Conversa

Menina, menina. Te olho daqui de cima, sabia? E vejo que teu mundo está desmoronando aos poucos ao teu lado, e vejo o quanto você pega os cacos caídos no chão e tenta recolocá-los no mesmo lugar.  Por horas e horas a fio você os recolhe um por um e, sim, desanima, que eu sei, mas continua nessa penitência quase religiosa de tentar consertar o que se quebra.
Eu sei o quanto tem sido difícil para você, eu sei das suas dores, eu vejo cada lágrima que escorre em seu rosto, cada dor de cabeça, cada noite mal dormida, eu sei. E só queria que você soubesse que eu sei. E que vejo. E que estou aqui com você.
Não subestime as palavras daqueles que te julgam forte, eu também sei o tamanho da sua força, mas olha, deixa eu te dizer uma coisa: não precisas ser forte o tempo todo. Deixe que coloque minhas mãos no teu ombro enquanto te desmorona ao chão em lágrimas, deixa que te dê a mão e te levante novamente. Olha, segura a minha mão, estou bem aqui do teu lado.
Sente esse alívio repentino? Estou com minhas mãos sobre a sua cabeça, derretendo todas as suas angústias e os seus medos. Sente essa paz súbita no coração, como uma chama quente? Estou assoprando toda a força espiritual dentro de você.
Menina, não deixe de ser forte. Mas permita-se ser fraca. A vida é apenas uma sucessão de acontecimentos, encontros e desencontros, as coisas dóem no peito. E há chances de que sempre exista algo a doer, caso contrário, isto não seria vida.
Uma coisa eu te conto, pequena:  vida é o que conseguimos experimentar, seja bom ou ruim. A vida é o que sentimos no corpo e na alma. Mas tenho um segredo: as coisas só vem na medida do quanto conseguimos suportar, nem mais, nem menos.
Agora se acalme, estou bem aqui ao seu lado. E olha, menina, vai chegar o tempo em que as lágrimas secarão, vai chegar o tempo em que o coração não vai mais doer. A bonanza também é vida. E não dói.

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Céu

Sabe, eu nunca te contei, eu penso demais. Eu filosófo, eu crio cenários, minha imaginação talvez seja minha melhor amiga e pior inimiga. Quando eu era criança, me deitava no sofá amarelo sob a janela para ouvir Clair de Lune, de Debussy. Eu pensava na vida olhando para o céu e tentando ver além das estrelas. E quando me pego num momento completamente desesperado, ainda faço isso, principalmente em noites de lua cheia.
Às vezes estamos tão alienados com os nossos problemas que nos esquecemos de parar, de olhar em volta, de olhar pra cima. E entenda o céu como você quiser, mas ele está ali. Seria muito mesquinho se fossemos apenas isso: Terra.
Essa semana tem sido uma das mais difíceis pra mim, são todos os problemas do meu mundo ao mesmo tempo, e não está fácil lidar com esse furacão.
Ontem à noite, peguei meu telescópio e resolvi olhar o céu gelado dessa Inglaterra. Nessa cidade tão diferente de São Paulo, onde as estrelas realmente brilham. Observei alguma estrela que brilhava um pouco mais, infelizmente não entendo nada de astronomia. E ela, naquele momento, se explodia em fogo, em cores, em luz. Fiquei pensando no quanto acontece com essa estrela enquanto estamos aqui, preocupados com os nossos minúsculos problemas. E quantas pessoas será que percebem o que se passa além da cerca de seus jardins?
Essa noite esqueci de fechar a cortina do quarto e acordei com o sol no meu rosto. Como se me aquecesse a alma por dentro e dissesse que tudo ficará bem. Senti uma luz quente pulsando dentro de mim, deve ser o que chamam de força.
E neste exato momento, enquanto escrevo essas palavras pra te contar da minha vida, meu marido me liga pra dizer que acabou de ver uma estrela cadente. Eu fui para a janela e não vi nada, apenas milhares delas. Cada qual com sua tempestade estrelar mais magnífica que a outra. Como verdadeiros milagres onipresentes, olhando por nós e nos fazendo lembrar do quanto somos pequenos.
Preciso parar para olhar o céu. Preciso entender que a vida é muito maior que tudo isso.

Though your heart is aching…

Smile though your heart is aching
Smile even though it’s breaking
Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying?
(enviado fofamente pela @paolitz, via twitter)

Pedaço de você

Um pedaço de você
era tudo o que precisava agora.
Arracar-te de uma fotografia qualquer e afundar-me em teus olhos que me lêem, a água doce da tua boca, o calor da tua respiração no meu pescoço.

**

Um pedaço de você para mim
era tudo o que precisava agora.
Arrancar-te dos meus sonhos e guardar-te em uma caixinha secreta, onde possa te ter a toda hora. Derramar-te pelo meu corpo, te misturando ao meu cheiro, meus pelos, meu gosto.

**

Um pedaço de você em mim
era tudo o que queria agora.
Arrancar-te da minha mente e fazer-te vivo, suor que corre quente, sangue que pulsa em veia, coração que dispara em galopes.

**
E de pedaço em pedaço, ainda hei de te fazer inteiro em mim.

Ser gota em você

Chovia enquanto você caminhava por aquela rua.
A água escorria pelo seu corpo.
Eu não estava lá, mas podia te ver dentro dos meus olhos.
Eu quis tanto ser uma dessas gotas, escorrida em você.
Deslizar pelo seu cabelo, correr pela sua pele quente e terminar na sua boca.
Começar na sua boca.
Quis, por um segundo, estar no exato momento onde seu olhar parou.
Quis ser seu foco.
Seu motivo, seu mundo, seu tudo.
Por um segundo.