Amanheceu

Cada sol em mim tem sido um pequeno martírio. As palavras não ditas ardem meus ouvidos. Os dedos desentrelaçam sutilmente das mãos e eu nem percebo. Estou sozinha e minhas pernas pesam por andar demais, e em vão, a procura de alguma coisa que faça sentido. Uma peça perdida de um quebra-cabeça que, de tão esquecida, entortou um bocado nos cantos e não encaixa mais. 

Quando foi que eu me perdi de nós?

A gente vai sorrindo por fora e trincando por dentro até o fim do dia. Mas é na cama encharcada de angústia e incertezas que a gente quebra por inteiro e não levanta mais. 

Amanheceu.

La vie est ailleurs

Abri todas as cortinas, escancarei as janelas e deixei meu rosto se afogar na brisa úmida da manhã. Liguei a cafeteira, estendi as roupas no varal, troquei os lençóis, perfumando-lhes cuidadosamente com água de lavanda, coloquei meu vestido azul de poá e Couer de Pirate para tocar. La vie est ailleurs, dans un âge lyrique*.

Convidei o que me sobrou de alegria para rodopiar o vestido pela sala, escorregando entre os acordes de piano e o francês rouco, quase infantil da Beatrice. Cheiro de café me inebria desde criança.

Os pardais pousam roliços na minha janela, corvos passam gritando no céu azul, tão azul que meu vestido desbota aos poucos. Et tes peines s´enfuient, tes tristesses se dissipent**.

Enxuga as lágrimas que escorrem por dentro e rodopia. Esboça um sorriso colorido, não se pode ser triste na primavera. Enfeita tuas manhãs com poemas, doces e vestidos. Reinventa teus sonhos, costura tuas pequenas alegrias. A dor já passou e você já pode dançar.

 

 *A vida está em outro lugar, dentro de uma época lírica.
**Teus problemas fogem, tuas tristezas se dissipam.

 

Desperately lonely

Desperately lonely. duas palavras que soam quase como uma música ecoando pela minha cabeça há meses. desde que você saiu daquele bar rindo, depois de dizer que nunca havia me amado. duas palavras que ecoam com o som da tua risada sórdida, o cheiro do teu prazer ao ver meus olhos se afogando em sal. desperately lonely. desde que todo mundo foi embora. um por um, como areia fina em ampulheta, como se o tempo quisesse me provar que ele é dono de tudo, inclusive de mim.

e de repente assim, do nada, eu perdi todas as minhas referências sobre o amor e não estou conseguindo achá-lo nas entrelinhas. é como se todo mundo estivesse partindo de mim e eu – bem, eu fico aqui, num barquinho frouxo à deriva, madeira puída, tinta gasta, sem remo, sem mantimentos, sem rumo, sem saber nadar.

(não partam de mim, não quero me afogar.)

você foi brisa quente em dia de verão, meu solo estancava o sangue quase seco de um amor quebrado e você chegou e se sentou no banco do pier e me perguntou o que eu fazia ali há horas, olhando o farol, lembra? a tua voz me penetrou feito pluma, me vestiu o corpo franzino e gelado por dentro e com as duas mãos em concha pulsou meu coração quase sem vida, querendo qualquer distância que fosse daquela imundice emocional, daquele quarto que havia incorporado o cheiro doce dela, daquele cenário que torturava minha memória, com seu gosto misturado ao café vencido e ao vinho barato. sua voz me penetrou feito pluma. e por seis anos você me fez andar em nuvens. eu me sentia diferente, sabe? havia uma quase certeza absoluta de que você me amava quando se derramava lá no fundo dos meus olhos. havia uma quase certeza absoluta de que nos fazíamos muito bem quando as noites eram regadas a gargalhadas e você tentando cozinhar uma massa e vinho derramado no chão e suor e Janis Joplin e gargalhadas e orgasmos múltiplos. deus, como você me fazia bem.

