunca me amou de verdade. 

Mas você sabe, eu sei, que daqui uns seis meses, um ano, talvez, você vai se lembrar do modo como enrolo os cabelos entre os dedos enquanto conversa comigo. Ou de como era gostoso me fazer gargalhar das suas besteiras na mesa do mar. E o som do meu riso vai te atormentar todas as noites. 

Você sabe que um dia sentirá meu cheiro, enxergará meu sorriso em outras bocas e aquele brilho dos meus olhos por trás dos olhos delas. E então sentirá saudades das nossas conversas, dos nossos discos, das nossas músicas, das noites jogadas fora entre cigarros whisky sexo filosofia. Se lembrará de todas as vezes em que eu segurei tua mão e disse vem, eu to aqui contigo. Quem sabe daqui um tempo a falta será um buraco apertado aí dentro, uma ausência dolorida das minhas cores e dos meus sabores. E todos os beijos e orgasmos alheios serão completamente meus.

Quem sabe um dia você perceba que não adianta, baby, não adianta tentar fugir do que nunca deixou de existir. Não tem razão pra matar o que não se deixa ir. Talvez você entenda que esse amor existiu pra ficar sempre na prateleira, esperando acontecer enquanto, na verdade, sempre acontecia. Que a gente sempre existiu. E quanto mais você tenta escapar, mais você descubra o quanto sempre fui eu, durante todo esse tempo, teu relacionamento mais longo e mais verdadeiro. 

Foda-se você 

E esse teu perfume barato impregnado nos meus pulmões. Foda-se você e teu sorriso torto, aquele que você só sorri pra mim quando consegue decifrar minhas vontades. Fodam-se teus olhos, esses dois géiseres que me engolem a cada erupção de vapor, essas duas crateras, por onde eu me escorrego deliberadamente, mesmo sabendo que jamais alcançarei a superfície de novo. Foda-se essa meia dúzia de clichê barato que você decorou pra manter gente trouxa como eu por perto, porque é disso que você precisa, de pequenas porções de burrice intercaladas com doses cavalares de amor pra te manterem são. É do meu desejo que você gosta, não é de mim. Foda-se o gosto da tua pele na minha língua, o encaixe do nosso beijo e os orgasmos, foda-se todas as vezes que me senti amada por você de verdade, foda-se a vontade de ir sempre além e não saber controlar o que cresce, porque você cresce em mim, você sempre brota e quando eu resolvo te cortar, você já me cortou bem antes. Foda-se essa dor aqui no fundo do meu peito, a nossa despedida, o sentido que o mundo tem dentro do teu abraço, foda-se a falta que você faz nos meus dias. Foda-se a tua ausência ardida arranhando minhas costelas por dentro, foda-se esse vazio no peito, essa mão procurando teus dedos, fodam-se meus lábios chorando os teus, meus olhos não se reconhecendo, foda-se o quanto meu ventre grita desesperado pelo calor do teu hálito, foda-se a marca do peso da tua mão afundada na minha coxa e o buraco que você deixou no meu travesseiro, fodam-se as viagens à Parati, os botecos, as costelinhas que você fazia aos domingos, foda-se o cheiro do teu café, a tua mensagem perguntando se cheguei bem, fodam-se todos os eu te amo sussurrados no pé do ouvido e as séries não terminadas, os livros não lidos, os shows desacompanhados, as gargalhadas na cama, fodam-se todos os discos que ouvimos juntos (não os escutarei nunca mais), foda-se essa necessidade ridícula da tua constância e essa mania de te ver em outras pernas, em outros olhares. 

Foda-se você e essa memória imbecil que me tortura a cada segundo só pra lembrar o quanto não existimos mais. Foda-se essa inevitabilidade mesquinha de te odiar um pouco só pra conseguir te esquecer. 

Amanheceu

Cada sol em mim tem sido um pequeno martírio. As palavras não ditas ardem meus ouvidos. Os dedos desentrelaçam sutilmente das mãos e eu nem percebo. Estou sozinha e minhas pernas pesam por andar demais, e em vão, a procura de alguma coisa que faça sentido. Uma peça perdida de um quebra-cabeça que, de tão esquecida, entortou um bocado nos cantos e não encaixa mais. 

Quando foi que eu me perdi de nós?

A gente vai sorrindo por fora e trincando por dentro até o fim do dia. Mas é na cama encharcada de angústia e incertezas que a gente quebra por inteiro e não levanta mais. 

Amanheceu.

La vie est ailleurs

Abri todas as cortinas, escancarei as janelas e deixei meu rosto se afogar na brisa úmida da manhã. Liguei a cafeteira, estendi as roupas no varal, troquei os lençóis, perfumando-lhes cuidadosamente com água de lavanda, coloquei meu vestido azul de poá e Couer de Pirate para tocar. La vie est ailleurs, dans un âge lyrique*.

Convidei o que me sobrou de alegria para rodopiar o vestido pela sala, escorregando entre os acordes de piano e o francês rouco, quase infantil da Beatrice. Cheiro de café me inebria desde criança.

Os pardais pousam roliços na minha janela, corvos passam gritando no céu azul, tão azul que meu vestido desbota aos poucos. Et tes peines s´enfuient, tes tristesses se dissipent**.

