Fortaleza

Eu não sou assim. Não sou de ostentar carências e inseguranças, muito menos gostaria que você conhecesse essa parte minha. Pra você, como para todo mundo, eu sou aquela pessoa cuja força não cessa nunca, aquela que cai um milhão de vezes e levanta sozinha, aquela que aprendeu a tomar murro na cara da vida e continua sorrindo, esperando por um dia melhor. Eu sou aquela que veste a armadura em tempo integral, que não se protege dos ferimentos, mas que arca com a tarefa de limpá-los, estancá-los e deixar que se curem sozinhos. Nunca precisei do apoio de ninguém para tomar as minhas decisões, nunca deixei ninguém me pegar no colo quando as lágrimas caíam. Tudo o que fiz na minha vida foi agir e suportar a reação.
Mas nem mesmo a gente, que é feito de aço, consegue arcar com essa barra de ser forte o tempo todo. Essa obrigação ridícula de ser feliz todos os dias. E isso não significa que não se seja feliz: melancolia, tristeza, vazio são atributos nobres de qualquer coração que pulse. Nobres, pois é preciso ser nobre para mostrá-los e raramente eu o faço.
Ser fortaleza geralmente é uma fuga. Não é a minha sempre, isso eu garanto. A minha fortaleza é feita de força mesmo. Os meus muros, de chatice. De carência, de insegurança, de insistência. Testo os limites de quem se importa comigo para ver se correspondem. Não sou do tipo de gente que se vira do avesso nessas horas, que some e volta renovado. Eu chamo. Eu grito um apelo surdo, uma voz estridente sem som para ver se alguém percebe. Eu vou atrás. Eu fico chata, eu fico muito chata. E nem eu mesma sei suportar a minha chatice.
Mas não pense que me orgulho desse lado obscuro da minha personalidade, não se iluda. Preferia mil vezes ser dessas pessoas ermitãs, que se  isolam do mundo para recolherem os cacos.
A verdade é que se eu me isolasse, me perderia ainda mais. A verdade é que não queria que conhecesse as minhas fraquezas, mas sou exposta demais para escondê-las. Me entenda como um coração humano que de vez em quando dói e não é por culpa de ninguém, senão de mim mesma.  E me cuida quando preciso.

 

 

Amores de estimação

Eu me perdi no meio do caminho e não posso voltar atrás, só sei que tenho que continuar andando. E que começar um caminho novo exige muito mais coragem do que terminar um antigo.
Deixei pedaços de mim presos em uma estrada torta de arame farpado. Agora chego ao meu corpo cru, nu, exposto em carne viva. E meus pedaços, você os conhece bem, já que são tão suficientes em você que dá para montar um quebra-cabeça de mim. Um quebra-coração de mim.
É que a intensidade e a loucura fazem parte da única inspiração que eu sou. Entende que não tem como gostar da inspiração e não querer a intensidade. Sou artista, sou adrenalina, sou o que te corta. Sou verdades cruas espalhadas em ás de espadas numa mesa. Não sei fingir, nunca dei sorte no jogo.
Não empurra assim, não faz pouco caso do que é tão raro e é seu. Que não sirva agora, a gente sabe, mas vai voltar um dia. Porque eu tenho aquele algo a mais que você sempre procurou na superficialidade alheia. Porque eu mexo lá no seu fundo. Ou talvez eu esteja delirando dentro de uma ilusão, amores de estimação muito bem alimentados. Talvez tudo isso seja ego. E o que vem do ego é egoísmo. Não desdenha, não finge que não existe, não finge que eu não sou nada. Não me deixe chegar perto do pensamento de que não merece um fiapo do que tenho aqui dentro.

Picles

Às vezes queria apenas não amar. Ser incapaz de me apaixonar romanticamente por qualquer pessoa que fosse. Ou então ser desprovida dessa válvula propulsora que me faz saltar de penhascos, linda e sorridente, sem antes ver o que tem embaixo.
Queria descobrir onde é que vendem essa tal de astúcia que as pessoas desenvolvem depois que o coração machuca. Onde vende essa armadura que ensina a se proteger das feridas?
Queria comprar amores correspondidos em banca de jornal, preço de figurinha, em pacotes com três.
Queria arrancar o coração do peito e deixar apenas o cérebro tomar as decisões. Preservaria o coração em vinagre, feito picles. Intacto, inacessível, indolor.
Preciso arrumar um pote de vidro.

E mal sabe ela, boba que é, que o culpado de tudo é somente o cérebro, essa cabeça louca que ela tem. O cérebro é quem dita, o coração só diz amém.

Coração maior do mundo

Quando você me conheceu, há quase dez anos, eu era uma menina que acreditava. Eu tinha sonhos, planos e o maior de todos eles era o amor. Era romantiquinha, acreditava em príncipe encantado, em contos de fada reais e até mesmo no para sempre.
Você, por outro lado, era muito parecido com o que é hoje. Um menino sem muitos planos e o maior coração do mundo. E foi exatamente por esse maior coração do mundo que me apaixonei. Você me faz rir. Você desbrava o mundo comigo. Você me ensinou coisas que nunca teria aprendido sozinha. Você me ensinou o que é amor incondicional, e também as dores mais doloridas que já tive.
E hoje sou tão diferente. Já não gosto mais de música eletrônica, já não passo carnavais em Salvador. Eu mudei tanto que às vezes nem eu me reconheço. Passei a desacreditar, muito mais do que acreditar. Em tudo. Já não acredito mais em para sempre, já não tenho minhas crenças religiosas tão firmes como antes. Mas olha nos meus olhos enquanto te falo, ainda acredito no amor. Ainda acredito em nós.
E embora me sinta tão longe daquela menina sonhadora, me encontro mulher nela todos os dias. Apenas pelo coração.
Agora segura na minha mão e vem caminhar comigo. Ainda tem estrada.

