Supernova

Quando duas literaturas se encontram, existe um choque parecido com uma explosão estrelar. É matéria pura esculpindo o novo, é energia se fundindo com a criatividade. São sóis colidindo, brilho que cega os que relutam, enfiados dentro de uma caverna de Platão.
Quando duas literaturas se encontram, a tsunami é cósmica, o amor é riso, a cefeida é a poesia que jorra da sua boca. A velocidade da luz expulsa massa dos seus dedos, acompanhando um raciocínio que quase não existe; quem escreve dá à luz, gera, nasce de novo. A colisão é essencial, é massa gerando nova massa em papel.
Se literatura é para tão poucos, supernova é fenômeno dos mais raros. É fácil reconhecer a explosão iminente em quem enxerga a liquidez do ser humano. Se me bebes, te escorro. Se te inspiro, me expira. E que o mínimo aceitável seja a inundação da criatividade. E se existe um momento especial para a humanidade, ele está no exato segundo em que o choque de supernovas transborda a literatura.

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Cicatriz

Ontem à noite ele acariciava as cicatrizes da minha barriga. Ele sabe que não sou a maior fã delas e, por estar pensativo, perguntei em que pensava.
– Eu amo as tuas cicatrizes. É por elas que te tenho aqui. Comigo.

Uma das minhas cicatrizes foi para tirar o ovário direito. Poucas pessoas no mundo imaginam a dor que é para uma menina de 24 anos passar por uma cirurgia dessas, em que tudo é risco de infertilidade. O medo de ficar infértil do dia para a noite, quando se tem alguém, é uma das situações mais enlouquecedoras pelas quais já passei. Dizer para quem você ama que tudo bem, se eu ficar infértil não te culparei se tiver que ir embora, é simplesmente horrível.
Poucas mulheres no mundo que correm o risco de ficarem inférteis ouvem de um namorado – no auge da juventude dos dois – que aconteça o que acontecer, estarei ao seu lado; ainda que não possa me dar filhos, estarei ao seu lado. Essa, uma das cicatrizes que eu tenho, é a maior prova de amor que já tive na vida.

Quem passa, passa sempre por algum motivo.

Quem passa, passa sempre por algum motivo. Quem fica e quem não fica, também. É difícil, às vezes, entender por que é necessário passar por uma situação, por que a vida vira de cabeça pra baixo. A verdade é que ninguém vira a tua vida de cabeça para baixo, nós o fazemos. As pessoas chegam para chacoalhar seus padrões, suas verdades absolutas. As pessoas chegam para te mostrar que certo e errado são apenas pontos de vista. E no dia em que tudo isso não fizer mais sentido, elas se vão. Você se vai.
Costumo acreditar que quando não é a hora de ir, dói. Mas isso é apenas meu lado mesquinho, gritando alto dentro de um apego completamente fora de controle. A hora em que as pessoas se vão é a hora certa. E, se estivermos bem atentos, conseguiremos perceber que a vida te afasta das pessoas antes mesmo de você notar. “A emoção acabou, que coincidência é o amor. A nossa música nunca mais tocou.” A nossa música nunca mais tocou.
Quem passa, passa sempre por algum motivo. Alguns são rápidos como uma tempestade de verão, outros são brisas mornas. Tem gente que passa como furacão, tem gente que chove em você todos os dias.  A verdade é que todo mundo passa, mas o tempo de permanência é uma escolha. Ficar na sua vida é opção. Então aprenda a amar a decisão de quem escolheu ser sol nos teus dias, acordar todas as manhãs ao seu lado, ainda que as nuvens sejam negras. Aprenda a idolatrar a virtude de quem consegue se comprometer com o que acontece em você além de uma estação do ano. Quem passa, passa sempe por algum motivo. Mas quem fica, fica por escolha.

Amor é perigoso

– É que acho que existem outros caminhos até você que ainda não foram explorados. Algo não tão inofensivo quanto uma paixão, nem tão enlouquecedor quanto sexo selvagem.
– E não seria isso o amor?
– Talvez.
– Amor é perigoso.
– Mas apenas ele permanece. E não consigo imaginar como alguém possa querer qualquer efemeridade com você. Te acostumaram mal, sabe. Te ensinaram a doar apenas o que passa e você é uma fonte incessante das melhores combinações humanas. Quem te quis efêmera, não soube lidar com o tamanho da tua eternidade. Quem te quis efêmera, ainda procura farpas tuas em outros lugares. Acredite, quem experimenta furacões não se contenta com chuvas mornas de verão. Eu quero esse lugar incomum, esse caminho pelo meio. Quero te tirar da zona de conforto e desbravar a carne viva do teu coração. Eu quero a tua permanência pulsando viva a cada inspiração minha. E acredite, eu não vou desviar das suas loucuras, das suas crises de agora, da tua intensidade jorrada. Você me dá medo, mas eu tenho ainda mais medo de perder a chance de ter você para mim. Se você é furacão, quero que varra os meus sentidos todos os dias. E eu, eu quero ser a paz dentro do teu olho.

