Sobre o Seu João

Toda vez que passa um caminhão muito perto de mim na rua, eu me lembro do Seu João. O Seu João da Dona Maria e da interminável mesa de torresmos.
Talvez tenha sido um fim de semana ou feriado na casa dos compadres dos meus avós, que era como se chamavam uns aos outros, as pessoas nascidas antes da década de 20. Me lembro da Dona Maria velhinha e de uma casa muito simples em alguma estrada de Itu. Tinha um quarto nos fundos com paredes descascadas, cheio de mosquitos, onde não conseguimos dormir. Não me lembro da fisionomia do Seu João. Ele usava um chapéu; mas isso bem que poderia ser fruto de uma infância corrompida por histórias em quadrinhos ou dessa minha mania genética de contar e enfeitar causos. Sabe, quando mais de vinte anos te separam da tua infância fica difícil entender o que era verdade, o que era contado e o que de tão contado acabou virando verdade. Talvez nunca tenha existido chapéu.
Mas se tem uma coisa da qual eu não me esqueço é da mesa de torresmos. Era uma sala com portas enormes de madeira maciça, janelões e uma mesa retangular no centro com toalha florida. Uma mesa sem fim cheia de torresmos. Ou o que parecia sem fim no campo de visão de uma criança de cinco anos. Seu João tinha acabado de fritar os toucinhos e aquele cômodo cheirava a leitão à pururuca, e eu nunca mais vi torresmos crocantes e reluzentes como aqueles.
Algum tempo depois meu avô me contou que Seu João tinha falecido. Atropelado por um caminhão na estrada da frente da sua casa. E posso jurar que o chapéu tinha ficado ali no chão, mas não tenho certeza sobre o chapéu.
Toda vez que passa um caminhão muito perto de mim, eu me lembro do Seu João. E se o Seu João consegue, de alguma forma, saber que eu ainda me lembro dele, deve achar um pouco esquisito ser lembrado por uma mesa de torresmos, um caminhão e um chapéu que talvez nunca tenha exisitido.

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