Ele não a deixa desistir. Ela ameaça afastar-se, ele avança com dentes e essas garras que lhe prendem o coração há tanto tempo. Ela continua sonhando com ele todas as noites. Ele continua pensando nela todos os dias.
E assim vão levando a vida por uma estrada torta onde, quem sabe um dia, ainda exista uma possibilidade. Não, não existe, eles jamais lutariam por um amor que não combina. Então que ainda exista sempre um na vida do outro, uma tentativa de encaixe, que ainda exista essa tal possibilidade que assusta.
E eu só me pergunto até quando eles vão ficar se enganando, fingindo que tudo isso não é amor. Até quando eles caminharão essas estradas tortas que chamam de vida própria, onde nem um, nem outro se encaixa.
Tristes os amores que não podem acontecer por terem chegado tarde ou cedo demais.
O amor tem muito dessas coisas de momento. O problema é que as pessoas esquecem que quem faz o momento são elas mesmas.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
O amor, menina
Menina, menina, eu tenho te observado um pouco, sabe. Toda essa sua frustração, esse coração apertado, essa tentativa besta de desatar seus nós através de palavras alheias. Eu sei o que você guarda aí dentro, conheço seus medos e esconderijos. Amores não correspondidos pesam no travesseiro todas as noites. E dóem uma dor que só eles sabem doer.
E você ainda acredita no amor, embora a vida só tenha te dado dúvidas. Ainda que seu coração esteja grosso, cheio de cicatrizes. O amor é aquilo que acontece com os outros. Amor é história inventada pra vender ingresso de cinema. O amor, menina, é aquele conto de fada que você ouviu quando criança e te fez acreditar em príncipe encantado.
Pois escuta bem o que vou te dizer agora. Não é que o amor não exista; o que não existe é gente que acredite nele. Do jeito que ele é de verdade.
E o que te tira o ar, te faz perder o chão, isso é paixão, menina, não confunda com amor. A paixão te estremece as pernas, gela teu estômago, a paixão vicia, libera enzimas que te fazem sorrir à toa. Não seja boba em acreditar que é possível ser apaixonada pra sempre.
O amor, por outro lado, é aquela pequena ilha onde você chega depois de ter nadado tanto contra a maré, depois de ter perdido quase tudo no caminho. O amor é o chão, ele não te faz perdê-lo. O amor é onde seus pés pisam, a paixão é onde sua cabeça voa. Mas não se esqueça de que ele existe, sim.
E o amor de verdade, bem além desse inventado que a gente aprende, é exatamente o mesmo tipo de amor fraternal que você sente por qualquer um. Com pequenos flashbacks de paixão, mas veja bem: eles diminuem com o tempo. O amor é o que fica, o que conforta, o que confia. O amor é aquele calorzinho no coração.
Agora pegue todo esses seus resquícios encantados, essas expectativas hollywoodyanas, pegue todas as histórias que você ouviu um dia e aprende. Aprende, porque dói muito menos. E, ah, não se esqueça de não cometer a mesma burrice com a sua filha: ensina-lhe música, não contos de fadas.
Give me a reason to love you
Eu vejo a chuva escorrer pela janela do meu quarto e o seu rosto ainda reflete dentro de mim de alguma forma. Quando é que isso vai passar ? Estou indo embora, babe. Estou deixando para trás todo esse amor que tenho por você, esses castelos construídos com tijolos de ilusão, restos de sentimentos. Não quero mais isso pra mim, não preciso de raspas de carinho e atenção.
E não se preocupe, porque não dói. Já passei do estágio da dor, alcancei a analgesia do coração. Um efeito numb, um coração anestesiado, desses que não respondem a mais nada, embora não signifique que esteja vazio. É como encontrar o fundo do buraco e subir de novo, eu sei o caminho de volta, não quero mais cavar para baixo.
Por isso estou indo embora, porque nem sei ao certo se ainda cruzo o seu pensamento de vez em quando. Não sei se pensa em mim, se se lembra de mim, se me deseja ainda algumas noites. Não sei mais nada sobre o que você sente. Ou quantas pessoas substituiram meu cheiro na sua cama. E eu não sou atleta, nunca fui bem em competições: não se luta pelo amor de alguém.
