Rinaldo

Rinaldo Castino, meu avô paterno. Dizem que era a pessoa mais doce que eu conheceria. Quando vovô Rinaldo faleceu eu tinha apenas seis anos, minha memória guarda muito menos lembrança do que eu gostaria.
Filhos de italianos também, originários de Piemonte, da Commune di Castino, onde todo mundo deve ser meu parente.
Eu não me lembro de muita coisa, apenas de cenas marcadas como frames na minha mente. A Variant verde, me lembro muito bem dela estacionada lá depois do posto de gasolina na esquina da Girassol com a Inácio. Me lembro daquele caminho de mãos dadas com ele, rumo à Variant verde.
Dizem que minha irmã cortava seu cabelo enquanto ele cochilava, tenho uma vaga lembrança de sentar-me nas costas do sofá e observar o cemitério São Paulo da janela do último andar daquele prédio. Prédio baixinho, na esquina da Fidalga, onde a gente subia até o oitavo andar e continuava por uma escadinha. Onde a foto do meu pai ficava no porta-retrato, ao lado da televisão.
Também me lembro de um dia em que levei meu primeiro tombo consciente numa onda de mar. Tentei respirar debaixo d´água e não consegui. E tenho a nítida imagem dele através da água turva me puxando pra cima. Eu não devia ter mais de três anos, mas minha memória é assim mesmo. Guarda coisas que até eu duvido.
Dizem que seu pai ou avô montava e dirigia carros de corrida. Morreu em um acidente na Serra do Mar durante um teste, se não me engano. Talvez venha daí minha paixão por fórmula 1, meio intrínseca no sangue.
Também me lembro dos ladrões terem trancado ele no banheiro quando fomos assaltados na Girassol, e falavam com ele de uma maneira tão grosseira que eu não conseguia entender porque. Ele era tão doce.
Vovô Rinaldo foi o meu primeiro contato com a morte depois de entender um pouquinho sobre ela. Foi na casa da tia Santa, e deveria ser domingo se estávamos lá, pois era lá que assistíamos aos Trapalhões enquanto comíamos sanduíche de presunto. Foi naquele dia que nos tiraram rapidamente da sala, eu, minha irmã e meus primos e nos levaram para a área de serviço. Lembro-me da minha avó entrando pela porta, vermelha de tanto chorar. E, acho que foi minha mãe quem ficou conosco, nunca me esqueço disso. Paramos todos e volta da janela da área de serviço, eu e mais quatro crianças. Apontou uma estrela muito brilhante no céu:
– Estão vendo aquela estrelinha brilhando bastante? Foi pra lá que foi o vovô Rinaldo.
Eu fiquei indignada, porque ele iria sem se despedir, afinal, porque ele iria?
– Toda vez que uma estrelinha brilha é porque alguém chegou. Foi pra lá que o papai foi também.
E aí tudo fez sentido. Vovô Rinaldo foi encontrar o papai na estrelinha. Eu queria muito ir pra lá também. Mamãe disse que um dia todos nós iremos.
Até hoje quando vejo uma estrela brilhante me lembro desse dia. Mágico. Doce. Como ele.

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