e por seis anos fizemos planos. a casa de container que eu construiria pra gente, uma vida autossustentável, dois cachorros, um gato, uma horta grande no quintal para você ter seus orgânicos, uma criação de galinhas, a viagem pela indonésia de bicicleta, o voluntariado no Quênia, o Arthur e a Ana pequenininhos correndo pela pradaria atrás das galinhas enquanto a gente se lambuza de massa crua de bolo de chocolate. eu vi tanto isso, eu senti tanto isso e era de uma leveza boa, uma projeção morna, dessas que dão sentido.

e o peso com que isso atingiu meu rosto naquela quarta feira no bar do otávio, eu não sentia esse peso desde que meu pai morreu. “eu nunca te amei, eu não sei amar, segue a sua vida, você passou pra mim”. demorei alguns minutos para entender o quão dissimulada você é. foram seis anos da minha, da sua vida. foram seis anos em que acreditei e você me enganou.

e desde então não venho me encantando com nada, como se a vida fosse uma grande mentira, um imenso espetáculo social de atuações.

eu te dei o meu melhor e deixei você levar o que tinha de mais bonito em mim; a minha paz. e hoje eu sento aqui no banco do pier de novo, analisando meus erros com café amargo e esperando que ninguém nunca mais me penetre feito pluma. desperately lonely. eu tô perdendo a referência de amor e não tô conseguindo achá-lo nas entrelinhas.

Dente-de-leão

A realidade está distorcida, meus olhos clamam por verdades. Traga-me apenas o que for verdadeiro, genuíno, único. Que a bagagem seja pesada, dane-se, não faço questão de gente leve, elas geralmente têm pouco a acrescentar.

Assopro relacionamentos tóxicos como assopraria dentes-de-leão, os de mão única, os que não criam vínculos, os que não sabem lidar com as minhas raízes. Que voem para bem longe de mim. Assopro levemente, um por um, pois não tenho mais pressa, não tenho lágrima, quero apenas que se dissolvam no vento. Que encontrem pessoas menos ingênuas que eu. Que encontrem gente calejada de coração duro que não doa. Que não se doa. Que não se aproveitem de amores gratuitos e não machuquem mais corações idiotas, e que eu aprenda. A não ter essa necessidade imbecil de ser importante. Que eu aprenda a não me encantar pelas almas perdidas, prontas a derrubarem tudo o que eu construí em mim. Que eu perceba, de uma vez por todas, que eu não preciso consertar o mundo, muito menos as pessoas. Não é a minha sina. E que, ainda assim, continue doando, me permitindo, percebendo os corações de pedra por trás das máscaras, entendendo que nem sempre o que a gente dá é o que a gente recebe e que tudo bem, desde que eu saiba partir.

Que eu continue sempre em pé, inteira, para nunca mais me alimentar de metades.

 

Me derrama

Aqui
Deitada no chão
Medindo os limites
Da minha existência
Em toneladas

Minhas arestas me consomem
Meus limites me desmontam
Sou quadrada
Quando quero vastidão

Não sei conter essa finitude
Me inundo
Transbordo sem fundo

Sou poço
de escuridão

Um dia passa

E prendendo o beijo não dado entre os lábios, ela disse:- desculpa se ainda gosto de você, um dia isso passa. 

Tem que passar.

A verdade é que pouco tinha sobrado do cara por quem ela havia se apaixonado um dia. Ele não era mais ele. E ela, bem, ela era cheia de incertezas.

Mas uma mulher decidida como ela não sabia viver de incertezas. Ela é crua e afiada como uma navalha. Ela precisa de verdades. Ela precisa que ele lhe olhe nos olhos e vomite o que passa no peito, seja lá o que for. Ela precisa da honestidade sangrando pela pele, porque a honestidade dói menos que esse poço fundo cheio de porquês. Ela precisa que ele solte a mão da xícara de café e lhe acaricie os dedos frios de nervoso. Ela precisa que ele diga que eles sempre existirão, que isso nunca vai mudar, que amores como o deles não morrem. Ela precisa que, antes que ele lhe deixe ir, pegue seu quadril e afogue seu mundo em um abraço demorado e beije o beijo engasgado e embarace seus cabelos em um ninho de confusões emocionais e frios na espinha e desejos no estômago. Ela precisa que ele queira. 