Enxuga as lágrimas que escorrem por dentro e rodopia. Esboça um sorriso colorido, não se pode ser triste na primavera. Enfeita tuas manhãs com poemas, doces e vestidos. Reinventa teus sonhos, costura tuas pequenas alegrias. A dor já passou e você já pode dançar.

 

 *A vida está em outro lugar, dentro de uma época lírica.
**Teus problemas fogem, tuas tristezas se dissipam.

 

Desperately lonely

Desperately lonely. duas palavras que soam quase como uma música ecoando pela minha cabeça há meses. desde que você saiu daquele bar rindo, depois de dizer que nunca havia me amado. duas palavras que ecoam com o som da tua risada sórdida, o cheiro do teu prazer ao ver meus olhos se afogando em sal. desperately lonely. desde que todo mundo foi embora. um por um, como areia fina em ampulheta, como se o tempo quisesse me provar que ele é dono de tudo, inclusive de mim.

e de repente assim, do nada, eu perdi todas as minhas referências sobre o amor e não estou conseguindo achá-lo nas entrelinhas. é como se todo mundo estivesse partindo de mim e eu – bem, eu fico aqui, num barquinho frouxo à deriva, madeira puída, tinta gasta, sem remo, sem mantimentos, sem rumo, sem saber nadar.

(não partam de mim, não quero me afogar.)

você foi brisa quente em dia de verão, meu solo estancava o sangue quase seco de um amor quebrado e você chegou e se sentou no banco do pier e me perguntou o que eu fazia ali há horas, olhando o farol, lembra? a tua voz me penetrou feito pluma, me vestiu o corpo franzino e gelado por dentro e com as duas mãos em concha pulsou meu coração quase sem vida, querendo qualquer distância que fosse daquela imundice emocional, daquele quarto que havia incorporado o cheiro doce dela, daquele cenário que torturava minha memória, com seu gosto misturado ao café vencido e ao vinho barato. sua voz me penetrou feito pluma. e por seis anos você me fez andar em nuvens. eu me sentia diferente, sabe? havia uma quase certeza absoluta de que você me amava quando se derramava lá no fundo dos meus olhos. havia uma quase certeza absoluta de que nos fazíamos muito bem quando as noites eram regadas a gargalhadas e você tentando cozinhar uma massa e vinho derramado no chão e suor e Janis Joplin e gargalhadas e orgasmos múltiplos. deus, como você me fazia bem.

e por seis anos fizemos planos. a casa de container que eu construiria pra gente, uma vida autossustentável, dois cachorros, um gato, uma horta grande no quintal para você ter seus orgânicos, uma criação de galinhas, a viagem pela indonésia de bicicleta, o voluntariado no Quênia, o Arthur e a Ana pequenininhos correndo pela pradaria atrás das galinhas enquanto a gente se lambuza de massa crua de bolo de chocolate. eu vi tanto isso, eu senti tanto isso e era de uma leveza boa, uma projeção morna, dessas que dão sentido.

e o peso com que isso atingiu meu rosto naquela quarta feira no bar do otávio, eu não sentia esse peso desde que meu pai morreu. “eu nunca te amei, eu não sei amar, segue a sua vida, você passou pra mim”. demorei alguns minutos para entender o quão dissimulada você é. foram seis anos da minha, da sua vida. foram seis anos em que acreditei e você me enganou.

e desde então não venho me encantando com nada, como se a vida fosse uma grande mentira, um imenso espetáculo social de atuações.

eu te dei o meu melhor e deixei você levar o que tinha de mais bonito em mim; a minha paz. e hoje eu sento aqui no banco do pier de novo, analisando meus erros com café amargo e esperando que ninguém nunca mais me penetre feito pluma. desperately lonely. eu tô perdendo a referência de amor e não tô conseguindo achá-lo nas entrelinhas.

Dente-de-leão

A realidade está distorcida, meus olhos clamam por verdades. Traga-me apenas o que for verdadeiro, genuíno, único. Que a bagagem seja pesada, dane-se, não faço questão de gente leve, elas geralmente têm pouco a acrescentar.

Assopro relacionamentos tóxicos como assopraria dentes-de-leão, os de mão única, os que não criam vínculos, os que não sabem lidar com as minhas raízes. Que voem para bem longe de mim. Assopro levemente, um por um, pois não tenho mais pressa, não tenho lágrima, quero apenas que se dissolvam no vento. Que encontrem pessoas menos ingênuas que eu. Que encontrem gente calejada de coração duro que não doa. Que não se doa. Que não se aproveitem de amores gratuitos e não machuquem mais corações idiotas, e que eu aprenda. A não ter essa necessidade imbecil de ser importante. Que eu aprenda a não me encantar pelas almas perdidas, prontas a derrubarem tudo o que eu construí em mim. Que eu perceba, de uma vez por todas, que eu não preciso consertar o mundo, muito menos as pessoas. Não é a minha sina. E que, ainda assim, continue doando, me permitindo, percebendo os corações de pedra por trás das máscaras, entendendo que nem sempre o que a gente dá é o que a gente recebe e que tudo bem, desde que eu saiba partir.

Que eu continue sempre em pé, inteira, para nunca mais me alimentar de metades.

 

Me derrama

Aqui
Deitada no chão
Medindo os limites
Da minha existência
Em toneladas

Minhas arestas me consomem
Meus limites me desmontam
Sou quadrada
Quando quero vastidão

Não sei conter essa finitude
Me inundo
Transbordo sem fundo

Sou poço
de escuridão