Micro-crônica Casa da Vovó – II

A gente brincando na garagem. Vovó vinha da sala, segurava no meu ombro e olhava nos meus olhos:

– Não aceite nada de ninguém.
– Tá, vó.
– Nada. Mesmo se disserem “olha, pega essa bala, uma delícia”. Mesmo se for igualzinha à bala Soft. Não aceite nada.
– Tá, vó.
– Se insistirem diga “não, obrigada”.
– Tá.
– Mesmo se disserem “prova essa balinha, tem figurinha dentro”. Ou “prova essa balinha e você ganha uma bicicleta”.
– Tá.
– Não aceite nada, nada, nada, nada de estranhos.
– Tá, vóóóó.
– Diga “não, obrigada”. E se insistirem, entra pra dentro.
– Não, obrigada.

 

Aprendendo.

Micro-crônica Casa da vovó – I

Vovô e eu, um dia qualquer de mil novecentos e oitenta e poucos. Provavelmente uma tarde. Provavelmente a cozinha, de azulejos portugueses branco e cor-de-vinho. Cheiro de café coado em coador de pano. Lata de manteiga Aviação em cima da mesa.

 

– Mi, vamos comprar pão.
– Italiano ou francês?
– Italiano.
– Quero francês.
– Italiano e ganha um pacote de figurinha.
– Turma do Arrepio?
– Moranguinho.
– Tá. Italiano.

Obrigada, Mônica

Só queria um tiquinho daqui pra agradecer publicamente ao comentário da Mônica Fielder, no post “100 MIL”. É por isso que eu continuo aqui, me metendo em enrascadas e escrevendo.
Muito obrigada, mesmo, Mônica. Seu comentário me encheu os olhos de lágrimas.
E eu adoooro vocês, seus escondidinhos que nunca aparecem e, de repente, deixam uns comentários lindos desses!!

Destino

Os meus melhores posts eu escrevo mentalmente, enquanto estou caminhando. Indo ou voltando de algum lugar neste país semi-estranho, debaixo deste tempo que a gente não se acostuma, com alguma trilha sonora no ouvido e rostos não muito amigos em volta. Queria um gravador mental. Aperta o rec e depois reproduz.

São poucas as vezes que volto do trabalho à noite e sozinha. Geralmente o David vai me encontrar e caminha comigo. Mas essas caminhadas sozinhas, debaixo da luz amarela de Reading, me fazem pensar em tanta coisa. Destino. Será que estava escrito em algum lugar que um dia eu caminharia debaixo da luz amarelada da cidade do interior da Inglaterra? Será que o meu futuro já desenhava patos e cisnes no cenário? Ou fui eu quem mudou tudo isso?
Eu acreditava mais em destino. Aliás, eu acreditava mais em tanta coisa. Até maçã pra duende eu colocava quando era criança. Hoje sou menos vulnerável, mais cautelosa com qualquer tipo de crença e sentimento. E eu sei muito bem quando tudo isso mudou, foi quando pedi com todas as lágrimas de um ser humano para Deus mudar o imutável. Para a certeza da vida virar milagre. Lembro-me muito bem daqueles dias, daquela dor, daquele frio na espinha quando tudo acabou, das promessas em vão e da vontade de fazer um homem de 89 anos continuar. Não continuou. E a fé esvaiu por um bom tempo entre os dedos, líquida.
Foi-se também um pouco da crença no destino. Mesmo porque o universo nunca conspirou muito a favor de eu estar deste lado de cá. Talvez eu tenha mudado. Talvez não. Uma cartomante disse pra minha mãe quando eu era criança que uma de suas filhas iria embora pra longe.
Até que ponto a gente interfere eu não sei. Acredito que talvez tenhamos alguns pontos-chave marcados na nossa vida, os acontecimentos mais importantes. Mas também acredito que temos o poder de mudar o percurso, aumentá-lo, diminuí-lo, desviar um pouco dele.
Eu não me arrependo de nada. Não me arrependo de ter feito, de ter tentado, de ter insistido. Um dia entenderei melhor se insistir é em vão ou não. Enquanto isso, continuo caminhando sob a luz amarelada de Reading.

