Bom assim

Tirou os sapatos, deitou no sofá enquanto segurava uma taça de vinho do Porto. Bom assim, ela disse. Não sentir mais aquela imagem martelando a cabeça, a voz presa ao ouvido. Não queria mais aquilo tudo e, sim, tinha sido muito. Não que não fosse imensa o suficiente para aguentar, aguentaria, ah sim, aguentaria muito e com bastante gosto tudo aquilo. Mas não lhe fazia mais falta.
Olhou para o telefone e não sentiu vontade de ligar pra ele. Até que desejava ouvir sua voz de novo, mas já não sentia mais aquele ímpeto, aquela coisa avassaladora que vem com a paixão. Não, não precisava mais disso. Já conseguia seguramente passar alguns dias sem pensar nele, sem querer saber o que acontecia em sua vida. Não mais a interessava. Encontros e desencontros, repetia. Disso é feita a vida.
Desistir, não. Desencanar, apenas. Afrouxar a rédea, soltar a âncora, deixar o barco percorrer o seu caminho. Quem sabe em outra época, em outro lugar, outra situação. Quem sabe um encontro a mais, um desencontro a menos.
E já não dói. Mas o que foi mexido lá dentro talvez fique para sempre. Quem sabe um dia, um beijo roubado. Quem sabe um dia.  Já não importa mais.
E mudou de pensamento tão rapidamente quanto tomava um grosso gole de vinho. Já não havia mais nada que a prendesse nele. E era bom assim.

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