Ah, como é difícil falar qualquer coisa sem machucar. Não quero nunca te machucar. Dispo-me de todos os espinhos por você, porque quero-te assim, puro, sem nada a envolver-te ou me envolver a não ser essa coisa entre a gente.
Não, juro que não quis criar qualquer sentimento em você que não fosse bom e muito menos essa nuvem estranha que cobre a gente às vezes. Pois é, eu também tenho tanto amor, um amor que parece não ser suficiente só quando você chega perto de mim. Se eu te ferir, acabo por me ferir também. Teu silêncio dói de vez em quando, mas é só porque tenho algo aqui dentro que não deveria. Só não quero perder tudo isso, essa coisa entre a gente que nem existe. Gosto tanto de você. Se realmente entendesse…
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Me odeie por mais um segundo
Sabe aquele poema que te dei junto com a caixa de bombons de amaretto? Coma. Sim, coma como o fez com os chocolates. A música que toquei pra você, esqueça a letra, deteste a melodia. Rasgue todas as fotos com cuidado para separar-me do teu ombro, arranque-me do teu ombro. Quebre os discos que tocavam enquanto a tua mão escorria pelas minhas coxas, confunda o meu sabor amargo, ardido.
Isso, me arranque assim, como quem tira uma farpa do dedo mindinho. Com dor e destreza.
Chore-me lágrimas vazias, soluce todo este passado rouco dentro do peito. Grite, diga que me odeia, que não quer me ver nunca mais.
Delete meus emails, minhas mensagens, apague a memória do teu computador. Aquela foto nossa, naquela noite bêbada, queime. Queime todo esse calor que ardia inútil. Queima. Talvez seja mais fácil pra nós dois se deixarmos apenas o ódio até nos encontrarmos de novo. E quando eu te encontrar de novo me odeie ainda mais, tanto que te perturbe e te tire o sono, tanto que tenha apenas uma vontade: de me odiar de perto.
É…
… Eu tenho lido muito Caio Fernando Abreu. A minha linguagem mudou um pouco, eu sei, tá uma coisa meio politicamente incorreta, com alguns palavrões e apelo sexual, mas este blog há tempos é classificado para maiores de 16 anos.
O problema é que não há nada nesse mundo que me inspire mais que Caio. E eu gosto disso. Gosto de deixar rolar sem pré-julgamentos.
Me beija
Da próxima vez que te encontrar vou cuspir todas essas palavras do meu peito. Você zomba de mim, diz que não sei esconder sentimentos como se fosse toda errada, dissimulada ou qualquer coisa fácil. Não, meu bem, não sei esconder sentimentos porque eles me consomem em carne viva, crescem sem controle, exigem uma atenção que não sei dar. E desaprendi a contê-los e bem que acho melhor assim. Falo logo de uma vez e doa a quem doer, se a dor for minha, ao menos vem de uma vez. Corto o mal pela raíz.
Eu tento ir embora, você me segura, que mais você quer de mim? Que me apaixone perdidamente? Você não dá conta de mulheres apaixonadas e sabe bem disso. Não aguentaria me ver burra, entregue, cega, desesperadamente enlouquecida como uma gata no cio. Você me prefere assim, fria, quieta, dura por dentro. Doce por fora.
E se eu disser que eu gosto de você? Que gosto desse seu jeito cult, bobo, dessa sua voz gostosa e do jeito que você me pega pelos quadris e morde meu lábio? E se eu disser que acho que nunca daríamos certo juntos? Somos assim, meu amor, proibidos. Eu pra você, você pra mim. Fogo e gasolina. Tem faísca demais entre a gente.
Eu não sei se te quero assim, desse modo. Só sei que também não te quero com outra, o que não deixa de ser um egoísmo muito grande da minha parte. Queria-te assim, engaiolado pra mim. Alucinado por mim. Ou talvez queira-te mesmo deste outro modo estranho, como é que chama mesmo? Amor. Essa coisa que a gente espera acontecer como se espera por um aniversário. Talvez eu queira deitar no sofá e ficar assim quietinha, você atrás de mim, tua perna sobre a minha coxa, teu braço na minha cintura, teus beijos na minha nuca. Quietinha assim, é assim que é amor, não é?
