Desperately lonely

Desperately lonely. duas palavras que soam quase como uma música ecoando pela minha cabeça há meses. desde que você saiu daquele bar rindo, depois de dizer que nunca havia me amado. duas palavras que ecoam com o som da tua risada sórdida, o cheiro do teu prazer ao ver meus olhos se afogando em sal. desperately lonely. desde que todo mundo foi embora. um por um, como areia fina em ampulheta, como se o tempo quisesse me provar que ele é dono de tudo, inclusive de mim.

e de repente assim, do nada, eu perdi todas as minhas referências sobre o amor e não estou conseguindo achá-lo nas entrelinhas. é como se todo mundo estivesse partindo de mim e eu – bem, eu fico aqui, num barquinho frouxo à deriva, madeira puída, tinta gasta, sem remo, sem mantimentos, sem rumo, sem saber nadar.

(não partam de mim, não quero me afogar.)

você foi brisa quente em dia de verão, meu solo estancava o sangue quase seco de um amor quebrado e você chegou e se sentou no banco do pier e me perguntou o que eu fazia ali há horas, olhando o farol, lembra? a tua voz me penetrou feito pluma, me vestiu o corpo franzino e gelado por dentro e com as duas mãos em concha pulsou meu coração quase sem vida, querendo qualquer distância que fosse daquela imundice emocional, daquele quarto que havia incorporado o cheiro doce dela, daquele cenário que torturava minha memória, com seu gosto misturado ao café vencido e ao vinho barato. sua voz me penetrou feito pluma. e por seis anos você me fez andar em nuvens. eu me sentia diferente, sabe? havia uma quase certeza absoluta de que você me amava quando se derramava lá no fundo dos meus olhos. havia uma quase certeza absoluta de que nos fazíamos muito bem quando as noites eram regadas a gargalhadas e você tentando cozinhar uma massa e vinho derramado no chão e suor e Janis Joplin e gargalhadas e orgasmos múltiplos. deus, como você me fazia bem.

e por seis anos fizemos planos. a casa de container que eu construiria pra gente, uma vida autossustentável, dois cachorros, um gato, uma horta grande no quintal para você ter seus orgânicos, uma criação de galinhas, a viagem pela indonésia de bicicleta, o voluntariado no Quênia, o Arthur e a Ana pequenininhos correndo pela pradaria atrás das galinhas enquanto a gente se lambuza de massa crua de bolo de chocolate. eu vi tanto isso, eu senti tanto isso e era de uma leveza boa, uma projeção morna, dessas que dão sentido.

e o peso com que isso atingiu meu rosto naquela quarta feira no bar do otávio, eu não sentia esse peso desde que meu pai morreu. “eu nunca te amei, eu não sei amar, segue a sua vida, você passou pra mim”. demorei alguns minutos para entender o quão dissimulada você é. foram seis anos da minha, da sua vida. foram seis anos em que acreditei e você me enganou.

e desde então não venho me encantando com nada, como se a vida fosse uma grande mentira, um imenso espetáculo social de atuações.

eu te dei o meu melhor e deixei você levar o que tinha de mais bonito em mim; a minha paz. e hoje eu sento aqui no banco do pier de novo, analisando meus erros com café amargo e esperando que ninguém nunca mais me penetre feito pluma. desperately lonely. eu tô perdendo a referência de amor e não tô conseguindo achá-lo nas entrelinhas.

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