O amor

As pessoas não encontram o amor porque não sabem exatamente o que estão procurando.
O amor é aquele telefonema no meio da tarde para saber se você tomou seu remédio. É a mão que envolve a tua mão gelada com o puro intuito de aquecê-la. É o café com dois pacotinhos de adoçante, porque é assim que você gosta. É a tarde no jardim  olhando o céu e conversando sobre metafísica. É a noite estrelada, gelada, onde dois corpos conseguem habitar um só casaco. É o fim de semana de chuva com a sua melhor amizade e suas melhores risadas.
O amor mora no reflexo das pupilas. No jeito que teu coração ainda acelera depois de dez anos, no modo em que você sorri involuntariamente quando vê a outra pessoa, ainda que a veja todo dia, por tanto tempo. O amor mora dentro do abraço e é tão fácil reconhecê-lo. O abraço de amor é único.
Ele é o que encanta, o que te aquece o coração. Você sente seus olhos brilharem, é físico. O amor é o sexo incrivelmente lapidado: quanto mais tempo, melhor. É ter décadas de história e ainda lembrar cada detalhe. É olhar fotos do passado e descobrir o quanto estavam felizes em cada uma delas, independente da época.
Não há como não perceber, você sempre sabe quando é amor de verdade. É muito diferente de paixão. Amor é o ombro do teu melhor amigo, as risadas da tua melhor companhia, o cuidado que só teus pais têm com você, a confiança que você só recebe dos seus irmãos, os frios na barriga da sua melhor paixão, o teu melhor sexo. O amor é o melhor de todo mundo que você já teve na vida, só que em uma só pessoa. O amor de verdade não morre nunca, está em constante renovação.

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Conselhos de um ninguém

Vou te contar uma dessas verdades absolutas: você nunca – nunca – terá certeza de nada nessa vida. Não adianta ficar procurando explicações, argumentos. Motivos são pequenos monstrinhos imaginários que sentam em cima dos nossos traumas de um jeito quente que conforta, mas não resolve. Overthinking pode te enlouquecer.
Nada é certo, a vida é um grande jogo. Para todo o yin, existe o yang. Sempre. Não há excessões. Não existe sim sem não, não existe certo sem errado, não existe escuro sem luz, não existe calmaria sem tempestade. Clichê, talvez. Mas a vida mesmo, essa real, essa bagagem pesada que você carrega nas costas, é cheia de clichês. Amores, desamores, amizades, inimizades, acertos, erros, escolhas, decisões, negligências, bifurcações.
No exato momento em que você coloca um pé em uma escolha, está deixando outras para trás. Aderir é o mesmo que abdicar. Não existe consenso, não existe meio termo. Ou é sim ou é não. “Talvez” é escolha que serve apenas para os que se recusam a sair do lugar, para os que se recusam a evoluir. Não dá para ter tudo, é essencial decidir.
Um dia você terá idade suficiente para olhar para trás e tomara que seu passado seja cheio. Tomara que seus dias tenham sido longos, que tenham existido milhões de pessoas, algumas superespeciais, milhões de sorrisos (alguns superespeciais). Tomara que tenham existido diversas mãos segurando as suas quando você mais precisou, e espero que você tenha doado ainda mais do que recebeu. Se tiver sorte, terá uma estrada cheia de histórias pra contar, terá arriscado mais e desistido menos, terá mastigado seus medos e desafiado esse conceito esdrúxulo de liberdade. Espero que você tenha histórias para contar, e que não sejam medíocres, que encantem os ouvintes, que inspirem, que motivem. Desejo mesmo que um dia você inspire ao menos uma outra pessoa na sua vida.
Mas ainda que não tenha nada disso quando conseguir olhar para trás, te desejo apenas uma coisa: a certeza morna – ainda que momentânea – de que as tuas escolhas foram as certas. Porque te juro, não há nada mais pacificador do que isso.

 

A vida é um caminho mágico

Existe uma etapa crucial na vida: o dia de tomar decisões que mudarão teus rumos, tuas crenças, teu chão. E – acredite – você não estará preparado.
A vida é um caminho mágico. Não adianta lutar contra o que vem, o que veio e o que se tem; não vale a pena negar a passagem do tempo. Supere, passe por cima dos teus próprios conceitos. Evolua. Esqueça teus medos, teus traumas, entregue. Se entregue.
Não há saída para a maturidade. Se você não consegue decidir, a vida arruma um jeito e escolhe por você.

Hoje foi o dia em que a vida decidiu por mim. Que o futuro seja incrível.