Mas ele já não era mais ele e não havia nada que pudesse fazer para mudar. O tempo passou. Não era mais a vez dela. Talvez nunca tenha sido. E o fantasma da ilusão dilacerava profundamente seus órgãos internos. Por que sofrer, menina? Você não precisa disso, você não precisa dele. O vazio que ele preenche é um vazio teu. Esse buraco é teu. Não adianta tentar enchê-lo com coisas e pessoas porque nada fica, nada pertence. Aprende, de uma vez por todas, que não é ausência, não é desdém, não é falta de amor: esse vácuo no peito é somente teu. E não coloque mais ninguém nos teus vazios.

Enxuga essas lágrimas presas, solta esse nó na garganta, nenhum coração tão cheio de amor como o teu merece sofrer por não ser amado. Chegou a hora de deixar ir. 

Um dia passa. Tem que passar. 

Escorre 

Desceu os olhos para dentro de mim, deslizou sem medo pelas minhas pálpebras. Eu gostava da curva torta do seu sorriso, ele se afundava em um passado distante bem na esquina do meu ombro. 

A cerveja tinha o gosto do suor perdido, o beijo esfriou e ficou arquivado em alguma prateleira empoeirada. Eu sinto falta do beijo roubado. Das palavras sussurradas quentes nos meus lábios. Eu sinto falta do gosto da pele molhada, do pelo arrepiando na língua, de ouvir o mundo ecoar no seu peito. 

Éramos cúmplices de um amor que só existe na minha cabeça. Entre bares e cafés, nossos sorrisos velam um enredo escondido, promessas esquecidas,corações pisoteados demais para acertarem um erro outra vez. Já perdemos tanto tempo. 

Quando quiser voltar, me avisa. E mergulha dentro de mim outra vez – eu não sou assim tão profunda. 

Purgatório

Fazia frio, sacudi as cortinas pesadas e abri a janela porque eu precisava de ar, eu precisava respirar. Eu precisava expirar você. Acendi um cigarro, eu nem fumo, mas havia essa necessidade de expurgar, de mudar, traguei toda a nicotina com gosto e você se misturava ao sabor da saliva velha, do beijo vencido, do café amargo na tua casa, o whisky de ontem à noite, deus, eu precisava não sentir mais nada.
Um casal feliz passou pela minha rua e eu os observei ainda tragando você, são 23h40, talvez eles tenham acabado de trocar fluídos, desejos, promessas, talvez eles se afoguem nessa ilusão imbecil de que todo amor dura, não dura, nada permanece, senão essa constante solidão, essa falta de sabe-se-lá-o-que, esse insaciável vazio no peito.
Você me machuca. Talvez tudo o que eu tenha feito ultimamente tenha sido tentar resgatar o quanto você me fazia bem – pura tolice minha. Há meses você não me faz um elogio sequer. Há meses você rodeia quando te pergunto o que sente. Logo você, que me fazia sentir a mulher mais incrível do mundo. Contigo eu sinto tudo, menos eu mesma. Você me fazia sentir especial e eu gostava daquilo, a gente tinha o pacote completo: uma paixão avassaladora, amor, tesão, risadas, conversas inteligentes, uma química que eu acho que nunca mais senti igual. Você me fazia tão bem e talvez eu ainda esteja agarrada nisso.
Eu afogo minhas noites em um monte de porquês. O que é isso, afinal, amor ou ilusão? Que necessidade é essa que me prende em você? Ontem foi o nosso último adeus, baby. Eu sei que eu já disse isso milhões de vezes antes, mas eu preciso tocar esse barco, entende? Eu preciso não permitir que você tire o meu brilho. Eu preciso não perder o equilíbrio com o seu desamor. – Última vez, chega! sussurrei para mim mesma. Já bebi demais desse veneno. Relações de mão única não duram.
Teu cheiro ainda corre o meu corpo, eu dou a última tragada em um cigarro que não me fez nada. Preciso de curas mais fortes, um whisky, um banho quente, quem sabe. Preciso de músicas que me doam todos os meus pedaços. Meu corpo dói, meu coração arde, cansei de porrada. Mais uma vez você escolhe sozinho e me obriga a matar o que eu sinto, e eu juro, essa será a última.

Preciso expurgar você.