Que você perceba um dia o quanto tive pra te dar. Que se lembre de mim com um pouco de amor. E se um dia alguém cruzar teu coração do modo que eu cruzei, te desejo que não hesite um segundo. Opte pelos amores de verdade. Como esse nosso que você não teve coragem de encarar.
Agora te deixo escorrer feito a chuva na janela. Pode ir, eu vou também. E se tudo isso te parecer loucura demais, me dê um motivo pra continuar te amando. Não tenho tido pedaços suficientes para montar um só. Me dê apenas uma razão pra tudo isso e ainda te fecho entre as mãos e te transbordo para não vazar.
Tangível
Eu não pretendia me apaixonar por você. Não planejava fechar os olhos e ver seu sorriso, sentir seu cheiro nas minhas mãos quando a saudade bate, ter frames de você dentro das minhas pálpebras a cada vez que pisco meus olhos.
É que você brilha; e ofusca tudo de tal maneira que o mundo desaparece dentro do seu oi sorrindo. É que você vem com a melhor trilha sonora embutida. É que você tem todo esse jeito de quem traz um pacote de amores doídos, coração prontinho pra ser cuidado. E eu adoro cuidar.
Então vem e me deixa te colocar no colo, correr meus dedos sobre o seu rosto e dizer, te acalma, menino, isso aqui é amor de verdade. E é tão tangível que posso tocá-lo na curva do seu queixo. Sente o amor na minha pele? Toca. Pega. Amor tem gosto e cheiro.
Deita mais um pouco, toca essa nossa música em você. Me deixa te fazer rir e enche meu coração de calor com essa sua gargalhada e esse monte de besteira que você fala. E antes de ir embora, fica pra sempre na minha vida.
Knight
Primeira manhã acordando na casa nova. Alugada, sim, mas com um gostinho especial de “minha”, de vida nova, de lar, de – quem sabe – uma definitiva adaptação. Uma vez me disseram que era preciso quatro anos para se adaptar à Inglaterra, e hoje eu tenho absoluta certeza disso. Quatro longos anos, que por vezes me deram todos os motivos do mundo para desistir, e como em um passe de mágica, abre todos os caminhos de uma só vez.
A casa nova é um apartamento térreo. E tem tudo que eu sempre sonhei em ter aqui. Um pequeno jardim só meu, onde eu possa colocar uma mesa e o meu telescópio. Um quartinho extra, pra quando alguém quiser me visitar. Chuveiro e banheira ocupando o mesmo lugar no espaço. Uma pia onde caibam as duas mãos do meu marido ao mesmo tempo.
Acordar aqui hoje foi uma experiência diferente. Sentar no jardim debaixo de um pé de ameixas, bebericando meu café me dá uma profunda sensação de que, finalmente, a Inglaterra é home, sweet home.
Obrigada, ilha. Por me acolher da forma mais selvagem e dolorosa que já fui acolhida, e da mais especial também. Depois de todos esses anos, sinto sua espada passando pelos meus ombros e minha cabeça. Depois da batalha, me sinto knighted, como uma verdadeira guerreira das suas terras.
Que volte inteiro
Noite passada eu sonhei com você, me olhando de longe, daquele jeito que só eu sei quando você me olha, meio alheio a todo esse amor que existe entre a gente. E como se o sonho quisesse se tornar realidade você me segurava o rosto e dizia, entre beijos involuntários nos meus lábios, que não queria me perder. Que não iria me perder, não dessa vez. Não mais uma vez.
É que me lembro dos seus olhos assim, sabe, me olhando de perto, me pedindo pra ficar, pra não ir a lugar algum que você não possa vir junto. E de repente, quando eu acordo, tudo vira líquido nos meus dedos e você me escorre. Me escorre, porque quem virou aquela esquina foi você, porque quem desistiu do que crescia muito rápido foi você, porque você sabe que não tem outra saída e você, babe, é daquele tipo de pessoa que prefere matar um amor quando não se pode ter expectativa de viver um relacionamento. E a verdade é que relacionamentos não existem e o que existem são apenas histórias, e a nossa, ah, a nossa é quase o enredo de um filme cult, uma letra de tango argentino, desses que se ouve chorando e sorrindo de dor e alegria. Porque a nossa história é linda e dói. Mas dói só quando você não está comigo.