Não é a hora

Suas lágrimas são quentes quando caem sobre os meus ombros. Eu fecho os olhos e tento encontrar algum sorriso jogado em meio aos nossos cacos espalhados pelo chão. Não é a nossa hora, não é a nossa história.
Eu entendo a sua raiva, essa necessidade desmedida de arrancar teu coração das minhas mãos como se eu não soubesse cuidar. Nem sempre é falta de amor, eu te dei tudo o que eu tinha. Eu te dei tudo o que eu podia.
Sossega as lágrimas, respira fundo e procura nesse abraço teu melhor sorriso. Não me machuca com o teu rancor mais do que tenho me machucado por não poder te ter. Não tire de mim teus melhores sentimentos, eu não tive culpa de te amar do único jeito que sei. E me perdoa por nunca ter dito que te amava, porque eu te amo. Todas as vezes que disse que te gosto eu gritei em silêncio o quanto te amo. Tenta ler as entrelinhas dos meus olhos, tenta descobrir o amor nas minhas ações enquanto não aprendo a dizer o que sinto. Eu te dei tudo o que eu tinha. Às vezes o amor é tarde, às vezes o amor é cedo.

 

Demoliram a minha casa

Ontem minha mãe me telefonou pra dizer que estão demolindo a casa onde eu nasci. Eu não sei explicar o turbilhão de sensações que eu tive, um certo desgosto, uma tristeza no fundo do peito, um conformismo pelo fato da casa não ser mais nossa. Sei lá, de um certo modo eu sempre achei que a casa onde nasci fosse ser sempre minha, não importa quantos donos tivesse.
Minha mãe disse que demoliram o primeiro andar, não preciso ser nenhum gênio para imaginar que minha casa foi vendida à algum tipo de incorporadora babando para construir pequenos milhões em apartamentos. Malditas construtoras derrubando minhas memórias de infância. Primeiro foi a minha escola, que eu podia ver da janela – e ela era um conforto, pois sempre estava ali; depois foi a minha escola de natação que cessou meu contato com tatus-bola. Nunca mais vi tatu-bola desde que demoliram aquele jardim. Agora resolveram demolir a casa onde nasci e morei até os 6 anos de idade, mas que foi nossa até 7 anos atrás.
Eu fui arremessada para a minha casa no telefonema. Fechei os olhos e esperei alguém que alcançasse a maçaneta para abrir o portão da garagem. As escadas eram tão compridas. Dessa vez eu subo sozinha, paro no quintal da frente, elevado. A cerca de madeira, toda aquela praça de brincadeiras, o pôr do sol atrás das árvores, os triciclos embaixo da janela da sala.
Continuo subindo as escadas e entro na sala, minha primeira lembrança são as festas de aniversário. Casa cheia, mesa grande, palhaços. Escuto a risada da minha mãe, os choros da minha irmã. Caminho pelo corredor, a adega. Como podem demolir a adega do meu pai? Como? Eu nunca pude experimentar um dos seus vinhos, mas a adega estava ali. Eu sabia que ela nunca iria a lugar nenhum.
Entro na cozinha e os azulejos dos anos 70 me socam a boca do estômago. A porta de vidro, a tábua de madeira com formato de porquinho que eu tanto gostava de olhar. O rádio de pilha da Nicinha tocando Roberto Carlos.
Subir as escadas me dá um aperto no coração. Vejo as bicicletas no corredor que o Papai Noel deixou em algum dia de Natal, vejo meu quarto, minha irmã ainda dorme no berço, rodeada de palhaços pendurados na parede. As prateleiras de madeira maciça guardavam todos os protetores dos meus sonhos. Minha cama ainda tem o livro do Pato Donald de capa dura que ganhei em algum aniversário e que coloquei sobre a colcha com tanto cuidado. Tinha sido o melhor presente da minha pequena vida.
Saio do meu quarto com aquela sensação estranha de que o nível dos meus olhos está muito mais alto que as minhas lembranças. Caminho até o outro quarto e vejo o estranho toca-fitas portátil que minha mãe tinha, com grandes botões onde a gente se confundia e acabava gravando coisas em cima do que não devia. Aperto o botão de abrir e a fita da Emília ainda está lá dentro. O armário ainda guarda a coleção de supermercado em miniatura, o quarto ainda tem o jogo de mesa de plástico para crianças, com adesivos de jacaré que o Dr. Jacob nos deu. Era minha pequena produtora de desenhos, a mesa amarela.
Papai era tão adorado que quando ele se foi muita gente cuidou de nós. O Dr. Jacob trazia as melhores balas do mundo e os presentes mais caros. O Dr. Honda nos mandou cestas de Natal até seu falecimento, há poucos anos. São pessoas cujas lembranças moram nessa casa, se eu fechar bem os olhos, consigo ver vagamente na minha memória o sorriso do Dr. Jacob e sua careca.
O quarto da minha mãe nunca me fez bem, acho que muita coisa ficou marcada em mim. A doença do meu pai, as dores que minha mãe tentava esconder. Mas ainda me lembro do papel de parede, do espelho grande e da minha mãe de cabelos cacheados e unhas vermelhas compridas me mostrando a coleção de isqueiros do meu pai. Eu já não me lembrava muito dele.
Eu sabia que o dia em que abríssemos mão da casa ela não guardaria mais o som das nossas risadas, as cantorias, as lágrimas perdidas. Eu sabia que concreto não tem memória e que sempre existiu o risco da casa ser reformada, refeita completamente por dentro, ainda que tirassem a adega de lá. Mas depois dos seis anos de idade eu aprendi a sempre passar por aquela rua devagar, eu sempre diminuí a velocidade do carro para olhar para ela, como se ela precisasse ser contemplada. Como se eu precisasse sempre mostrar meu respeito por ela. Como se a casa 1112 fosse meu pequeno templo, meu pequeno pedaço de vida, o elo mais real que eu tive com o meu pai.
Eu sei que as lembranças deveriam ficar por dentro, trancadas em mim. Eu sei que memórias são abstratas e essas são impossíveis de serem demolidas. Mas eu também sei que desta vez, quando passar de carro na frente dela, eu vou acelerar.
Fico me perguntando se alguma dessas escavadeiras se questiona o quanto de infância mora em um tijolo, o quanto de sonhos guarda uma janela, o quanto de lembrança existe em uma parede. A casa 1112 era minha infância. Era o pouco que eu ainda guardava do meu pai. Tomem cuidado com os meus tijolos.

