Quando Pollyanna interpreta versos de Clarice e Caio, num filme de Almodóvar. Isso sou eu.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
O abismo
Eu queria olhar no fundo dos seus olhos, naquele fundo mais fundo onde a gente vê o que tem por dentro e queria dizer que te amo, que te quase amo, qualquer coisa dessas que são mais fortes do que a simplicidade de apenas gostar, e queria segurar teu braço e te chacoalhar e dizer que tudo isso não passa de uma história de amor pra mim, por mais que você não sinta, eu sinto, eu talvez até sinta por nós dois, mas você não diz, não conta o que fui pra você porque talvez eu não tenha sido nada, talvez eu tenha me apaixonado sozinha mesmo como quem pula de um penhasco esperando que o outro venha e o outro não vem, e eu seguro teu braço e grito que me entenda, que tudo o que fiz foi por amor, que todas as burrices do mundo são por amor, um amor que não cresce, não diminui, um amor que fica e que, na verdade, nem sei dizer se é amor mesmo, porque não sei se te amo ou se quase te amo, mas – olha, eu disse – bastaria um gesto seu pra eu ir e dizer, e fazer, mas o fundo dos teus olhos é um desses abismos e eu continuo caindo e caindo e acho que você não me quer mais dentro dele e eu tento me amarrar, me amarrar em qualquer coisa fora do penhasco dos teus olhos, e te chacoalhar para que fale, pra que cuspa qualquer coisa de dentro do teu peito e me deixe cair de vez. Mas não, a vida não é um filme e nem tudo termina como Casablanca.
Somente por mais um dia
Eu deixo a porta encostada, somente por mais um dia. E espero, espero que você venha à noite como nas noites mais lindas de outono. Te espero voltar. Somente por mais um dia. Depois de amanhã eu fecharei a porta com chave e te apagarei da memória, te arrancarei do peito, como quem tira a pele de um peixe. Te puxarei de mim e te trancarei numa gaveta dessas esquecidas em algum lugar. Somente por mais um dia eu deixo a porta encostada. Então, venha.
And I want to thank you…
E enquanto Dido toca no rádio do carro, você dirige. Estamos dirigindo há horas sem rumo e é uma estrada reta, dessas sem nenhum sinal de curva. Apenas indo e sendo com o caminho.
E eu te olho de lado e seu perfil me diz tanta coisa que meu coração chora. Você não faz idéia de tudo o que se passa aqui dentro, de tudo o que passou, do quanto eu sou frágil mesmo parecendo forte. Do quanto eu me agarro às raízes do passado e me agarrar a elas é como rever um filme mental todos os dias contando a nossa história. Você me olha e sorri o sorriso mais genuíno do mundo.
Eu acho que no fundo você sabe de tudo, de todas as angústias que vieram com essa escolha. E em nenhum momento hesitou sair do meu lado. Sempre soube que eu viria com as dúvidas, com os medos e os choros. E ainda assim você segura a minha mão, mesmo quando não cai uma lágrima, e diz tá tudo bem. Eu sei. Você sabe. Que difícil é ter um coração só pra caber tanta gente. E no seu, eu sei, só cabe eu.
Dido canta and I want to thank you for giving me the best day of my life. Você olha a estrada em frente, eu quero deixar muita coisa pra trás. Você com a certeza, eu com uma certeza nova. De que estamos juntos. Sempre.And I want to thank you for being the best love of my life.
PS: Essa pipocada de post é pra quem reclamava que eu não estava mais postando com frequência! 😛
Carta para um amor que não foi
“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo.”
Caio Fernando Abreu
Hoje eu te escrevo sem nem ao menos saber porque. Talvez por essa mania estúpida de querer dar um desfecho em tudo, um adeus formalizado, uma mão no ombro. Talvez por fazer disso o processo de um funeral, pois só quando acompanhamos o caixão é que temos certeza de que está morto. Talvez porque tenho a esperança de que esta carta tire de mim o peso do mundo, o peso que não posso carregar mais a partir de agora.
Você não passou por mim. Você foi muito além e eu já te disse isso em inúmeras outras cartas que nunca mandei. Sabe que a tua vinda foi um furacão. Sim, um furacão avassalador, que chegou destruindo todos os alicerces, se acalmou dentro do olho e foi embora com a mesma força que veio.
Eu te deixo ir do mesmo jeito que me deixou ir. Já não sobram mais mágoas dentro de um coração que está em paz. Já não sobram mais quereres e desquereres, e qualquer outra dessas coisas que senti quando você estava aqui.
Não, não sou frio, muito menos egoísta. Apenas te aceito livre como já está, e te liberto dos meus sentimentos. Preciso cuidar de mim, cara, preciso tocar a minha vida.
O que levo de você são as coisas mais bonitas: os livros do Caio, as risadas no fim da tarde, as músicas que a gente ouviu. O que tenho de você em mim são apenas momentos bons, sentimentos que eu não tive coragem de destruir antes que começassem, porque me faziam bem. Mas a verdade é que nada começou, não é mesmo? Somos apenas frutos das nossas imaginações e do que idealizamos como desejo.
Talvez eu seja exagerado mesmo, talvez isso que vivemos não tenha sido nada, embora não acredite. E talvez você não leia esta carta, mas eu precisava deste desfecho. Precisava colocar um ponto final, virar a página e continuar. Continuar o meu caminho longe do teu, como sempre foi.
Te desejo muito bem, babe, de verdade. Te desejo toda a sorte do mundo e não há nada que diminua o quanto te quero bem. E é, quero te ver feliz. Toda aquela bobagem de ciúmes já não faz mais sentido pra nenhum de nós. Que você seja feliz com quem quiser.
