Acordei com uma sensação de ser muito idiota, talvez aquela velha mania de olhar em volta quando as coisas estão mudando e tentar encontrar um motivo em si mesmo. Acho que sempre temos um porque que dependeu de atitudes nossas. Ou da falta delas.
Nem sempre a culpa do mundo é minha, eu sei, mas gosto de rever os cenários e procurar o que fiz para contribuir com tais situações. Pode parecer bobagem, mas eu sempre acho alguma coisa. As coisas andam em ciclos e os ciclos dependem de todos os pontos envolvidos.
Tenho uma sensação idiota de ter me perdido em uma estrada tortuosa, cheia de deslumbramento e distração. E sinto que foi tudo de propósito, que mais uma vez a vida se encarregou de colocar um violinista, uma banda de palhaços e alguns cachorros em cada curva, tudo muito bem enfeitado. Um teste de foco. E acabei me perdendo, ainda consigo ver o destino final, e sei que quero chegar nele, mas a estrada é tão interessante. Me perdi.
Preciso aprender a focar de novo, porque todo mundo neste circo está sendo pago, menos eu. Se eu me perder, não chego ao destino. Se não chegar ao destino, perco tudo o que tenho.
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Deixar de ser idiota é saber focar no que se quer lá dentro das entranhas. E você sabe muito bem o que é.
Embrulho
Amar alguém é um dos maiores gestos de humildade do ser humano.
É retirar de si o coração, a parte mais suscetível a dor, e entregar a uma pessoa esperando que ela não o machuque.
É retirar de si o pedaço mais frágil, sem saber como o outro vai cuidar e, ainda assim, esperar com toda a fé do mundo que seja colocado num pedestal e velado como a parte mais especial de sua vida.
É entregar o seu mundo inteiro em sangue e carne viva nas mãos de alguém e dizer toma, faça o que quiser com o que mais me dói.*
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*E as pessoas ainda não aprenderam o quanto isso é importante.
Guerreira de barco
Que talvez o que te prende é um passado que, de repente, não existe mais.
Que as pessoas mudam, ora pra melhor, ora pra pior.
Que o amor não acaba, mas se transforma.
Que para sempre não existe.
Que talvez tenha sido mesmo sempre você a insistir em tudo em isso.
Que talvez tenha sido mesmo sempre você a acreditar em contos de fada.
E contos de fada não existem.
Enxuga essas lágrimas, engole todo esse vazio. Chega de remar contra a maré, é hora de deixar a correnteza levar, é hora de deixar a vida manifestar suas vontades. Passe pro banco de trás, menina, você não controla mais esse barco.E isso não é fracasso. Isso é amor próprio.
***
Continuará tentando, espera sempre o melhor de tudo. É uma guerreira sem estratégia nenhuma, conta apenas com essa esperança triste de que os outros continuem remando também.
A voz abafada de dentro
Parado no meio da rua, ele segurou suas duas mãos com todo o cuidado do mundo e sussurrou baixinho, não quero que você vá. Mas lá dentro dele, seu coração queria gritar tudo isso e fazer com que as pessoas que caminhavam por lá parassem, olhassem e entendessem, como um pedido de socorro, como se alguém no meio da multidão pudesse tirá-lo dessa angústia, chamem a ambulância, os bombeiros, socorro, socorro, socorro, camisa de força, amarrem-na, pelo amor de deus, amarrem-na, façam com que ela nunca mais vá embora!
Ela então beijou-lhe o rosto e disse que se apenas ele fosse menos frio, se soubesse dizer mais o que se passava por dentro, talvez ela não precisasse ir embora. E mais uma vez ele calou-se, com as unhas rasgando o avesso do coração, com a voz abafada de dentro gritando, implorando, pedindo. Ele simplesmente não sabia. E ela se foi, mais uma vez. Talvez para sempre.
Liberta
Liberdade de sentimentos é a única liberdade real. Somente quando nos despimos de sentimentos mesquinhos e estagnados é que podemos nos considerar livres.
