Sobre a solidão

Um dia você aprende que a solidão não é uma coisa só, ela é um rio cheio de afluentes, e todas essas ramificações já deveriam ser suficientes pra te fazer companhia. A solidão é um emaranhado de pequenas estradinhas escuras que, cedo ou tarde, vão fazer parte do caminho. E não importa quantas vezes e quais delas você já conheça, ainda tem um monte de solidão aí esperando.
A solidão é boa, viu. A solidão te rasga por fora até conseguir te virar do avesso. E quando te vira e expõe as partes que você teima em esconder, ela as esfrega na sua cara. Os medos, os traumas, as dores, as cicatrizes, tudo lá escancarado no avesso de você. E não há momento mais sublime na vida do que ter seu avesso jogado na sua frente, como carcaças usadas de açougueiro.
A solidão é boa como uma pequena sala de cinema. Poltronas de couro vermelhas, um filme antigo e chiado, quase se perdendo na tela. A solidão é a uma exposição sua, nua, para você mesmo.
Então sente-se e assista ao seu próprio filme. Reveja suas cenas em carne viva. Pegue uma taça de vinho, um garrafa de cerveja, sei lá, coloque uma música gostosa – a solidão não tem trilha sonora. E enfrente as suas carcaças antes de dar espaço às moscas. Solidão com moscas não é bom.

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