100 MIL

O Samba tá na beirinha de atingir os cem mil acessos e, óbvio, quando isso acontecer eu provavelmente estarei vendendo goiaba. Então queria aproveitar pra dizer pra vocês o quanto isso é gostoso!
Pra quem não sabe ainda, o Samba é o quinto blog que eu tenho, de uma geração que começou em 2002, com o extinto PopcornBag. Depois veio o Saco de Pipocas, o Do outro lado da Bolinha e o Time to Be (o blog mais deprimente que eu tive). Pra sair da linha deprê, eu larguei o Blogspot e vim pro WordPress, tudo novo, vida nova. Este aqui ainda é novinho!
Então queria agradecer do fundo do coração à todos vocês, meus leitores queridos, que vem aqui – seja pra ver as enrascadas que me meto ou as besteiras que escrevo, seja pra ler meus contos ou somente pra saber o que tem se passado na minha vida. Sei que tem muita, muita gente aí que vem aqui há anos e nunca nem comentou. Gente que assina o feed, eu vejo os emailzinhos de vocês lá! E é pra vocês também, estes meus leitores quietinhos, que esse agradecimento vai do fundo do coração. E, claro, esse bando de gente que eu nunca conheci (ou já) e que me acompanha há quase OITO anos, seja lá onde eu estiver, seja lá qual for o blog ou o provedor…
A gente sempre fala que escrever um blog é como um diário virtual. Mentira. Se fosse pra escrever diário eu comprava um caderno ou abria um documento no Word. Sem vocês isso aqui não tem a menor graça. Entrar aqui e ver 10 comentários de uma vez faz meu dia. Eu escrevo pra mim e pra vocês.

Como diria Drummond, em sua última crônica antes de morrerAos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

Spicy butternut squash soup with feta cheese

Ou “Sopa apimentada de abóbora com queijo feta“. Ou: a minha mais nova invenção. Delicinha.

Pra quem tá deste lado de cá, nada melhor do que uma sopinha nessa época do ano. E eu, aqui há dois anos, já virei craque em sopa de tudo quanto é tipo, mesmo porque não sou muito fã de abrir uma lata e comer. Além disso, sopa é muito fácil de fazer. Essa eu inventei essa semana e é uma delícia.
Aqui eu uso butternut squash, que não é exatamente uma abóbora, mas é prima. Dá pra usar qualquer uma delas. Se quiser, dá pra fazer até com cenoura!
Uma das minhas combinações preferidas com sopa de abóbora é paio (maravilhosa), mas como quem não tem cão caça com gato, eu parti pro queijo feta.
Quem quiser fazer, faça. Dá um up nesse friozinho!

CREME DE BUTTERNUT SQUASH COM QUEIJO FETA

Ingredientes
– 01 butternut squash ou abóbora pequena
– 1/2 cebola
– 2 dentes de alho
– 1 tomate, ou molho de, ou massa de…
– 1 cubo de caldo de carne ou legumes
– 100g de queijo feta cortado em cubinhos
– 1 pitada de gengibre em pó
– 1 pitada de noz moscada
– Pimenta do reino moída à gosto
– Sal à gosto
– Salsinha
– Cebolinha
– Óleo ou azeite de oliva pra refogar

Modo de fazer

Se você não tiver panela de pressão, o jeito mais fácil de usar abóbora é assá-la primeiro. Lave, faça alguns furos com uma faca, enrole em papel alumínio e asse por mais ou menos 20 minutos. Quando esfriar um pouco, corte e retire as sementes.
Numa panela refogue o alho, a cebola e o tomate. Acrescente a abóbora ou butternut picada e refogue. Cubra com água, coloque o cubo de calde de carne e deixe cozinhar um pouco. Não deve precisar de muito cozimento porque ela cozinha no forno.
Acrescente as especiarias (noz moscada, gengibre e pimenta). Retire do fogo e processe até se tornar um creme. Quando estiver pronta, coloque os cubinhos de queijo feta, a salsinha e a cebolinha e sirva imediatamente. Se você for que nem eu ou o Mick, marido da Fee, acompanhe com umas gotinhas de Tabasco! E bom friozinho!!! =)

