A menina

Algo claramente estava fora de lugar. Algumas gavetas reviradas, um vazio que não preenchia nunca, uma sucessão de acontecimentos errados. Por onde andava aquela menina que tecia tantos sonhos e que depositava sua crença mais profunda no coração dos outros?
Sentia falta de não sentir os ombros, de ter sorrisos largos, não suportava essa estranha sensação de que algo lhe pesa na própria face: guardava a vida inteira em volta dos olhos. Ao seu redor, um escudo defensivo protegia todas as suas paredes. Quando foi que eu mudei? – se perguntava.
As pessoas que a conheciam há tanto tempo sussurravam adjetivos que não mais combinavam com aquela armadura negra, pesada, que lhe dilacerava a pele e moía os ossos. Fardos. Ainda tentava arduamente guardar o pouco que sobrava de doçura por dentro, mas esvaía-se sem pressa pelos dedos, feito areia fina em ampulheta. A vida era tão dura, mas não precisava ser. Havia se tornado refém das próprias escolhas, talvez por conta desse vício em encarar tudo como um desafio, em superar, crescer, evoluir. Não queria nunca continuar na mesmice, embora não notasse que, agora, a armadura era o que tinha de menos efêmero. A mesmice do caos, uma bagunça constante.
E como em prece, sussurrava baixinho, seus versos preferidos de Mia Couto, com a esperança de que eles lhe trouxessem de volta. E eles lhe traziam mãos pequenas para segurar-lhe as mãos calejadas que doem constantemente. A criança lhe sorria com os olhos, aquele brilho que não conseguia mais encontrar, como se no fundo a criança soubesse que fora sempre tão teimosa e acabaria enfrentando seus próprios monstros sem receio.
Me dá a mão – dizia. E o fardo de tantas décadas cabiam inteirinhos em dedos gorduchos de uma mão tão pequenina. Passou alguns minutos fitando os furinhos que tinha entre os dedos e que sua avó tanto gostava. Vamos – disse a menina – preciso que te olhe de novo.

“É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou.”

 

A menina levava aos espelhos. A menina era um constante cordão que a mantinha ligada à sua essência e não permitia que afundasse em pedra.

Preciso de mais tempo para nós duas.

 

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