Fé, crenças e afins

Li esses dias que o mundo está todo errado, as pessoas ficam tristes no Natal e felizes na Páscoa, o que vai totalmente contra o significado dos dois feriados. Não sei você, mas eu não sei se tenho religião alguma ainda. Acredito em algumas coisas, sim, nas minhas coisas. Nas minhas crenças, no que é Deus pra mim, no que rege esse universo inteiro. E hoje em dia isso é tão diferente da minha educação católica ortodoxa romana, das minhas aulas de catecismo, da primeira comunhão, das missas de domingo. Sei lá, acho que esse tipo de crença muda conforme evoluimos.
Ainda tenho fé sim, mas não sei muito bem mais em que. Desde que vim morar nesse canto do mundo, fui sentindo apagar umas coisas dentro de mim. Como se para enfrentar o mundo fosse preciso ser forte, e para ser forte fosse preciso se livrar do que pesa demais.
Dia desses minha prima me ligou e me confessou que me achou extremamente diferente quando nos encontramos na Suiça. “Fria, seca, racional… você nunca foi a racional, você sempre foi a coração”. Pois é. Minha irmã também diz que eu aprendi a sofrer sozinha, quieta, esconder minhas dores e não dividir com ninguém.
Passei a compreender que tudo isso se deve a este país. Vou te contar uma coisa, a Inglaterra te seca por dentro. E se não secou ainda, levante as mãos para o céu, talvez você conheça um segredo que eu não conheço.
Quando chego ao Brasil percebo o quanto minha energia é baixa aqui. E, de repente, com um pouco de brasilidade, minha alma volta a brilhar de novo. Brinco dizendo que quando vou ao Brasil, vou pra resgatar minha essência. E não há verdade mais absoluta do que essa.
Este país é uma país jogado ao mundo. Não há religião, não existem crenças. As igrejas parecem cultos sem sentido (as por onde passo estão sempre fechadas). Fiquei me lembrando da senhorinha que ficava na esquina da Avenida Brasil gritando “vá com Deus” pra cada carro que passasse. Nunca vi alguém mencionar Deus aqui. Religião? “Cristã”. Mas não sabem nada sobre Jesus.
A terra, tão fértil geograficamente, tão pobre e seca espiritualmente. Como uma grande ilha de zumbis.
Sinto falta da riqueza espiritual do nosso país, da diversidade de crenças, da fé. E entenda que para ter fé não é preciso ter religião.
Nesse momento coloco um samba no dvd. Faço isso toda vez que preciso de um pouco dessa minha essência perdida. Jorge Aragão canta “Deus manda, Deus manda, na hora em que mais se precisa”. Sim, Deus manda uma “Ave Maria” no cavaquinho que me enche os olhos de lágrima e me faz o coração entender que se existe um país que tem alma, esse país é o Brasil.
Chega logo. Chega logo.

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7 comentários sobre “Fé, crenças e afins

  1. Melissa disse:

    Acho que mudar a maneira como agimos e vemos o mundo, faz parte do processo de adaptação e sobrevivência em um lugar tão diferente da nossa “casa”, mas isso não quer dizer que vc seja uma pessoa na Inglaterra e outra no Brasil.Vc é a mesma, mas de repente pelo ambiente ser diferente, vc também assume uma atitude diferente, o que não quer dizer que vc tenha múltiplas personalidades. rsrs
    Acredito que para a família que não está por perto para entender e ver todo esse processo de adaptação a vida em outro país, pode parecer que vc tenha ficado mais durona, menos sensível, mas acho que isso é quase uma auto-defesa e não quer dizer que a Inglaterra te faz mal e o Brasil bem, apenas sua postura muda de acordo com o ambiente em que vc está, mas isso, pelo menos para mim, é completamente normal a todos nós que deixamos nosso país de origem e vamos começar uma nova vida em um lugar tão diferente. Não cobre tanto de si mesma e não procure culpados. Ambos países tem coisas boas e ruins, o que muda, é a nossa maneira de encará-los.
    Fique bem e seja feliz!
    Um abraço,
    Melissa

  2. luma disse:

    Duas pesssoas de uma mesma religião, não a sentem igual e possuem pensamentos diferentes. Religião é muito íntimo, por isso todas as crenças devem ser respeitadas. Aqui no Brasil, a melancolia bate mais forte entre os idosos que já perderam a maior parte de sua família. Natal é relembrar outros natais, os dias em que fomos mais felizes, que tínhamos o aconchego familiar. Eu, por exemplo, perdi a minha mãe este ano. O natal não foi o mesmo de outros anos. Acredito que a cada perda, o natal fica mais triste, justo por ser uma festa familiar!! Feliz ano novo!! Beijus,

  3. Ana Maria Aguia disse:

    Mi, sabe… a Melissa tem toda a razão… Eu que também já morei fora do País…. muitas vezes me senti assim….. tavez não com essa intensidade… mas, na realidade a gente não é que muda ou se seca por dentro… são momentos diferentes de vida.. . e temos que ter a força e te digo muiiitaa força para vencermos essa sensação.. de vazio, abandono… mas seja corajosa e você o é…. tente renova-se todos os dia para poder aguentar esse momento que vai ser passajeiro.. Confia em Deus sim….. e receba todos os dias o que ele te oferece, com alegria, esperança… e não esqueça jamais… as escolhas são nossas… O Livre Arbitrio…
    beijinhos pra você Ana

  4. @rics_lombardi disse:

    Somos parte daquilo e de quem está a nossa volta.

    É inevitável.

    Você não é fria como os ingleses, você está fria como os ingleses. Aí a capacidade de adaptar-se ao ambiente, ainda que esta adaptação a incomode.

    Mas talvez você não tenha notado ainda o quanto pode tirar proveito disso. Um tempinho aí, um tempinho aqui…É uma experiência sensorial que só você pode experimentar.

    Enjoy it!

  5. Vivi disse:

    Miloca realmente o Brasil é um país de muito “axé”. Acho que tá nas pessoas, na nossa essência cultural. Pode ser católico, umbadista, kardecista, budista etc, mas a gente sempre se apega alguma coisa. Creio numa essência maior e com ela eu posso contar. A Fé é um norte em nossas vidas. Vc não precisa ter religião, mas acho legal vc crê em algo.

    Bjokas e Feliz 2011!

  6. Taty disse:

    Mi querida…

    Um dos textos mais sinceros que já li sobre datas comemorativas e religiões…

    É bem assim mesmo, a hipocrisia se alastra pelo nosso mundo de forma interminável!

    Que bom que, em meio a tudo isso, conseguimos ter certa lucidez para refletir de vez em quando, reavaliando quem somos de verdade…

    E que você possa logo matar a saudade desse Brasil tão querido que mora no seu coração!

    Beijos, feliz 2011!

  7. Brunno Lopez disse:

    Essa nossa nação que vive o estereótipo de ter o próprio Deus como representante da pátria vive mesmo sem essa devoção toda.
    Independente de datas comemorativas.
    As pessoas vivem acreditando em conquistas próprias. Não existe um crédito que seja imputado ao Criador.

    Essas interrogações são bastante oportunistas.
    A parte que descreve a sua personalidade eu consegui me identificar um pouco.
    As vezes deve ser vital olhar as coisas com menos encantamento e conseguir apenas mover a engrenagem da vida.

    Vou seguir, cheguei até esse seu espaço através do twitter.
    Costumam lhe citar um bocado.

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