Menos Caio Fernando, mais Manoel de Barros

Um dia eu disse que queria menos Caio Fernando e mais Manoel de Barros. E se não me engano, foi perto do dia em que você me disse que Caio Fernando era derrotista demais para mim. Eu não sabia, estava cego para dar-te pouco mais da atenção que te dava.
Você veio em passos curtos, escalou meus muros, pulou os obstáculos que eu sempre fiz questão de erguer. Sou armadura, menina, você sabe. Meu coração é um presente duro que aprendi a não doar mais. Corações como o meu têm tendência à quelóides e, por isso, é preciso todo o cuidado do mundo com as feridas.
Você sempre esteve ali, de um lado ou de outro, ventando palavras soltas sobre como eu sou diferente. Sobre as minhas qualidades, nunca meus defeitos. Sobre o que eu sou, não o que eu deveria ser. Você nunca me julgou, você entende minhas escolhas melhor que ninguém. Quando olha nos meus olhos calmamente e, em silêncio, me deixa cuspir esse monte de palavras desarrumadas. Você me entende, porque é igual a mim.
Somos artistas, almas intensas, somos discípulos do amor pela vida, pelas coisas, pelas pessoas. Somos movidos por paixões em cores, música e poesia. Somos um sarau no meio da guerra. Somos o que se sente, o lado direito do cérebro. E eu descobri isso no dia em que me disse que gostaria de me sentir melhor, enquanto o mundo quer apenas me conhecer.
Menina, você veio na turbulência, mas você foi a espera, a constância, você foi o encanto escondido. E quando presto toda atenção do mundo em ti agora, vejo-te sussurrar em flauta de pedra doce, porque és passarinho, borboleta em rio pequeno. Você é o vento que escora em andorinhas. Eu te descobri agora e desejo apenas encostar-me no azul da tua tarde. Sussurra pra mim um pouco mais dessa vida lápis de cor, que eu nunca imaginei existir. Aprendi a te ver, pequena artista, e que bela descoberta você é.

 

Tem gente que nasce poesia.
Manoel de Barros

A senhora vestida de azul

É um dia daqueles em que o frio bate recorde de décadas. Lá fora faz qualquer grau abaixo de zero, chega uma hora que já nem faz mais tanta diferença. Esqueci as luvas em casa, a espera no ponto de ônibus é dolorida. Esfrego as mãos, assopro-as em concha, tento mantê-las dentro dos bolsos e quase não as sinto mais. Quase nem sinto mais meu coração.
O ônibus chega com um semblante de salva-vidas, o lugar mais desejado do mundo. Me sento ao meio do corredor e observo cada ser humano que passa por mim. Apenas um me hipnotiza. Uma senhora muito idosa toda vestida de azul.
Ela entra no ônibus com um andador. Veste um casaco sete oitavos azul turquesa, com botões dourados. Nos cabelos, um lenço de lã azul claro, amarrado ao pescoço. Usa luvas de couro e sapatilhas. Nas pernas, apenas uma meia-calça de lã.
A senhora vestida de azul tem os olhos mais azuis ainda. Sobre um nariz levemente empinado, repousam seus óculos de armação muito fina. A senhorinha vestida de azul senta-se em um banco próximo à porta. Faz um frio desgraçado quando a porta se abre. Eu a observo em silêncio, ela brilha.
Ela tira as luvas das mãos e revela uma pele branca tão livre de rugas que me deixa surpresa. Mãos de menina, ela tem. Seus olhos pendem para baixo, como um choro sem hora para acabar. Olhos fundos, telas de cinema com tanta história para contar. Deve ter sido bonita a senhora vestida de azul, sou capaz de dizer por seus traços delicados. Fico me perguntando como foi sua vida, onde era menina, onde era mulher. Os lábios são finos e delicadamente rosados com algum batom passado fora das bordas. Me espanta a vaidade a essa altura da vida, acredito ser um grande segredo.
O movimento do ônibus e o frio talvez lhe dêem sono. Ela deita a cabeça para o lado, adormecendo vigorosamente e apenas acordando ao som do sinal de parar. Em um breve momento entre adormecer e acordar, seus olhos cruzam os meus. Eu sorrio, ela sorri de volta. E dentro dos seus olhos, vejo toda uma vida. Há uma profundidade no seu olhar que me aquece o coração adormecido pelo frio. Uma fração de segundos é suficiente para o meu tempo parar e minha alma sentir. Nas rugas do teu rosto, sinto tuas dores. Nos ossos das tuas pernas, me dói o teu frio. Na lateral dos teus olhos caídos, sinto tua solidão.
Queria pegar na sua mão e te contar uma história bonita, de como vim parar deste lado do mundo. Queria pegar na sua mão e traçar o tempo em sua pele. Queria sentar ao teu lado e apenas te sorrir. Te fazer uma promessa silenciosa de que os dias ainda valem a pena. Principalmente quando são azuis.

Mão

Que a vida te cuide e te trate bem.
E que se um dia eu tiver uma recaída, que exista um carinho especial ainda dentro de você, suficiente para me esticar a mão e me levantar. Sem pena, sem dó, sem arrependimentos. Apenas um respeito quase sagrado à tudo isso que tivemos por dentro. Como eu sempre terei.

Amor anárquico

A verdade é que somos viciados em amor. A única diferença entre mim e você é que não tenho medo dele.
É que eu não me conformo com o conformismo, meu amor é anárquico, intenso. É tempestade caindo em mim todos os dias e não tenho medo de me molhar. 
Você substitui o amor engolindo paliativos, pequenas pílulas de carinho disfarçadas. Qualquer coisa que te garanta companhia em uma tarde fria de domingo. Qualquer coisa que deite na tua cama e anestesie essa solidão. 
Eu não sei me conformar com paliativos, meu paladar distingue placebo de química. Não sei me contentar com o não-amor para encobrir o medo de ficar sozinho. Sou do tipo de gente que prefere a própria companhia à um amor placebo. Quando eu amo, eu pulo. Se eu amo, eu vou atrás.
E este também é teu medo.