Distância

Descobri que enfrentar o que nos incomoda às vezes não passa de mimo. O que irrita grita, o eco ensurdece e confunde. O que precisamos hora ou outra é nos retirar e deixar que o que incomoda ecoe sozinho, mal alimentado por um ego inflado de hábitos. Um dia o som abafa, um dia a gente esquece, um dia o silencio chega.

Hora de se afastar de gente pequena, de assuntos superficiais, de coisas que não acrescentam. Sim, é um pouco egoísta, mas ser egoísta de vez em quando é essencial para a saúde.

E que, dentro desse eco, apenas os sons afinados permaneçam em mim.

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Sobre este momento

Sobre este momento, um fim.

O definitivo finalmente chega.

Pedra.

Aqui jaz você. Nós dois.

O que existe de você hoje, eu já não faço a menor questão.

Silêncio.

Eterno.

Sobre este momento, fim, pedra, silêncio.

 

Gosto de gente

Eu gosto de gente livre, mas livre mesmo, não essa gente que se apega à um conceito pré-criado de liberdade. Gosto de gente que pertence ao mundo, de alma, de corpo, de coração. Eu prezo às pessoas que se apegam um pouco, sim, costumo achar o total desapego uma leve desculpa para não se comprometer com nada. Que exista o compromisso, mas com a gente mesmo: com os nossos sentimentos, os nossos valores, as nossas vontades.
Gosto de gente que tem vontade e diz o que é. Que não tem medo de pegar na mão e olhar nos olhos, gosto de gente que não tem medo de dizer o que sente, quando o que se sente é apenas o que se tem. Gosto de gente que não foge de abraço, que fecha os olhos, que se entrega. Gente que não tem nojo de sexo, de cheiro, de saliva e de suor. Gente disposta.
Gosto de gente que se interessa; por cultura, por música, por qualquer forma de arte que eleve o ser humano. Gosto de gente culta. Não precisa ter lido James Joyce, mas me intrigam as pessoas que se permitem ir um pouco além do que é direcionado à massa.
Gosto das pessoas que saem pelas beiradas, gente que contesta, que nunca aceita tudo da forma em que lhe é cuspida, gente que olha pra fora da sua própria bolha. Gente que pensa. Que idealiza. Que busca.
Gosto de gente que vai atrás do quer, seja lá o que for esse querer. Gosto de gente que se valoriza e, por isso mesmo, se permite ir. E vir. E voltar. E ir de novo. Gente que entende que a vida não passa de uma porção de experiências, e que experiências precisam ser naturalmente experimentadas.
Pessoas de mente e corações abertos. Nômades de alma. Que gostam de fincar o pé em um pedaço de terra, mas não têm medo de outros chãos. Gente que se pertence sob qualquer céu. Que se adapta. Que enxerga mudanças como oportunidades e as usa para crescimento próprio. Gosto de gente que foca em crescimento pessoal muito acima do profissional.
Gente que não se menospreza, não se desvaloriza. Gente que sabe o quanto custou para ser quem se é hoje e não se entrega tão fácil. Gente que não tem medo de parecer frágil, exatamente por saber sua própria força; gente que se testa. Que vai além dos seus limites. Que está sempre tentando algo novo. Gente que não se acomoda.
Gosto de gente que valoriza o que tem, que não tem auto piedade e nem se faz de vítima, porque não tem tempo pra isso. Gosto de pessoas que entendem os outros com suas bagagens emocionais e físicas, com suas feridas e cicatrizes. E que se entendem.
Gosto de pessoas que não têm medo da vida, do futuro, que usam o passado como alavanca. Gente interessada em um bem comum: o bem, apenas. Gente que se comove e tem compaixão, mas não precisa mostrar que é altruísta, porque o exibicionismo anula o altruísmo.
Gente que divide. Que compartilha experiências. Que conta histórias. Gente que têm as histórias mais interessantes, porque vive. E, se bobear, vive em vários lugares.
Gente que ama, que cuida, que preserva, que aprende, que defende, que contesta, que briga, que fala, que grita, que cai (inúmeras vezes), que compreende, que não tem medo, que questiona, que chora, que diz, que sussurra, que gargalha, que sabe, que procura, que pesquisa, que releva, que revela. Gosto de gente que se faz sozinha. Gente que se reinventa. Gente que não tem medo de mudar o mundo. Gente que não tem medo de mudar a si mesmo.