O dia chora

O dia chora. É uma chuva tão fina que você só percebe a tristeza do dia se olhar para a escuridão. Gotas minúsculas de lágrimas que o sol não consegue esconder. Não molha o chão, a chuva é mansa e doída. E é gelada somente em que for capaz de percebê-la.
O dia chora os amores perdidos, os amigos esquecidos. O dia chora a falta do abraço e o último beijo. A chuva chora o frio do peito, um vazio oco, Eco. As risadas varridas, os sorrisos trocados, os olhos que brilham. A chuva chora a moça que virou a esquina porque não podia amar. O dia chora o velhinho sentado na praça e seu chapéu de perdas. O dia chora o medo que o menino tem do escuro por dentro. A chuva chora os que lembram, os que não esqueceram, os que ainda esperam.
O dia chora uma chuva tão fina e triste, que não se sente, que mal se vê. É a tristeza silenciada, o nó na garganta, é o sorriso falso do dia no sol. E eu não sei bem ao certo se o dia está triste ou se o dia é apenas poesia.

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Borboleta amarela

Minha irmã me mandou uma foto de uma borboleta amarela essa manhã. É como um código secreto nosso de infância desejando boa sorte. Era sinal de dia feliz. Uma gritava “corre, vem ver uma borboleta amarela!” e sussurrávamos juntas com os olhinhos bem abertos e fixos na borboleta amarela: “sorte pra hoje e pra amanhã”.
Me lembrei agora, então, de um trecho de “Borboleta Amarela” do Rubem Braga, que diz: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito no sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.”
Ah, se eu não acreditasse na sincronicidade da vida talvez deixaria passar despercebido tanto significado. Se eu estivesse um pouco mais distraída, talvez perdesse completamente a minha inocência.
Obrigada, irmã. Obrigada, vida. Que a sorte seja sempre para hoje e para amanhã.

E se a gente se apaixonasse de verdade

Então você olhou lá dentro dos meus olhos e me perguntou, tentando tirar de mim a resposta mais perfeita que eu pudesse elaborar:
– E se a gente se apaixonar de verdade?
Eu ri, sem saber muito o que te falar, sem querer dizer que se a gente se apaixonar, a gente foge junto pra Itália e fica lá vivendo só de amor e aventura, sem querer te dar uma resposta perfeita, porque perfeição e paixão não combinam. Então te digo assim, olha: se a gente se apaixonar, a gente vira uma história bonita. Dessas que foram feitas somente para serem contadas e nunca encenadas. Desses amores que ficam alheios ao tempo e à vida, desses que esperam que um dia, quem sabe, o futuro resolva. Desses amores que devem ser guardados pra outra vida, sei lá, deixa de tanto medo, de tantos dedos. Mania mais masculina essa de querer se pré proteger do que tem apenas potencial pra machucar. Machucar, todo amor machuca, meu bem, quer queira ou não. Meu coração também é de papel remendado, se a gente se esfolar, é fácil achar a borda cortada pra colar de novo. Se a gente se apaixonar de verdade, menino, a gente
resolve depois. Por enquanto só chega mais perto, me invade e me mostra o quanto dá pra amar, agora.

 

* Texto publicado no segundo livro Mundo Mundano, 2011.