Então talvez um dia eu queira que você volte. E fique. E que nunca mais dobre aquela esquina outra vez, olhando para trás, e levando metade de mim contigo. Mas por enquanto tenho que cuidar de mim, abstrair suas metades, seus fiapos de amor e ilusão.
E quando voltar, que volte inteiro. Sem essa pose de defesa, sem essa armadura em forma de medo. E entenda a gente como uma possibilidade de uma história bonita. Uma história com h, feito essas que acontecem de verdade, ainda que somente dentro do coração.
Moving on
Chega de esperar que coisas aconteçam. Estou me despindo das amarras, dos grilhões, do passado. Estou seguindo em frente sem me importar em recolher meus pedaços pelo caminho. Não quero mais olhar para trás, não quero mais esse meu cheiro de naftalina. Que se danem meus pedaços que caem; eles já não mais me pertencem.
Chega de depositar esperanças no que depende dos outros, chega de esperar que as coisas aconteçam seguindo esses scripts loucos que a sua cabeça inventa. Chega de ostentar essa capa de adolescência tardia, incrustada de pequenas poções de drama e ilusão.
Sente o corpo nu, menina, sem nada que te segure além desse sorriso no rosto. E ande. Ande pra frente. O que tem que ser, é.
Feliz 90 anos, Guaraná Antarctica
É muito claro o quanto a minha infância foi significante na minha vida, tanto quanto a importância dos meus avós pra mim. Desde que meu pai faleceu, minha mãe teve que trabalhar em dois empregos para poder tocar a nossa vida e muitos dos meus dias foram na casa dos meus avós.
Na frente da casa deles existiam três árvores, as três plantadas pelo meu avô e carinhosamente apelidadas de três marias. Atrás das árvores, onde hoje é o centro Britânico, ficava o depósito da Antarctica.
A minha infância inteirinha foi recheada por uma fantasia mágica em torno da minha bebida preferida, o guaraná. Nunca fui uma criança viciada em Coca-Cola, minha primeira opção sempre foi guaraná e, caso não tivesse, minha escolha ficaria entre Fanta, Crush, Gini ou Seven Up (as últimas três, para os mais velhos).
O depósito da Antarctica na frente da casa dos meus avós era como a fábrica de chocolates do Willy Wonka. Na verdade, acho que era só um estacionamento de caminhões, mas para mim, devia ser o lugar mais feliz do mundo. E como deveria ser bonito trabalhar todo dia num lugar cheio de guaraná. Todos os dias eu via os motoristas subindo e descendo daqueles caminhões cheios de refrigerante. E o mais mágico de tudo isso é que eu nunca pude entrar lá dentro, só conseguia espiar pelos portões um monte de caminhões e paredes cinzas, que meus olhos tratavam de transformar em um planeta mágico e colorido.
Ainda me lembro de me chocar quando descobri que o logo da Antarctica eram dois pinguins, e não a cabeça de um dinossauro vermelho parecido com o Horácio, da turma da Mônica. Sempre vi dois olhos nos pinguins (criança pancada vira publicitária, não tem jeito).
Também não vou discorrer aqui que, apesar da Antarctica ter feito parte de um universo mágico da minha infância, meu guaraná preferido era Brahma, de garrafinha marrom de vidro. E eu transferi toda essa magia da Antarctica para o dia em que meu tio foi trabalhar na Brahma de Fortaleza. Meu tio era o cara mais foda do mundo, porque – na minha concepção de criança – ele fazia o guaraná mais foda do mundo (claro que ele não fazia guaraná).
Na verdade, tudo isso foi pra mostrar pra vocês a coisa linda que a DM9DDB fez este mês: republicar o primeiro anúncio do guaraná Antarctica, que completa 90 anos. O depósito, ou estacionamento da Antarctica, não existe lá há muito tempo e, pra ser bem sincera com vocês, eu acho que eles só transportavam cerveja. Mas a minha infância foi marcada pelo mundo que eu criei em torno de uma marca e, por isso, eu queria homenagear a Antarctica de alguma forma, agradecendo-lhe por ter sido uma dessas purpurininhas da minha vida de menina. Um simples depósito na rua Tucambira fazia meu mundo de criança um lugar muito mais interessante.
Parabéns, Guaraná Antarctica. E obrigada pela companhia nos últimos 31 anos (mesmo aqui na Inglaterra).