Quietude

Bem ali na curva do teu ombro é onde mora minha quietude. É na sua escápula que deito todos os meus silêncios.
Pois quando fecho os olhos, te encaixa os lábios na minha testa, rodeia meu mundo com teu braço comprido e aconchega minha perna entre as tuas coxas.
E permanecemos assim em silêncio, com qualquer coisa na televisão, não sei bem ao certo; estou morando em minha quietude.
A curva do teu ombro é o silêncio oco dentro da água.
É útero sagrado, é paz, é mágica.
Fecha minhas pálpebras com teus lábios de enseada e adormeço em sua imensidão.

Ites gringas

Mudar de país é descobrir coisas em você que não conhecia antes. Eu, por exemplo, nunca tive alergia a nada. Foi só morar aqui por um tempo para descobrir uma horrorosa labirintite irritativa no inverno, que me deixava tonta de não conseguir andar na rua. Estranho? É o efeito dos ventos do norte, meu amigo. Experimente-os na sua orelha para perder completamente o equilíbrio. Por causa disso, passo três meses tomando Gingko Biloba.
Na primavera e verão, outra alergia desconhecida: bloody hayfever. Alergia a pólen – no meu caso, de grama, o que é pior. Paulistanos não têm acesso ao pólen de nada, convenhamos. Não entendia as constantes dores de cabeça, bem parecidas com uma crise horrível de sinusite. Olhos inchados, vermelhos, lacrimejando. Nariz escorrendo, coçando. Tem dias que parece que te deram uma surra e uma bigornada na cabeça.
Daí você pensa comigo, pobre criatura, tem alergia a pólen e foi morar no mundo encantado dos cortadores de grama. Sim, porque já acho que isso chega a ser cultural e os ingleses começam a substituir animais de estimação por cortadores de grama. Aliás, isso é o meu primeiro sinal de que a primavera chegou: bloody lawn mower. Tipo celebração, dança da chuva e tal, saca? Aqui é assim: nos primeiros raios de sol o povo sai pro jardim, em seus rituais de adoração. É um flashmob do ditado que fala da grama do vizinho ser mais verde.
Estou escrevendo este texto porque a viada da vizinha tá cortando a porcaria da grama, e ela cortou não faz nem uma semana. A dança do sol aqui na terra dos teletubbies é esporádica, frequente e cheia de surpresas. Viada. E eu quase me matei atrás do meu remédio.
Quer ver alguém que sofre de hayfever enlouquecer? Ligue um cortador de grama sem dó do lado dele (este lado pode ser metros e metros de distância). Mas o faça enquanto ele ainda não tiver tomado o antialérgico. Melhor: o faça às seis da manhã, enquanto ele ainda estiver dormindo. Daí a sequência é assim: ao primeiro sinal do bloody cortador de grama, você dá um pulo da cama (estilo alarme de incêndio). O quarto tá escuro, você tropeça no pé da cama, no celular, na cômoda e, se for como eu, até no fio de cabelo que tá no chão. Bate a cabeça na prateleira, SE MATA no quarto, tentando achar o remédio no escuro, porque o desespero é tanto, galera, que você nem pensa em acender a luz. Lembra do cheiro da torta do pica-pau, que ele voava em direção à fumacinha? É tipo assim que eu vejo o pólen chegando, só que eu fujo dele (só dá pra ver na minha cabeça). É uma race against it. Quem chega primeiro: a porcaria do pólen ou o seu remédio.
Daí você toma o remédio, fecha todas as janelas, se esconde debaixo do edredom, porque tem outro segredo: se a filha da puta da hayfever chegar antes do antialérgico fazer efeito, já era. É só um por dia.

 

Sobre a solidão

Um dia você aprende que a solidão não é uma coisa só, ela é um rio cheio de afluentes, e todas essas ramificações já deveriam ser suficientes pra te fazer companhia. A solidão é um emaranhado de pequenas estradinhas escuras que, cedo ou tarde, vão fazer parte do caminho. E não importa quantas vezes e quais delas você já conheça, ainda tem um monte de solidão aí esperando.
A solidão é boa, viu. A solidão te rasga por fora até conseguir te virar do avesso. E quando te vira e expõe as partes que você teima em esconder, ela as esfrega na sua cara. Os medos, os traumas, as dores, as cicatrizes, tudo lá escancarado no avesso de você. E não há momento mais sublime na vida do que ter seu avesso jogado na sua frente, como carcaças usadas de açougueiro.
A solidão é boa como uma pequena sala de cinema. Poltronas de couro vermelhas, um filme antigo e chiado, quase se perdendo na tela. A solidão é a uma exposição sua, nua, para você mesmo.
Então sente-se e assista ao seu próprio filme. Reveja suas cenas em carne viva. Pegue uma taça de vinho, um garrafa de cerveja, sei lá, coloque uma música gostosa – a solidão não tem trilha sonora. E enfrente as suas carcaças antes de dar espaço às moscas. Solidão com moscas não é bom.

Tem de caber o mar

Em toda palavra que escrevo, tem de caber o mar.
Em toda palavra que escrevo, há de se naufragar.
Se solto minha escrita ao vento, receba-a em pergaminho enrolado dentro de garrafa de rolha.
Receba papel rasgado, salgado, amarelo, feito lágrima em folha.
Se solto minha escrita ao vento, abra todas as janelas e aguarde.
Palavras lhe chegarão ferozes, feito temporal de fim de tarde.
É que em toda palavra que escrevo, tem de caber inteiro o mar.
Em toda a palavra que escrevo, há de caber um pouco amar.