Me derrama

Aqui
Deitada no chão
Medindo os limites
Da minha existência
Em toneladas

Minhas arestas me consomem
Meus limites me desmontam
Sou quadrada
Quando quero vastidão

Não sei conter essa finitude
Me inundo
Transbordo sem fundo

Sou poço
de escuridão

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Um dia passa

E prendendo o beijo não dado entre os lábios, ela disse:- desculpa se ainda gosto de você, um dia isso passa. 

Tem que passar.

A verdade é que pouco tinha sobrado do cara por quem ela havia se apaixonado um dia. Ele não era mais ele. E ela, bem, ela era cheia de incertezas.

Mas uma mulher decidida como ela não sabia viver de incertezas. Ela é crua e afiada como uma navalha. Ela precisa de verdades. Ela precisa que ele lhe olhe nos olhos e vomite o que passa no peito, seja lá o que for. Ela precisa da honestidade sangrando pela pele, porque a honestidade dói menos que esse poço fundo cheio de porquês. Ela precisa que ele solte a mão da xícara de café e lhe acaricie os dedos frios de nervoso. Ela precisa que ele diga que eles sempre existirão, que isso nunca vai mudar, que amores como o deles não morrem. Ela precisa que, antes que ele lhe deixe ir, pegue seu quadril e afogue seu mundo em um abraço demorado e beije o beijo engasgado e embarace seus cabelos em um ninho de confusões emocionais e frios na espinha e desejos no estômago. Ela precisa que ele queira. 

Mas ele já não era mais ele e não havia nada que pudesse fazer para mudar. O tempo passou. Não era mais a vez dela. Talvez nunca tenha sido. E o fantasma da ilusão dilacerava profundamente seus órgãos internos. Por que sofrer, menina? Você não precisa disso, você não precisa dele. O vazio que ele preenche é um vazio teu. Esse buraco é teu. Não adianta tentar enchê-lo com coisas e pessoas porque nada fica, nada pertence. Aprende, de uma vez por todas, que não é ausência, não é desdém, não é falta de amor: esse vácuo no peito é somente teu. E não coloque mais ninguém nos teus vazios.

Enxuga essas lágrimas presas, solta esse nó na garganta, nenhum coração tão cheio de amor como o teu merece sofrer por não ser amado. Chegou a hora de deixar ir. 

Um dia passa. Tem que passar. 

Escorre 

Desceu os olhos para dentro de mim, deslizou sem medo pelas minhas pálpebras. Eu gostava da curva torta do seu sorriso, ele se afundava em um passado distante bem na esquina do meu ombro. 

A cerveja tinha o gosto do suor perdido, o beijo esfriou e ficou arquivado em alguma prateleira empoeirada. Eu sinto falta do beijo roubado. Das palavras sussurradas quentes nos meus lábios. Eu sinto falta do gosto da pele molhada, do pelo arrepiando na língua, de ouvir o mundo ecoar no seu peito. 

Éramos cúmplices de um amor que só existe na minha cabeça. Entre bares e cafés, nossos sorrisos velam um enredo escondido, promessas esquecidas,corações pisoteados demais para acertarem um erro outra vez. Já perdemos tanto tempo. 

Quando quiser voltar, me avisa. E mergulha dentro de mim outra vez – eu não sou assim tão profunda. 

Purgatório

Fazia frio, sacudi as cortinas pesadas e abri a janela porque eu precisava de ar, eu precisava respirar. Eu precisava expirar você. Acendi um cigarro, eu nem fumo, mas havia essa necessidade de expurgar, de mudar, traguei toda a nicotina com gosto e você se misturava ao sabor da saliva velha, do beijo vencido, do café amargo na tua casa, o whisky de ontem à noite, deus, eu precisava não sentir mais nada.
Um casal feliz passou pela minha rua e eu os observei ainda tragando você, são 23h40, talvez eles tenham acabado de trocar fluídos, desejos, promessas, talvez eles se afoguem nessa ilusão imbecil de que todo amor dura, não dura, nada permanece, senão essa constante solidão, essa falta de sabe-se-lá-o-que, esse insaciável vazio no peito.
Você me machuca. Talvez tudo o que eu tenha feito ultimamente tenha sido tentar resgatar o quanto você me fazia bem – pura tolice minha. Há meses você não me faz um elogio sequer. Há meses você rodeia quando te pergunto o que sente. Logo você, que me fazia sentir a mulher mais incrível do mundo. Contigo eu sinto tudo, menos eu mesma. Você me fazia sentir especial e eu gostava daquilo, a gente tinha o pacote completo: uma paixão avassaladora, amor, tesão, risadas, conversas inteligentes, uma química que eu acho que nunca mais senti igual. Você me fazia tão bem e talvez eu ainda esteja agarrada nisso.
Eu afogo minhas noites em um monte de porquês. O que é isso, afinal, amor ou ilusão? Que necessidade é essa que me prende em você? Ontem foi o nosso último adeus, baby. Eu sei que eu já disse isso milhões de vezes antes, mas eu preciso tocar esse barco, entende? Eu preciso não permitir que você tire o meu brilho. Eu preciso não perder o equilíbrio com o seu desamor. – Última vez, chega! sussurrei para mim mesma. Já bebi demais desse veneno. Relações de mão única não duram.
Teu cheiro ainda corre o meu corpo, eu dou a última tragada em um cigarro que não me fez nada. Preciso de curas mais fortes, um whisky, um banho quente, quem sabe. Preciso de músicas que me doam todos os meus pedaços. Meu corpo dói, meu coração arde, cansei de porrada. Mais uma vez você escolhe sozinho e me obriga a matar o que eu sinto, e eu juro, essa será a última.

Preciso expurgar você.