Aqui te digo, quem sabe, minhas últimas palavras. Não quero mais que você seja uma dor em mim, quero que seja uma lembrança boa. E afinal de contas, não queremos mais sofrer pelo que não foi, não é mesmo? O meu carinho por você não mudou em nada, apenas aprendo hoje a deixar-te livre. Arranco-te do meu coração e te coloco ali, num canto. Quem sabe um dia isso aconteça, quem sabe um dia isso se apague.
Agora te deixo em paz. Apenas te quero bem. “Fica bem.”
Fênix
“O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco”.
Fernando Pessoa
Todo mundo tem um pouco de fênix. Um ímpeto, uma força que não se sabe de onde vem, que pra você talvez até seja coisa de Deus, mas é uma coisa física, uma faísca no emaranhado das tuas entranhas que acende naquele momento em que mais nada bastaria.
E caído, depois de tantos tombos, com pedaços seus espalhados por todo o chão, você sangra, você dói, ah, você dói por inteiro, você chora. Mas daí vem essa coisa lá do fundo do estômago e faz as lágrimas secarem, porque até para as lágrimas existe um enough. E se as lágrimas secam, quem dirá o coração.
Você recolhe teus pedaços, tenta não pensar na dor dia após dia, e continua catando pedaços seus espalhados pelo mundo, e tenta colá-los de volta. E eles colam, mas deixam emendas visíveis de que você foi quebrado um dia e a fragilidade vai aumentando com cada queda, e um dia quebra, quebra de vez. Ou endurece de vez. Um dia o coração endurece tanto que você não quebra mais nada. Seco de lágrimas, duro de coração. Uma fênix de aço.Mi Castino
O vestido mais bonito
Amanhã cedo, disse ela enquanto segurava uma xícara de café preto na mão e olhava fixamente o pão amanhecido em cima da mesa da cozinha. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Deu mais um gole no café, escovou os dentes e continuou. Continou aquela mesmice de todas as manhãs, de sair para trabalhar e ganhar um dinheiro que mal pagava suas contas. Havia de continuar ou então se matava, pensava ela. Dizia que o dia em que não tivesse mais vontade de continuar, tentaria morrer, como já havia tentado morrer algumas vezes e até nisso havia falhado. Ou então colocaria seu vestido mais bonito e iria.
Não tinha mais esperança em nada, pobrezinha. Quando se olhava no espelho via somente uma ruga grossa entre a testa. E olheiras que pareciam permanentes, há meses estavam ali demarcando território embaixo de suas pálpebras. Sua vida era apenas um emaranhado de dias e noites que se repetiam, sem ninguém pra dizer que merda de dia havia tido. Sem ninguém pra mostrar-lhe que a lua continuava a brilhar e que cada dia era uma nova oportunidade. Justo ela, que queria tanto uma nova chance. E não percebia que a cada nascer do sol lá vinha ela de novo: a nova chance. Mas não, ninguém lhe falava porque não tinha coisas boas por dentro pra dividir com ninguém. Porque de sua boca não saiam palavras bonitas, pensamentos otimistas, estava era farta de toda essa bobagem de tentar encontrar algo bom no dia. Não havia. E ninguém lhe falava.
E chegava em casa todos os dias às sete da noite, ligava a televisão e continuava. Continuava uma vida medíocre, sem esperança nenhuma. Ah, mas havia uma ponta de esperança. O vestido mais bonito. Era a única coisa que lhe fazia continuar, acordar e imaginar um dia novo. O vestido mais bonito e a porta da casa dele, ele que por tantos e tantos anos ocupava o lugar mais sagrado no seu coração. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Vou lá dizer tudo o que está cravado aqui dentro do peito. Repetia, assistindo ao telejornal.
Mas mal sabia ela, pobrezinha, que a esperança não podia estar num vestido porque a felicidade não podia estar em outra pessoa. E não havia ninguém para lhe dizer que a felicidade começava dentro dela, onde o vestido não podia vestir. Não havia ninguém que lhe dissesse nada e, por isso mesmo, ela apenas continuava.
Bom assim
Tirou os sapatos, deitou no sofá enquanto segurava uma taça de vinho do Porto. Bom assim, ela disse. Não sentir mais aquela imagem martelando a cabeça, a voz presa ao ouvido. Não queria mais aquilo tudo e, sim, tinha sido muito. Não que não fosse imensa o suficiente para aguentar, aguentaria, ah sim, aguentaria muito e com bastante gosto tudo aquilo. Mas não lhe fazia mais falta.
Olhou para o telefone e não sentiu vontade de ligar pra ele. Até que desejava ouvir sua voz de novo, mas já não sentia mais aquele ímpeto, aquela coisa avassaladora que vem com a paixão. Não, não precisava mais disso. Já conseguia seguramente passar alguns dias sem pensar nele, sem querer saber o que acontecia em sua vida. Não mais a interessava. Encontros e desencontros, repetia. Disso é feita a vida.
Desistir, não. Desencanar, apenas. Afrouxar a rédea, soltar a âncora, deixar o barco percorrer o seu caminho. Quem sabe em outra época, em outro lugar, outra situação. Quem sabe um encontro a mais, um desencontro a menos.
E já não dói. Mas o que foi mexido lá dentro talvez fique para sempre. Quem sabe um dia, um beijo roubado. Quem sabe um dia. Já não importa mais.
E mudou de pensamento tão rapidamente quanto tomava um grosso gole de vinho. Já não havia mais nada que a prendesse nele. E era bom assim.