Eu não te amo, também não sou apaixonada por você, mas tenho alguma coisa muito grande aqui dentro e eu não sei o que é. Isso me aflige mais do que se te amasse, essa vontade de você que nunca passa. Na verdade nem sei o que tinha de tão importante assim pra te falar, lá vem você cheio de mãos pegando no meu quadril. Tenho que cuspir essas coisas do peito pra te mostrar o quanto me prende e mexe comigo. Mas por enquanto só me morda o lábio.
PS: Eu sei. Já coloquei essa foto antes.
Brancos e coloridos
Há muita neve lá fora. Um branco imenso faz contraste apenas com os galhos secos das árvores e o contorno das casas vermelhas. Poucos, muito poucos pássaros cantam um canto gélido, quase engasgado.
O termômetro marca três graus negativos e eu olho no fundo dos teus olhos cinzas que encaram qualquer filme antigo na televisão. Há paz no perfil do teu rosto, uma paz que me eleva e me enche de certezas. Você me olha indagando em silêncio, porque me olha desse jeito? Sorri de canto uma névoa colorida. Você é tão colorido perto da neve lá de fora.
Folheio umas páginas do meu livro, iluminadas por escassos raios de sol. É Caio Fernando Abreu e isso me faz viajar para outro lugar.
Sem nenhuma palavra, sem expectativa, mas com a maior sabedoria do mundo, você encontra a minha perna. Os olhos ainda fixos na televisão. E tua mão estaciona na minha perna como se me puxasse de volta, como se afirmasse que estamos aqui. Em Reading. E a certeza de que pertencemos. Sim, estamos aqui. Há tanto tempo, eu, você, Oscar Wilde. Brancos e coloridos.
Sorrimos juntos névoas coloridas, sem sequer entender o tamanho de tudo isso.
Intocável
Te querer é como querer possuir um pedaço de nuvem. Bobo assim. Intocável.
Você é livre como um pássaro poligâmico, como um lemur que esfrega hormônios em sua cauda.
Não tenho nem um pedaço de você pra olhar e me lembrar de coisas boas. Coisas boas que passam, porque diabos as coisas boas sempre passam? É como querer vivê-las no passado.
Eu tenho algumas coisas aqui guardadas pra você. Todas elas dentro de uma caixinha de marchetaria. Tesouro.
Você é como uma folha leve durante o outono, desliza vago pelo ar e cai. Basta uma pequena brisa pra te levantar de novo. Eu assopro. Voe logo, não fique muito tempo onde está.
Te disse que tenho algumas coisas guardadas pra você. E sei que isso bem te intriga.
Devolva-me
E ela acordou pensando nele. Como poderia ter tanta coisa por dentro, tanto sentimento? Ela tinha um medo tão grande de se perder nele. De não encontrar mais o juizo, de entregar mais do que deveria. “A gente não se envolve”. Eles concordaram. Ela esqueceu. Que pessoas têm sentimentos, e não chips.
Ela mandou um email, suma da minha vida, por favor. Ele não respondeu e não sumiu. Continuava aparecendo toda quarta-feira, abrindo a porta encostada e derramando todo o prazer que ela queria. Conversavam sobre Dostoievski na cama, discutiam Tarantino na sala, bebiam vinho tinto seco.
E ele saía com a mesma mão vazia com que entrara, e deixava nela um gosto de veneno, desses que descem ardido e rolam vazios pelo estômago. Ardido. Ele era líquido feito água, escorria pelos dedos. Ela tinha medo de se apaixonar por algo que não coubesse na mão inteira.Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão.
Fiódor Dostoiévski
Incompleta
Sei que um dia ela olhará pra tudo isso e morrerá de rir. O quanto os olhos dela brilham quando fala nele. Ontem a noite foi uma criança phoenix, ressurgiu de um pózinho guardado em algum lugar no coração. Não que faltasse amor, faltava era paixão mesmo. Mas ela sabia se apaixonar de novo e ele também. Por pessoas diferentes, por coisas diferentes, por eles mesmos. E foi assim, tão assim, que até saudade ele deixou. Foi embora com um pedaço dela de novo. Incompleta.
Ela diz que não se entrega, mas se entrega toda, até demais. Tenta segurar e não consegue. Força, Ana, força. Força o cacete, eu quero mais é amar até dizer chega.
Ela é movida por espasmos involuntários, borboletas na barriga, coração batendo forte, orgasmos múltiplos. Vou ser feliz e já volto. É o que ela sempre diz.
E termina o dia com a maquiagem borrada, hálito de álcool e um sorriso de canto. Dorme assim, feliz. E volta. Adora se sentir incompleta.


