Quando acontece

Enquanto ela dormia ele acariciava-lhe o rosto, emaranhando seus dedos em seu cabelo, desenhando no ar os traços de um sentimento que não sabia mais entender. Desistiria então de analisar, questionar, pois tudo era abstrato e intangível, além da curva entre seu queixo e seu pescoço afogado em beijos, além do perfume de flores que exalava do meio dos seus seios. Não havia mais caminho, todos os passos para trás teriam sido diluídos em algum lugar perdido na metafísica da vida, essas coisas de energia não se explicam, cara. Era um vazio para frente, outro para trás. No mundo inteiro, só havia aquele momento parado no tempo, um relógio que não andava mais e ela, dormindo sobre seu travesseiro, dissipando seu cheiro de flor entre os lençóis, marcando de suor para sempre a sua vida.
Pois que ali dormia um amor desses que não acontecem, um amor improvável escondido dentro de um desejo  de pele. Nela se guardavam os segredos que queria descobrir, as noites que sonhava em passar em claro bebendo cerveja, conversando sobre suas infâncias e rindo toda aquela risada que ela tinha. Era ali, entre aqueles lábios, que se podia abraçar com um beijo um sentimento desses que não se explica, mas se sente, e se esconde, porque é preciso se proteger de coisas assim. Do amor improvável, daquela falta de coisas em comum, daquele monte de impecilhos que sempre inventaram, do não poder e não dever. Era essencial se proteger do que crescia, podar a cada dia um pedaço dessa raíz já fincada no peito há tanto tempo.
Não, nunca daria certo, pensava ele, sem nunca ao menos ter tentado. E não existia uma solução, pois a tentativa por si só era um buraco negro, suicídio. A tentativa era um futuro que talvez nunca virá. 
A grande verdade é que passavam dias assim, escondiam-se entre beijos e suores e orgasmos, sem sequer saber que seus olhos refletiam o que mais tentavam proteger: aquela parte vulnerável que pulsa tão fortemente toda vez que seus pensamentos se cruzam.
A ausência de palavras já não incomoda quando os olhos falam tudo o que se quer ouvir.

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Um post, ao invés de mil replies

Mais uma vez volto aqui pra responder às perguntas que vivem chegando via comentários: não estou me separando, gente, obrigada pela preocupação. Estou de férias no Brasil e volto pra Inglaterra logo.

Não se esqueçam que muito do que eu escrevo não tem absolutamente nada a ver com a minha vida, são insights, inspirações que eu pego do cotidiano, misturo comigo e mais um mundaréu de gente que encontro por esse planeta. Não pirem, tá! Beijos.