Ites gringas

Mudar de país é descobrir coisas em você que não conhecia antes. Eu, por exemplo, nunca tive alergia a nada. Foi só morar aqui por um tempo para descobrir uma horrorosa labirintite irritativa no inverno, que me deixava tonta de não conseguir andar na rua. Estranho? É o efeito dos ventos do norte, meu amigo. Experimente-os na sua orelha para perder completamente o equilíbrio. Por causa disso, passo três meses tomando Gingko Biloba.
Na primavera e verão, outra alergia desconhecida: bloody hayfever. Alergia a pólen – no meu caso, de grama, o que é pior. Paulistanos não têm acesso ao pólen de nada, convenhamos. Não entendia as constantes dores de cabeça, bem parecidas com uma crise horrível de sinusite. Olhos inchados, vermelhos, lacrimejando. Nariz escorrendo, coçando. Tem dias que parece que te deram uma surra e uma bigornada na cabeça.
Daí você pensa comigo, pobre criatura, tem alergia a pólen e foi morar no mundo encantado dos cortadores de grama. Sim, porque já acho que isso chega a ser cultural e os ingleses começam a substituir animais de estimação por cortadores de grama. Aliás, isso é o meu primeiro sinal de que a primavera chegou: bloody lawn mower. Tipo celebração, dança da chuva e tal, saca? Aqui é assim: nos primeiros raios de sol o povo sai pro jardim, em seus rituais de adoração. É um flashmob do ditado que fala da grama do vizinho ser mais verde.
Estou escrevendo este texto porque a viada da vizinha tá cortando a porcaria da grama, e ela cortou não faz nem uma semana. A dança do sol aqui na terra dos teletubbies é esporádica, frequente e cheia de surpresas. Viada. E eu quase me matei atrás do meu remédio.
Quer ver alguém que sofre de hayfever enlouquecer? Ligue um cortador de grama sem dó do lado dele (este lado pode ser metros e metros de distância). Mas o faça enquanto ele ainda não tiver tomado o antialérgico. Melhor: o faça às seis da manhã, enquanto ele ainda estiver dormindo. Daí a sequência é assim: ao primeiro sinal do bloody cortador de grama, você dá um pulo da cama (estilo alarme de incêndio). O quarto tá escuro, você tropeça no pé da cama, no celular, na cômoda e, se for como eu, até no fio de cabelo que tá no chão. Bate a cabeça na prateleira, SE MATA no quarto, tentando achar o remédio no escuro, porque o desespero é tanto, galera, que você nem pensa em acender a luz. Lembra do cheiro da torta do pica-pau, que ele voava em direção à fumacinha? É tipo assim que eu vejo o pólen chegando, só que eu fujo dele (só dá pra ver na minha cabeça). É uma race against it. Quem chega primeiro: a porcaria do pólen ou o seu remédio.
Daí você toma o remédio, fecha todas as janelas, se esconde debaixo do edredom, porque tem outro segredo: se a filha da puta da hayfever chegar antes do antialérgico fazer efeito, já era. É só um por dia.

 

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