Pequenos devaneios de fim de ano

Vai ano, vem ano e os discursos desta época são sempre iguais. Cheios de  imperativos, faça isso, mude isso, seja aquilo. Já faz um tempo que descobri que nem mesmo eu tenho controle sobre os meus imperativos, quem dirá os outros.

Há alguns anos venho tentando lidar exatamente com essa falta de controle sobre a minha vida. De certo, tenho decisões a tomar todos os dias e isto, invariavelmente, me coloca as rédeas nas mãos. Porém, de sopetão – e é sempre de sopetão – algo acaba acontecendo e arrancando todas as suas raízes do chão, chacoalhando todas as suas folhas secas, te colocando para sentir o hálito quente da vida bem pertinho do seu nariz. Respira, o hálito quente da vida é o que mais te faz sentir vivo.
Eu não tenho controle sobre nada. E este texto, muito menos. Este texto sequer remete a qualquer controle espiritual. Tenho cada vez mais focado no tangível, não é fácil ser realista (mas a vida faz essas coisas com a gente). E como eu ia dizendo, eu não tenho controle sobre nada. E o dia em que você perceber isso, caro leitor (deixe-me fingir ser escritora), eu te prometo que doerá. Dói pra caralho perceber a falta de controle total e absoluta que temos perante nossos maiores acontecimentos. Seja pela ânsia da vida, pela morte, pela doença, a verdade é que os sopetões vêm como granadas. Chegam desconstruindo tudo o que conhecemos como “nosso”, chegam arrancando o ultimo fiapo de ar do peito. E dói, porque dói desconstruir. Dói ver a nossa realidade desmoronando com tudo o que tem dentro. Dói ver todos os nossos sonhos rasgados no chão, dói uma dor tão pungente imaginar um futuro – aquele que imaginamos a vida inteira – destruído. Não existe nada, não sobra nada, não tem mais praticamente nada nosso. Sobram apenas esse corpo já não tão saudável, essa mente perturbada, essa enorme falta de fé em tudo, sobra esse emocional já tão abalado. E é exatamente tudo isso que é preciso recolher do chão, caco por caco, pedaço por pedaço de fracasso, de insegurança, de medo, de tristeza profunda, de revolta. É preciso recolher todos os nossos cacos estragados.
Eu não sei como é o amanhã. Eu não sei se vai ser tempestade ou bonança. O que aprendi nesses últimos anos é que a vida é um eterno ciclo entre os dois.

Talvez você tenha pensado que este texto fosse terminar de uma maneira otimista, desculpe desapontá-lo. Eu disse que não sei como é o amanhã. Mas posso te presentear com alguns imperativos, se assim desejar. Então faça mais por você mesmo. Levante. Recolha todos os teus cacos do chão, o que sobrou de você é imprescindível para continuar. Chore quando tiver que chorar, choro engolido faz mal. Permita-se doer, mas procure as coisas leves. Procure incansavelmente a risada e aquele abraço que te acalenta. Procure as coisas que te lembram sempre quem você é e quem você foi – isso é a única coisa que sobra depois de um sopetão. E não tenha medo de doer, de fracassar, a vida é isso mesmo: um tombo, uma dança, um tombo, uma dança. Talvez a gente só precise saber incorporar os tombos de uma maneira mais leve à coreografia.

 

Que 2016 seja um tango bem bonito.

 

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Anti-biótico

A falta de arte me sangra. Fugir do sóbrio de todo dia é uma necessidade que urge. Quanto mais o mundo afunda, mais eu careço de arte, mágica e coisinhas bonitas. Pequenos goles de coisinhas bonitas. Como um antibiótico, sem pular nenhuma dose. Anti-biótico nunca fez tanto sentido.

A realidade não desencanta mais, somente; ela crava suas garras afiadas e doloridas na minha pele já tão surrada. Eu jorro cinza. 

O inverno entra pelos meus poros sugando as poucas horas de luz. O sol tenta rasgar o dia, mas as nuvens são enormes soldados de chumbo que não permitem passagem. Falta-me um espectro inteiro de cores, elas não são mais vivas, as cores morrem. 

Os gansos e as andorinhas já cruzaram o oceano, permanecem aqui apenas os corvos, as gaivotas e os pombos, os robins. Invento dragões que cospem fogo. Magos que habitam castelos de areia. Cavalos encantados que correm pela neblina. Os coelhos falam. A vida que eu crio é apenas uma fábula. Uma flor que brota em pedra, um riacho que conversa, os poemas recitados pela coruja na madrugada. As pinceladas na tela crua, os versos soltos na página branca. A maneira que o bigode branco do meu gato rasga de um nariz rodado. Coisinhas bonitas. Preciso de coisinhas bonitas. 

Não é de hoje

Não é de hoje que eu não deito no teu colo e te invento um soneto pra mostrar o quão importante você é pra mim. Não é de hoje que não emaranho meus dedos nos teus quando apenas quero que você fique. Não é de hoje que não seguro teu rosto com as mãos e olho bem dentro dos teus olhos pra dizer que te amo tanto. Que sempre te amei. Que sempre te quis. Que sempre deu. Que a gente sempre inventou. Que a nossa história é uma das mais bonitas.

Não é de hoje que a gente é desencontro, é tropeço. Não é de hoje que a gente não dá certo.

No entanto, também não é de hoje o quanto teus olhos brilham quando vêem os meus. Ou que há uma faísca visível quando a gente se toca.  Não é de hoje que nossos corpos se encaixam milimetricamente perfeitos em toda essa imperfeição. Não é de hoje que eu habito teus pensamentos mais indomáveis, tuas noites mal dormidas e o lençol da tua cama. Não é de hoje que eu te seguro quando você cai e que você está comigo quando eu mais preciso. Não é de hoje que aquele eu te amo engasgado vem saindo dos nossos peitos. Não é de hoje que a gente tropeça em palavras tentando apenas entender o óbvio. Que também somos hoje e que com certeza seremos amanhã. Sempre.