O grande truque dessa liberdade é que às vezes ela te ilude, fazendo acreditar que está livre do que te prendia e, ao menor sinal de tropeço, ela te entrega todos os sentimentos de volta, enfeitados com lâminas afiadas e espinhos pontudos.
Há de se desprender do que te segura, há de se chacoalhar e deixar o que é morto cair.
Porque de nada adianta a liberdade se ainda somos escravos da nossa mente e do nosso coração. Eles é que são os grandes aliados e inimigos de qualquer pessoa livre.
Cinco de Janeiro
Cinco de Janeiro sempre foi uma data especial pra mim. Por tantos anos estive na praia nessa época, por tantos anos o Reveillon foi quase que extendido até o quinto dia do ano. Era festa. Era dia de sair, onde quer que estivessemos, para comprar bolo e velas. Era seu aniversário, vô.
E até hoje você continua sendo para mim a pessoa que mais celebrou tudo. O dia simples, a mediocridade, as datas especiais, o nascer do sol, o canto do sabiá, a vida. Você sempre foi meu maior exemplo de carpe diem.
Oito anos se passaram muito rápido, vô. E posso jurar que senti sua falta em cada dia deles. Quantas vezes quis pegar o telefone e ligar pro número que ainda sei de cor, só para te contar como estou, o que tenho feito, só pra dizer, vô, olha, eu tô com 30 anos, é a vecchiaia! E você sabe que fiz isso uma vez. E me disseram que o número não existia e eu chorei, meu Deus, como eu chorei. Foi como se tentassem apagar um pedaço de mim.
Tanta falta cabe ainda dentro de mim, e ainda espero o tal do tempo que dizem curar tudo. Porque não cura. Não cura o meu egoísmo humano de ter desejado que você fosse imortal, que vivesse para sempre. Não cura essas lágrimas que escorrem dos meus olhos sempre que penso em você com um pouco mais de profundidade. Perder dois pais foi difícil demais pra mim, vô.
Às vezes me lembro de coisas tolas, da gente junto. Me lembro de você, quase sem enxergar, indo ao meu trabalho me visitar no meio da tarde. Você me deixava com o coração na mão e eu tinha que te observar da porta da rua até que virasse a esquina, rezando para que nenhum carro te machucasse no caminho. E quando eu me oferecia pra caminhar com você de volta, você ficava bravo, ninguém era capaz de ousar sua liberdade.
E então comecei a usar meu horário de almoço para ir à feira com você, te ajudar a escolher as frutas e as notas de dinheiro certas, sem que ninguém abusasse da sua condição. Te levava para casa e almoçava com você e a vovó, meu Deus, como tenho saudades disso.
Nunca vou me esquecer de um dia em que caminhava de volta da feira com você, e meus olhos escorriam. Você não percebeu, pois mal conseguia enxergar, mas, naquele instante, eu pensava no quanto sentiria falta de momentos como aquele. E me lembro de pensar que um dia voltaria mentalmente àquele momento tão mágico, e quis eternizá-lo em mim, e consegui, vô.
Cada pedaço da minha vida dividida com você foi um pouco de magia. Das tardes deitada no seu colo, escutando as histórias da sua infância. Das noites em que dividíamos o quarto do tio Zé, você na cama perto da janela, pra me proteger dos monstros voadores. Dos filmes de bang-bang na tv, que eu mal entendia, mas adorava assistir em preto e branco. Do jeito que pensava em mim sempre que comprava ou ganhava qualquer coisa. Da simplicidade de momentos divididos pescando ou debaixo de pés de pitanga e abacateiros.
Queria por mais uma vez sentir seus dedos calejados entrelaçado aos meus, do jeito que me dava a mão e não dizíamos nada. Queria por mais uma vez ver seu sorriso, sentir essa alegria mais pura que já conheci na minha vida. Ainda te vejo em mim e te verei eternamente e, quem sabe um dia, ainda nos encontraremos de novo e você me contará mais algumas histórias sobre a fazenda de café onde viveu. Quem sabe um dia conseguirei ouvir dentro de mim a sua voz de novo. Esquecer lentamente a sua voz, isso é o que mais me dói.
