Suficiente

Existe uma fase em que você se levanta dos tombos, ajeita os curativos da alma e entende que para tudo na vida existe um suficiente. Enough! Basta! 
O suficiente é o ponto de partida e é a linha de chegada. O suficiente é o que separa o teu hoje do que você foi um dia, é o que distingue o caminho que um novo você vai seguir. 

E é facil descobrir quando o suficiente chega, porque ele chega dolorido. Ele nunca vem vazio, vem cheio de incertezas. Ele nunca é claro, carrega suas maiores confusões: ele vem cheio de você mesmo. 
O suficiente traz apenas o que lhe é necessário: uma cópia rabiscada de quem você é, de quem você foi e de quem você está se tornando. E se tem uma coisa que o suficiente sempre traz, querendo ou não, é a pressão de decidir. Decidir pelo hoje, por você, por mais ninguém. Egoísta assim. Sem ajuda, sem colo, sem ombro pra chorar, se a decisão for errada. 
O que você vai levar a partir daqui? O que você vai deixar?
Você é apenas resultado das tuas decisões de ontem. E se te falta algo ou se outro algo te conforta, é porque um dia você teve que decidir. 
Se existe alguma obviedade na vida, é justamente sentir uma metade sua cheia, outra metade vazia. É carregar consigo as escolhas de um alguém que, à duras custas, você conseguiu traçar. 
Talvez você consiga ser hoje o que sempre sonhou um dia. Talvez você esteja onde sempre quis. Ou talvez você seja apenas humano demais pra ter sequer um pingo de certeza do que realmente quer. E isso, meu amigo, nada mais é do que mais um caminho cheio de possibilidades. 
Nós somos capazes de mudar apenas nós mesmos e de, às cegas, moldarmos quem seremos amanhã, baseados unicamente no que somos agora.
Decisões nunca são o fim do caminho, são apenas bifurcações. O “basta” é um leque cheio de oportunidades. Escolhas geralmente doem, mas também dão um orgulho inexplicável.

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Precipício

Se olhar para baixo, cai.
Existe um lugar ainda mais sombrio do que esta ponte artesanal de madeira sobre o precipício que você tem atravessado. De um lado, fogo; do outro, gelo. No meio, ah, no meio há um vazio imenso e é tão difícil descrever o vazio. Como um buraco negro onde todas as emoções são anestesiadas, uma por uma, como se tudo o que se sente não fizesse mais o menor sentido ou não tivesse importância. 

O vazio é o mergulho silencioso em água parada. É o corpo leve flutuando no vácuo, a cabeça pesada, o barulho estarrecedor de dentro. E cada vez que olha para baixo, sente o vazio mais perto.

Então teus olhos fitam o nada que, de alguma forma, se assemelha ao que você sente hoje. Um transbordamento de nada. E por se sentir tão familiar, fita o vazio como se o pertencesse, como se quisesse derreter-se em seu estado líquido e fundir com ele.

Mas antes que decida qualquer coisa, me deixa te contar que eu vim aqui só para te ver. Ainda que todo mundo tenha se afastado, eu estou aqui, do outro lado da ponte, quando passar pelo fogo ou pelo gelo. Me leve ao teu lugar favorito quando fechar os olhos. Quando você mergulha, eu estou no vazio contigo. 

Nunca se esqueça, você existe no teu passado. Você existe em mim, olha bem nos meus olhos. Sente esse fiapo de sorriso aqui fora? Era teu. O presente é apenas cegueira momentânea. 

Nunca se esqueça de que você existe nas horas de quem te ama, nos sonhos daquele amor antigo, nunca se esqueça de que mesmo quando é nada, é tudo, ainda que para alguém.
Então respira fundo, não pula. Não se anule, ainda não. Segura a minha mão, esfrega os olhos, veja quantas mãos te carregam enquanto não sente teu peso. Veja quantos sorrisos enxugam tuas lágrimas. 

Volta em mim.

Há sempre o depois, depois do agora.
* escrito em Maio de 2014

Esquece

Tanta coisa pra (re)dizer, (re)escrever, (des)entender,verbo abafado, sem voz.
Um milhão de dedos, medos, um excesso
(e também uma grandessíssima falta)
de nós.

É que nas noites eu amanheço 
poça lúdica em travesseiros. 

Deixa o dia esfriar a água salgada que escorre do lado esquerdo. 
Esqueço.