1983, eu diria.

Olhar para o passado só é bom quando se é livre dele.

Olhar para o passado só é bom quando se é livre dele. Ainda não cultivei a arte do desapego, não sei soltar a mão sabendo que o que volta é o que fica, tenho medo. Tenho tanto medo que errei muito com você e acabei de te perdendo. Acabamos nos perdendo no exato instante  em que nos encontramos por dentro.
Amar é simples, relacionamentos é que são complexos. Eu quis tanto ser o teu lado fácil, a mão que te acolhe, aquele amor eterno. Quis tanto ser o beijo de madrugada, teu eterno não-compromisso, o nosso amor livre. Eu quis tanto ser um pedaço de nós dois sem ser de ninguém, mas sou apenas humana. Qualquer tentativa de desapego exige de mim níveis de evolução que ainda não alcancei. E eu tentei, mas – me perdoa – não consegui. Minha mania de controle me ensinou que é impossível controlar emoções quando meus pensamentos já não deitam sobre meu travesseiro.
Teu cheiro ainda vaza das minhas mãos, o calor dos teus lábios ainda percorrem o meu corpo e meu corpo, meu corpo sangra em saudade doída. Queria mais uma vez poder te olhar os olhos pretos e dizer-te nada, absolutamente nada, contrário a tudo o que eu fui um dia. Queria te sorrir de longe, alheia às nossas vidas, e entender a linha tênue entre nossos olhares e sorrisos de canto delimitando a eternidade de um amor que um dia viveu; e que apenas adormece. Queria essa certeza de que as coisas não morrem, que existem sentimentos que apenas se aquietam embaixo das cicatrizes, queria perceber uma entrelinha em você que acalentasse meu coração tão cheio de buracos. Meu nó no peito, minha falta de orgulho. Por que devo calar sentimentos? Por que devo fingir que você passou em mim quando a verdade ecoa por dentro todos os dias? Para te proteger, para te proteger do meu amor.
Fui eu quem decidiu ir embora quando você não pediu pra ficar.
Fui eu quem soltou a mão esperando que voltasse.
Fui eu quem perdeu o controle de uma paixão desmedida.
Fui eu quem atravessou a rua para escolher tudo que não fosse você.
Mas saiba que não morreu em mim. Saiba que um pedaço do meu peito ainda mora no nosso último abraço. Entenda que nem sempre a paixão é escolha. Me perdoa por ter te deixado entrar de maneira tão brutal na minha vida. E volta um dia, quando estiver preparado, quando o amor descansar solene debaixo dos nós na garganta.

A vida terrena não nos permitiu muito tempo, mas tenho de ti as melhores qualidades e os melhores defeitos.
É pela tua falta que não sou muito boa com o dia dos pais. Feliz, seja onde for, pai.

Máscara

Falta, a gente sempre sente. De um lugar, de uma pessoa, de um momento. Mas é importante lembrar que cada segundo já é passado, que tudo está em constante evolução e mudança é a única realidade que existe. As pessoas mudam, os cenários mudam. O cheiro evapora, as memórias amarelam como fotografias antigas. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica se lembrar dos detalhes.
A verdade é que o que é efêmero é passado, ora ou outra; hoje ou amanhã. E nem sempre a verdade é que as pessoas mudam, às vezes elas só encararam personagens para te encantar. O que sobrou hoje, isso sim talvez seja a realidade. Uma máscara jogada no canto do palco.

 

It is far harder to kill a phantom than a reality. (Virginia Woolf)