O vestido mais bonito

Amanhã cedo, disse ela enquanto segurava uma xícara de café preto na mão e olhava fixamente o pão amanhecido em cima da mesa da cozinha. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Deu mais um gole no café, escovou os dentes e continuou. Continou aquela mesmice de todas as manhãs, de sair para trabalhar e ganhar um dinheiro que mal pagava suas contas. Havia de continuar ou então se matava, pensava ela. Dizia que o dia em que não tivesse mais vontade de continuar, tentaria morrer, como já havia tentado morrer algumas vezes e até nisso havia falhado. Ou então colocaria seu vestido mais bonito e iria.
Não tinha mais esperança em nada, pobrezinha. Quando se olhava no espelho via somente uma ruga grossa entre a testa. E olheiras que pareciam permanentes, há meses estavam ali demarcando território embaixo de suas pálpebras. Sua vida era apenas um emaranhado de dias e noites que se repetiam, sem ninguém pra dizer que merda de dia havia tido. Sem ninguém pra mostrar-lhe que a lua continuava a brilhar e que cada dia era uma nova oportunidade. Justo ela, que queria tanto uma nova chance. E não percebia que a cada nascer do sol lá vinha ela de novo: a nova chance. Mas não, ninguém lhe falava porque não tinha coisas boas por dentro pra dividir com ninguém. Porque de sua boca não saiam palavras bonitas, pensamentos otimistas, estava era farta de toda essa bobagem de tentar encontrar algo bom no dia. Não havia. E ninguém lhe falava.
E chegava em casa todos os dias às sete da noite, ligava a televisão e continuava. Continuava uma vida medíocre, sem esperança nenhuma. Ah, mas havia uma ponta de esperança. O vestido mais bonito. Era a única coisa que lhe fazia continuar, acordar e imaginar um dia novo. O vestido mais bonito e a porta da casa dele, ele que por tantos e tantos anos ocupava o lugar mais sagrado no seu coração. Amanhã cedo coloco meu vestido mais bonito e vou. Vou lá dizer tudo o que está cravado aqui dentro do peito. Repetia, assistindo ao telejornal.
Mas mal sabia ela, pobrezinha, que a esperança não podia estar num vestido porque a felicidade não podia estar em outra pessoa. E não havia ninguém para lhe dizer que a felicidade começava dentro dela, onde o vestido não podia vestir. Não havia ninguém que lhe dissesse nada e, por isso mesmo, ela apenas continuava.

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Um comentário sobre “O vestido mais bonito

  1. Danielle Abade disse:

    Parabens pelos textos.
    Cheguei aqui por meio da Casa do Galo.

    Continue a libertar as palavras soltas que existem em você, elas so começam a fazer sentido (quando possível) no momento que a gente crava no papel aquilo que pulsa no coraçao.

    Abs,

    Dani

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