A senhora vestida de azul

É um dia daqueles em que o frio bate recorde de décadas. Lá fora faz qualquer grau abaixo de zero, chega uma hora que já nem faz mais tanta diferença. Esqueci as luvas em casa, a espera no ponto de ônibus é dolorida. Esfrego as mãos, assopro-as em concha, tento mantê-las dentro dos bolsos e quase não as sinto mais. Quase nem sinto mais meu coração.
O ônibus chega com um semblante de salva-vidas, o lugar mais desejado do mundo. Me sento ao meio do corredor e observo cada ser humano que passa por mim. Apenas um me hipnotiza. Uma senhora muito idosa toda vestida de azul.
Ela entra no ônibus com um andador. Veste um casaco sete oitavos azul turquesa, com botões dourados. Nos cabelos, um lenço de lã azul claro, amarrado ao pescoço. Usa luvas de couro e sapatilhas. Nas pernas, apenas uma meia-calça de lã.
A senhora vestida de azul tem os olhos mais azuis ainda. Sobre um nariz levemente empinado, repousam seus óculos de armação muito fina. A senhorinha vestida de azul senta-se em um banco próximo à porta. Faz um frio desgraçado quando a porta se abre. Eu a observo em silêncio, ela brilha.
Ela tira as luvas das mãos e revela uma pele branca tão livre de rugas que me deixa surpresa. Mãos de menina, ela tem. Seus olhos pendem para baixo, como um choro sem hora para acabar. Olhos fundos, telas de cinema com tanta história para contar. Deve ter sido bonita a senhora vestida de azul, sou capaz de dizer por seus traços delicados. Fico me perguntando como foi sua vida, onde era menina, onde era mulher. Os lábios são finos e delicadamente rosados com algum batom passado fora das bordas. Me espanta a vaidade a essa altura da vida, acredito ser um grande segredo.
O movimento do ônibus e o frio talvez lhe dêem sono. Ela deita a cabeça para o lado, adormecendo vigorosamente e apenas acordando ao som do sinal de parar. Em um breve momento entre adormecer e acordar, seus olhos cruzam os meus. Eu sorrio, ela sorri de volta. E dentro dos seus olhos, vejo toda uma vida. Há uma profundidade no seu olhar que me aquece o coração adormecido pelo frio. Uma fração de segundos é suficiente para o meu tempo parar e minha alma sentir. Nas rugas do teu rosto, sinto tuas dores. Nos ossos das tuas pernas, me dói o teu frio. Na lateral dos teus olhos caídos, sinto tua solidão.
Queria pegar na sua mão e te contar uma história bonita, de como vim parar deste lado do mundo. Queria pegar na sua mão e traçar o tempo em sua pele. Queria sentar ao teu lado e apenas te sorrir. Te fazer uma promessa silenciosa de que os dias ainda valem a pena. Principalmente quando são azuis.

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2 comentários sobre “A senhora vestida de azul

  1. Brunno Lopez disse:

    Mais do que as definições, os detalhes, as expressões da cena, a temperatura da história, existe um elemento tão emocionante nesse texto que não tem nome.
    Mas é ele que estimula todas as outras cenas, criando um ambiente forte.
    Talvez poucos tentem enxergar ao certo isso, mas é aquele tipo de instrumento que não se pode ver, mas se sair, deixa tudo arruinado, transforma a obra em lugar comum.

    Se era pra chorar, ou emocionar, ou colocar algumas lágriimas devidamente salgadas nos olhos de quem percorreu linhas a fio, conseguiu. Com sobras.

    Todos querem segurar essas mãos e contar uma história para que a juventude da personagem seja eternizada num sorriso maior que os dias azuis.

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