Se você pensa em mim? Tenho certeza que não. Se se lembra de mim, tenho certeza que sim. Pouca gente me olhava com esses olhos famintos que você tem. Menos gente ainda me tocava com essas mãos leves cheias de desejo, mesmo que fosse num gesto sem intenção nenhuma.
Você se lembra daquela festa onde a gente se encontrou? Eu me lembro muito bem. Você bêbada, me olhou com aquele olhar que só você sabe. O seu olhar secreto, que quase ninguém conhece. Me olhou meio de lado, com a cabeça alta, olhos de álcool e cheios de fome. E eu te ensinei a dançar qualquer coisa que não se dançasse, naquela pista escura e barulhenta, só para fazer um motivo. E o nosso segredo era o calor dos nossos corpos e os arrepios quando nos encostávamos. Como pequenos choques elétricos de aviso dizendo que nenhum de nós podia.
Ainda vejo teu sorriso quando fecho os olhos, aquele olhar secreto está gravado. Às vezes você me atormenta nos meus sonhos, onde eu posso ser livre.
Há um tempo atrás seria muito fácil te esquecer, agora a gente se encontra assim, perdidos em mídias sociais. Fecho os olhos e tua foto aparece na minha cabeça como frame de um passado que mal existiu. Linda, sempre linda. Como uma mensagem subliminar martelando o fundo das minhas lembranças, se fincando em terra para os sonhos proibidos.
Talvez a gente se esbarre de novo, numa simulada amizade que a gente finge ter. Talvez eu te leve pra dançar só para ter a desculpa de te pegar nos braços e sentir-te perto. E talvez seja assim mesmo a nossa história. Suficiente.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Venha logo, menino
(Continuação do post “Venha de novo, menina“, abaixo. Desce a tela!)
Se ao menos eu entendesse o que se passa dentro de você, se pudesse colocar os dedos aí dentro e embaralhar tudo de novo. Te escrevi cartas que nunca vou mandar, decorei versos que nunca irei dizer, digitei seu número de telefone tantas vezes e não liguei. Li teu autor preferido, ouvi tuas músicas bobas, passei a tarde com aquele teu álbum de foto amarelado da década de oitenta. Te fiz brigadeiro de panela e te mostrei a profundidade física e a superficialidade emocional.
Sei de tudo sobre a sua vida e nada sobre você. Também tenho medo, cara. Mas não quero que tudo isso se perca. Gosto de você pra caralho. Quando olhar a lua cheia estarei olhando também e pensarei em você. De onde você veio? Pra onde você foi?
Leva um pouco de mim contigo, menino. Você mexeu em mim onde poucos haviam chegado. Pronto, falei. E você nem está ouvindo.
Se eu me machucar, prometo catar meus cacos pelo chão antes de sair. Não vou deixar me apaixonar, mas tenho medo de emoções. Vem de novo, só preciso que você venha. Estique um pedacinho de você e eu faço o nada virar o tudo mais lindo que você já teve. Venha logo, menino, mas venha sem medo de déjà vu. Nenhum de nós vai machucar mais que a própria vida.
Venha de novo, menina
Tudo o que eu queria dizer pra ela eram palavras tolas, frases meio feitas, coisa superficial que não revelava absolutamente nada. Estava cansado de querer muito mais do que podia dar. Não queria, não podia, não devia, mas principalmente não devia mostrar um fiapo de sentimento. Era perigoso demais. Então ficávamos assim, ela e eu, nesse correio elegante subjugado, sem liberdade nenhuma, sem nada que pudesse vir à tona. Estava cansada de se decepcionar e construir fantasias, disse ela. Eu também, porra. Mas queria tanto essa fantasia pra mim.
Tinha medo que acabasse um dia todo esse sentimento insensível dentro do peito. Tinha que fingir não ter nada por dentro. E ela chorava, até, uma lágrima branca, lúdica, de sal. Uma lágrima vazia. Um peito de pedra. Um coração remendado com todas as dores de vinte e quatro anos.
E eu que só queria dizer tanta coisa e não podia, remediava o que havia dito e escolhia letras para redizer. Tudo com muito cuidado, com muita cautela. E quando não dizia, simplesmente não dizia. Vazio, branco. Um silêncio redondo cheio de coisas presas. Uma bolha de ar com um monte de palavra.
Não quero que ela vá, também não quero ir. Ela não é minha, eu não sou dela, mas gosto da gente assim. Prefiro a gente junto, é verdade. Sem medo, sem todo esse nada. Onde foi que tudo isso começou?
Quero aprender a falar. Quero sentir o cheio, o que derrama. Quero transbordar de coisas a serem ditas, coisas ditas, sentimentos plenos. Pare um minuto, menina. Sente meu cheiro? Estou mais perto do que imagina. Estou nesse bolha vazia em volta de você, nesse mundo preenchido por sabe-se-lá-o-quê. Estou aqui, menina, vem de novo. Vou sentir saudades das nossas tardes tolas, dos filmes bobos e da pipoca queimada. Vem de novo. Continua aqui, em mim. Nenhum de nós vai machucar mais que a própria vida.
Rinaldo
Rinaldo Castino, meu avô paterno. Dizem que era a pessoa mais doce que eu conheceria. Quando vovô Rinaldo faleceu eu tinha apenas seis anos, minha memória guarda muito menos lembrança do que eu gostaria.
