Gosto mesmo 

Eu me afogo nesse oceano azul que são teus olhos, mas eu gosto mesmo é dos teus mares, dos teus rios que desembocam nos riachos por onde molho meus pés, sem saber exatamente onde estou pisando, dessas tuas lagoas profundas e escuras que eu desconheço e me fazem querer mergulhar. Eu gosto mesmo é dessa poesia toda que é você. Da maneira como as sílabas das tuas histórias se encontram no canto dos teus lábios e se derramam em riso, eu gosto tanto da música da tua risada. Eu gosto mesmo é dessa tua vontade, essa tua gana em mudar o mundo, de ser melhor e mais justo, de acontecer e de fazer valer cada segundo. 

Eu gosto de como você arruma um motivo para me tocar na mesa do bar, enquanto conta como aquele livro do Fante mudou tua adolescência. Ou da maneira como nossos olhos se cruzam quando nós dois já sabemos que não dá mais pra esconder todas as ondas elétricas entre os nossos corpos. Eu gosto do teu gosto, do sabor do suor na tua pele, do beijo roubado no elevador, eu gosto de como você acaricia meu corpo na tua cama escura, como um cego que precisa reconhecer cada milímetro na ponta dos dedos para não esquecer. 

Eu gosto de aprender com você sobre os livros que ainda não li, sobre as músicas que não ouvi, sobre os lugares onde não pisei, sobre essas três décadas que teus olhos viram e te moldaram nesse ser humano lindo que você é. E fica ainda mais lindo quando os olhos se fecham pequeninos, enquanto o riso rasga a boca, e meu tempo para por alguns segundos, porque eu quero morar naquele instante, no instante onde teu riso é solto e eu sou um cenário esmagado entre as pálpebras, teus cílios como cortinas de um espetáculo que ainda quer desvendar. Eu gosto como você me escolhe dentre tantas opções de risos, de pernas entrelaçadas, de descobertas.

Mas eu gosto mesmo é tua fragilidade, porque amar o perfeito é muito fácil e a fragilidade te torna real. Gosto dessas tempestades emocionais que você enfrenta de peito aberto, da tua resiliência, do amor em se lapidar como uma pessoa melhor através dos teus defeitos. Gosto de ver tuas beiradas nos momentos em que fica confuso, com medo, doente, quando sente a tua própria humanidade pesada demais. Gosto das tuas incongruências, das tuas inconstâncias, dos teus absurdos e de como me permite às vezes ser teu refúgio.

Eu gosto mesmo é dessa literatura toda que você é, ora poesia, ora prosa, ora pixação em muro, verso de cordel anotado em contracapa de livro. E de como não faz ideia do quanto eu gosto de tudo isso enquanto dividimos essa cerveja e você me conta algo que não sei sobre algum rei anglo-saxão, a reprodução de fungos ou sobre tudo o que te fez largar tua cidade e andar o mundo. Gosto tanto de você que queria mesmo era deslizar pra dentro dos teus olhos e fincar uma bandeira na tua vida. Queria morar nessa tua imensidão. 

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