Sou um contador de estórias

Sou um contador de estórias; se me despe em poemas, me derramo em fonemas, vocabulário chinfrim. Meus versos não rimam, minhas palavras não ganham, atormento meu peito em devaneios mirins.
Mas se me faço prosa, me entrego aos socos na boca do estômago de próprio punho. A linguagem me transborda, as palavras escorrem líquidas entre os dedos: sou a sua dor pungente, coração pulsando quente, frases soltas exclamadas com a voz abafada pelo teu medo. Sou o que cutuca a tua ferida aberta e expõe o que existe de mais cru em ti.
Sou tua mente inquieta, teu coração maltratado, essa tua vida torta e todo esse nó na garganta. Sou essa folha em branco, teu vazio dolorido, teu pranto é minha epifania santa. Sou tudo o que existe de lírico dentro da tua paranóia mas, de verdade, sou apenas um contador de estórias.

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Por favor, não volta

Eu já te pedi uma vez, não, não volta. Não coloque sobre mim seus clichês, sua meia dúzia de frases elaboradas há tanto tempo para essa ocasião. Quantas vezes ensaiei o que dizer, construí roteiros no meu travesseiro, porque o que eu queria que dissesse nunca foi dito pelos teus lábios e eu não sei mais se confio na linguagem dos olhos. Então não venha agora me pedir pra ficar, pra voltar, pra ser, pra não esquecer os golpes no estômago que sufocaram meus melhores sentimentos. Não derrame em mim toda a frustração dos seus quase amores e não, por favor, não descubra agora que sempre fui eu. Porque a gente sempre soube, a gente sempre sabe e, ainda assim, você preferiu esfaquear com muito zelo cada ferida aberta em mim.
Que te quero muito bem, mas seu coração é perigoso.
Fique onde está. É bonito assim, olhar de longe, quando a dor virou saudade, a mágoa, entendimento, quando o amor virou carinho. Deixe assim, encostando levemente a cabeça no ombro oco do meu coração; me deixa dormir nesse pesadelo compreendido que durou a brevidade de um amor pra sempre. Me deixa aqui para que continue amando o que era, o que fomos, pois já não sei se amaria o que está. Então, não volta, por favor, não volta, mas segura a minha mão e não me deixa escapar nunca mais.

Dreams

Às vezes mudo meu dia para pegar caminhos antigos.
Desci do ônibus trinta minutos antes do ponto de sempre, parei em Cemetery Junction (o mesmo do filme do Ricky Gervais). Boa parte da minha vida em Reading foi em volta deste lugar.
De um lado do Cemetery Junction fica o Palmer Park. Quantas vezes saí de casa pra correr nele, para tirar fotos ou para pensar na vida, que naquela época era tão difícil. Do outro lado, a London Road, a rua em que morei por três anos.
Decidi caminhar pela London Road. Às vezes é quase essencial sentir os cheiros e ouvir os passos de um passado não tão distante. A cada inspiração, uma lembrança. Foram momentos tão intensos, pouca gente sabe tudo o que vivi aqui. Quantos pensamentos cruzaram esta rua, sempre cheia de folhas amarelas no chão, quantas frustrações, desejos, anseios. As músicas que tocavam no ipod naquela época percorrem meu corpo mentalmente, como pequenas trilhas sonoras. É como voltar à uma gaveta fechada.
Cruzo a Alexandra Road, rua que seguia para a academia. Paro por um minuto e a olho subindo em um turbilhão de pensamentos antigos, pessoas, situações, sensações.
Ao chegar perto do meu prédio tentei reviver o caminho da entrada dentro de mim, o código do portão eletrônico. Se eu fechasse um pouco os olhos, conseguiria ver minha bicicleta no jardim. Engraçado como às vezes a gente se esquece das lembranças ruins e apenas as boas permanecem. Eu tenho uma Pollyanna em mim que nunca se dissolve: apenas o bom e o bonito de tudo ficaram comigo.
Eu sei que eu deixei alguma coisa naquele flat, talvez um pouco da minha ingenuidade, talvez um tanto da minha fé no ser humano, talvez um enorme fardo de medos que nunca imaginei ter antes. Mas descobri inúmeras coisas sobre mim mesma também. Sobre toda a minha força e o meu amor.
Cruzei a esquina da St. Andrew´s Church, igreja que eu apenas frequentava para doar sangue, e vi o parque George V à direita. O Parque George V também é conhecido como Eldon Square, uma pequena praça quadrada com uma estátua no meio, canteiros de flores e bancos nos quatro cantos. Atravessei a rua porque precisava resgatar algumas coisas que deixei por lá. Na Eldon Square eu deixei o Benjamin, meu primeiro boneco de neve. E, com ele, talvez tenha encontrado uma certeza de que meus anos neste lado do mundo não seriam poucos.
Algumas fotografias passaram em frames pelos meus olhos na Eldon Square. Primaveras, verões, outonos e os invernos mais gelados. Um dia sentei em um dos seus bancos ouvindo The Cranberries, em uma fase decisiva da minha vida. Havia guardado todos os meus pertences em um depósito e não sabia se voltaria à Inglaterra. All my life is changing everyday in every possible way. Eu já tinha me sentido assim antes. I know I’ve felt like this before, but now I’m feeling it even more. 

Eu sou saudosista porque talvez, de alguma forma, eu precise constantemente me compreender. Voltar aos caminhos antigos nada mais é do que resgatar pedaços de mim que construíram o que eu sou hoje. Ser saudosista talvez seja apenas um jeito de me olhar por dentro, entender o que sou agora e construir o que tenho sido.

E a minha vida e eu, nós somos essa eterna e adorável metamorfose.

And then I open up and see the person falling here is me, a different way to be.