Filhos de italianos também, originários de Piemonte, da Commune di Castino, onde todo mundo deve ser meu parente.
Eu não me lembro de muita coisa, apenas de cenas marcadas como frames na minha mente. A Variant verde, me lembro muito bem dela estacionada lá depois do posto de gasolina na esquina da Girassol com a Inácio. Me lembro daquele caminho de mãos dadas com ele, rumo à Variant verde.
Dizem que minha irmã cortava seu cabelo enquanto ele cochilava, tenho uma vaga lembrança de sentar-me nas costas do sofá e observar o cemitério São Paulo da janela do último andar daquele prédio. Prédio baixinho, na esquina da Fidalga, onde a gente subia até o oitavo andar e continuava por uma escadinha. Onde a foto do meu pai ficava no porta-retrato, ao lado da televisão.
Também me lembro de um dia em que levei meu primeiro tombo consciente numa onda de mar. Tentei respirar debaixo d´água e não consegui. E tenho a nítida imagem dele através da água turva me puxando pra cima. Eu não devia ter mais de três anos, mas minha memória é assim mesmo. Guarda coisas que até eu duvido.
Dizem que seu pai ou avô montava e dirigia carros de corrida. Morreu em um acidente na Serra do Mar durante um teste, se não me engano. Talvez venha daí minha paixão por fórmula 1, meio intrínseca no sangue.
Também me lembro dos ladrões terem trancado ele no banheiro quando fomos assaltados na Girassol, e falavam com ele de uma maneira tão grosseira que eu não conseguia entender porque. Ele era tão doce.
Vovô Rinaldo foi o meu primeiro contato com a morte depois de entender um pouquinho sobre ela. Foi na casa da tia Santa, e deveria ser domingo se estávamos lá, pois era lá que assistíamos aos Trapalhões enquanto comíamos sanduíche de presunto. Foi naquele dia que nos tiraram rapidamente da sala, eu, minha irmã e meus primos e nos levaram para a área de serviço. Lembro-me da minha avó entrando pela porta, vermelha de tanto chorar. E, acho que foi minha mãe quem ficou conosco, nunca me esqueço disso. Paramos todos e volta da janela da área de serviço, eu e mais quatro crianças. Apontou uma estrela muito brilhante no céu:
– Estão vendo aquela estrelinha brilhando bastante? Foi pra lá que foi o vovô Rinaldo.
Eu fiquei indignada, porque ele iria sem se despedir, afinal, porque ele iria?
– Toda vez que uma estrelinha brilha é porque alguém chegou. Foi pra lá que o papai foi também.
E aí tudo fez sentido. Vovô Rinaldo foi encontrar o papai na estrelinha. Eu queria muito ir pra lá também. Mamãe disse que um dia todos nós iremos.
Até hoje quando vejo uma estrela brilhante me lembro desse dia. Mágico. Doce. Como ele.
Chão branco
Eu sei que ela diz que está tudo bem, mas talvez não queira perguntas além do teu ombro, da tua mão vazia estendida. E eu sei que ela sabe que nem tudo é certo, que as luzes não estão acesas e nem sempre eu tenho algo de bom pra dizer. Parece que tem chovido sempre em cima dela, mas não a deixe saber, pois seu sorriso ilumina tudo e ela não percebe. Mesmo olhando fundo dos seus olhos cansados. Seu coração calejado amacia quando ela fala essa voz que só ela tem.
Ninguém gosta de ser deixado sozinho, ela não quer se decepcionar. Ela gosta de ver o pôr do sol, mas não enxerga mais além do próprio passo.
Ela caminha intocável entre a neve, passos duros sobre o chão branco, gotas congeladas que se derretem no rosto. Parecem lágrimas. Mas ela não sabe, então continua caminhando sem nada por dentro.
Parece que tem chovido sempre em cima dela, mas não conte. Ela não percebe e continua sorrindo esse sorriso grande dizendo que vai tentar.
And I´ll be there waiting for you
Micro-crônica Casa da Vovó – II
A gente brincando na garagem. Vovó vinha da sala, segurava no meu ombro e olhava nos meus olhos:
– Não aceite nada de ninguém.
– Tá, vó.
– Nada. Mesmo se disserem “olha, pega essa bala, uma delícia”. Mesmo se for igualzinha à bala Soft. Não aceite nada.
– Tá, vó.
– Se insistirem diga “não, obrigada”.
– Tá.
– Mesmo se disserem “prova essa balinha, tem figurinha dentro”. Ou “prova essa balinha e você ganha uma bicicleta”.
– Tá.
– Não aceite nada, nada, nada, nada de estranhos.
– Tá, vóóóó.
– Diga “não, obrigada”. E se insistirem, entra pra dentro.
– Não, obrigada.
Aprendendo.
Micro-crônica Casa da vovó – I
Vovô e eu, um dia qualquer de mil novecentos e oitenta e poucos. Provavelmente uma tarde. Provavelmente a cozinha, de azulejos portugueses branco e cor-de-vinho. Cheiro de café coado em coador de pano. Lata de manteiga Aviação em cima da mesa.
– Mi, vamos comprar pão.
– Italiano ou francês?
– Italiano.
– Quero francês.
– Italiano e ganha um pacote de figurinha.
– Turma do Arrepio?
– Moranguinho.
– Tá. Italiano.

