Não deixe acabar o café 

Suas pernas vão embaralhando meus caminhos e trombando pelos meus passos. Quantas vezes você já cruzou com alguém que um dia significaria alguma coisa? Contei três pessoas só ontem. Um ano inteiro esbarrando no mercado para um dia me apaixonar pela sua boca. Dois anos passando na sua frente para um dia acordar na minha cama. Meia hora para trombar na estação de trem, mas a gente se tromba semana que vem.
Acabou o café em casa, mas ainda tem o machiatto da boulangerie. Deixa eu adivinhar, um machiatto duplo e pain au chocolat? Hoje não, moça, não quero doçuras, doçuras me iludem.
A gente já nem pensa mais, porque pensar dói. Acorda, liga a cafeteira, tira o lixo e continua a rotina precisa e meticulosa como um gato preguiçoso. Não deixe acabar o café porque confunde.  
Pensar te joga lá no fundo do teu oceano e as águas ainda estão escuras, quem sabe uma batida de perna daquela que você aprendeu na aula de natação aos três anos de idade? Se salva, me salva. Procura em mim, procura em você e naquele outro também. Dá mais um gole no pinot grigio, outro beijo na boca, outra boca. Se arruma, mais um. 
Os cheiros se confundem, os gostos se misturam ao suor e ao vinho, às lágrimas vencidas. Qualquer coisa que não dure muito na sua cama, levanta, mais um café, mais uma torrada. Mais um amor descartável, uma página virada, um pedaço inteiro de uma vida adormecida porque pensar dói. E tá tudo bem assim. 
Um dia esse maremoto interno acalma, mas por enquanto é preciso trasbordar.

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