Feliz aniversário, vô.
Fé, crenças e afins
Li esses dias que o mundo está todo errado, as pessoas ficam tristes no Natal e felizes na Páscoa, o que vai totalmente contra o significado dos dois feriados. Não sei você, mas eu não sei se tenho religião alguma ainda. Acredito em algumas coisas, sim, nas minhas coisas. Nas minhas crenças, no que é Deus pra mim, no que rege esse universo inteiro. E hoje em dia isso é tão diferente da minha educação católica ortodoxa romana, das minhas aulas de catecismo, da primeira comunhão, das missas de domingo. Sei lá, acho que esse tipo de crença muda conforme evoluimos.
Ainda tenho fé sim, mas não sei muito bem mais em que. Desde que vim morar nesse canto do mundo, fui sentindo apagar umas coisas dentro de mim. Como se para enfrentar o mundo fosse preciso ser forte, e para ser forte fosse preciso se livrar do que pesa demais.
Dia desses minha prima me ligou e me confessou que me achou extremamente diferente quando nos encontramos na Suiça. “Fria, seca, racional… você nunca foi a racional, você sempre foi a coração”. Pois é. Minha irmã também diz que eu aprendi a sofrer sozinha, quieta, esconder minhas dores e não dividir com ninguém.
Passei a compreender que tudo isso se deve a este país. Vou te contar uma coisa, a Inglaterra te seca por dentro. E se não secou ainda, levante as mãos para o céu, talvez você conheça um segredo que eu não conheço.
Quando chego ao Brasil percebo o quanto minha energia é baixa aqui. E, de repente, com um pouco de brasilidade, minha alma volta a brilhar de novo. Brinco dizendo que quando vou ao Brasil, vou pra resgatar minha essência. E não há verdade mais absoluta do que essa.
Este país é uma país jogado ao mundo. Não há religião, não existem crenças. As igrejas parecem cultos sem sentido (as por onde passo estão sempre fechadas). Fiquei me lembrando da senhorinha que ficava na esquina da Avenida Brasil gritando “vá com Deus” pra cada carro que passasse. Nunca vi alguém mencionar Deus aqui. Religião? “Cristã”. Mas não sabem nada sobre Jesus.
A terra, tão fértil geograficamente, tão pobre e seca espiritualmente. Como uma grande ilha de zumbis.
Sinto falta da riqueza espiritual do nosso país, da diversidade de crenças, da fé. E entenda que para ter fé não é preciso ter religião.
Nesse momento coloco um samba no dvd. Faço isso toda vez que preciso de um pouco dessa minha essência perdida. Jorge Aragão canta “Deus manda, Deus manda, na hora em que mais se precisa”. Sim, Deus manda uma “Ave Maria” no cavaquinho que me enche os olhos de lágrima e me faz o coração entender que se existe um país que tem alma, esse país é o Brasil.
Chega logo. Chega logo.
Outbox
Porque tudo que eu mais queria é que você ainda quisesse. Naquela mesma intensidade de quando voltou.
Queria que ainda entupisse minha vida com aquele turbilhão de palavras que davam choque por dentro, que me faziam sentir viva. Queria enrubescer, sentir a boca molhar, o ar faltar. Queria sorrir por dentro e não conter o leve sorriso por fora quando os seus olhos cruzavam com os meus.
Queria sentir que você ainda quer. Na mesma intensidade que eu quero.
Ou queria. Já não sei mais.
Você teve o fogo na mão e não soube mantê-lo. Ou talvez apenas não quis que queimasse mais.
Só que nesse acende-apaga, menino, um dia a gente acaba perdendo o pavio.Só queria sentir de novo.
Ponto final.
Então engoliu seco o que sobrava do vinho tinto e apertou o backspace sem piedade. Comeu letra por letra de tudo o que jamais falou. E, mais uma vez, guardou o sentimento por dentro. Quando ele voltou, fingiu que estava tudo bem.