Joana

Bonita, bonita, ela nunca foi. Tinha o rosto manchado de puberdade, olhos caídos, muito negros, e de uma profundidade assustadora. Seus cabelos eram ruivos, quase cacheados, mas pareciam tão mal tratados quanto ela. Ah, Joana, se soubessem o quanto de água já escorreu por estes olhos fundos, o quanto de mágoa ainda reluta em permanecer lá dentro, onde ninguém ainda havia mexido.
Passara uma vida assim: sentada na cadeira da cozinha lendo Bukowski, cantarolando Chico Buarque e ajudando a vó Odília a sovar o pão que vendia. Dos trinta anos que tinha, se lembrava da bicicleta verde enferrujada que ganhou do vizinho no Natal de 88, da Páscoa com a família da tia-avó Adélia e do bolo de nozes que a tia Conceição da escola levava no seu aniversário. Não tinha lembranças dos pais, haviam partido para a serra de  Petrópolis pra nunca mais voltarem. Ou voltaram, mas não quer se lembrar daquele dia, levaram também Renato, seu irmãozinho de dois anos e meio. Acreditava estarem em um jardim muito verde e rico, dessas belezas isuportavelmente naturais. Renato vestido de branco, brincando entre as margaridas. Não, não acreditava em um fiapo disso tudo. Pensava em seguida que eram pó, que do pó vieram e que logo viraria pó também a única pessoa que lhe restava, a vó Odília. E cantarolava Chico Buarque de olhos vermelhos.
Joana não tinha amigos, era tímida demais, não sabia conversar e seus papos-cabeça eram chatos. Enquanto falavam de novela, ela rebatia frases de Kafka. Chata pra caramba essa menina, hein. Era o que ouvia nas entrelinhas.
Também nunca tinha namorado, embora tenha sido apaixonada a vida toda por ele. Ele que, de manhã cedo passava para ver como vó Odília estava. Que pedia dois dedinhos de café com uma colherinha de açúcar, pois estava de dieta. Que um dia, um único dia, olhou em seus olhos fundos e disse Joana, precisa de um namorado.
Como era lindo sonhar com ele de terno no altar, sorrindo depois de ter descoberto quanta coisa linda ainda estava dentro dela. O quanto ela era especial por dentro. E escrevia cartas de amor que nunca mandava, ensaiava o número do telefone da casa dele, o primeiro beijo nas costas da mão. Mal se lembrava do primeiro beijo, o dia em que Fernando, o primo de quarto grau a segurou pelas bochechas e tacou-lhe aquela língua molhada por dentro de sua boca. Queria o beijo dele, a língua molhada dele. E adormecia assim, entre desejos de língua molhada e o toque macio das mãos que já lhe conheciam o corpo, embora ninguém suspeitasse.
Numa manhã de inverno ele veio visitar vó Odília. Joana foi buscar o café e, como numa cena de novela, ele a segurou pelo braço. Sua pele arrepiou até a ponta do mamilo, suas pernas falharam, sentiu um segundo de tontura e e os lábios estremeceram: sim? E ele lhe disse: Vamos ver o rio. É bonito no inverno.
E caminharam os dois quietos pelo atalho de terra até a margem do rio. Ficaram ali, mudos, como dois pombos na chuva, a olharem o casebre abandonado do outro lado da margem. Está com frio? perguntou ele. Sim, ela sorriu de lado. E então ele lhe passou os braços pelos ombros e ela sentiu algo que nunca havia sentido antes. Um coração que batia alto e tinha medo que ele ouvisse, que lhe fazia atenta de todas as partes do seu corpo, um frio quente que subia da base da espinha até a nuca. E aquele foi o momento mais lindo da sua vida.

Mingau?

Com o inverno chegando, volta  às mesas inglesas a famosa porridge. Alguns comem porridge o ano todo, outros, como eu, a restringem ao inverno.
Porridge nada mais é do que mingau de aveia. É super popular por aqui e está sempre nas pesquisas como alimento extremamente completo e auxiliar de emagrecimento. Sim, porque a aveia é calórica, mas – como o açaí – tem propriedades e vitaminas que facilitam a perda de peso, fibras e ainda saciam por muito mais tempo que uma fatia de pão de forma.
A receita tradicional de porridge é aveia refinada, leite e açúcar, mas há quem fuja dela, como eu.
Eu odeio porridge com leite. Pode parecer estranho, mas faço a minha com água fervendo. Sim, dá ponto do mesmo jeito, com metade das calorias e sem aquele gostinho de comida de nenê. Além disso, odeio porridge com açúcar. Pra mim tem que ter mel. Sem mel, não desce.
A minha porridge perfeita é feita no microondas, com aveia em flocos (mantém mais as fibras), água, mel e blueberries (coloque as blueberries frescas pouquinho antes de terminar o cozimento, elas derretem na boca…).
Às vezes dou uma alternada com passas ou cranberries secas e oleoginosas picadas, como sementes de abóbora, amêndoas, castanha do Pará. Às vezes também coloco proteína em pó sabor natural (Promax Diet) ao invés de mel – tá, freak, eu sei. Mas é bom.
É uma refeição completa, ótima pra antes da academia e você só vai sentir fome daqui a umas longas horas. Nessa época do ano, dá pra encontrar potinhos de porridge à venda até nas estações de trem mais movimentadas de Londres, como Paddington.