Cinco de Janeiro

Cinco de Janeiro sempre foi uma data especial pra mim. Por tantos anos estive na praia nessa época, por tantos anos o Reveillon foi quase que extendido até o quinto dia do ano. Era festa. Era dia de sair, onde quer que estivessemos, para comprar bolo e velas. Era seu aniversário, vô.
E até hoje você continua sendo para mim a pessoa que mais celebrou tudo. O dia simples, a mediocridade, as datas especiais, o nascer do sol, o canto do sabiá, a vida. Você sempre foi meu maior exemplo de carpe diem.
Oito anos se passaram muito rápido, vô. E posso jurar que senti sua falta em cada dia deles. Quantas vezes quis pegar o telefone e ligar pro número que ainda sei de cor, só para te contar como estou, o que tenho feito, só pra dizer, vô, olha, eu tô com 30 anos, é a vecchiaia! E você sabe que fiz isso uma vez. E me disseram que o número não existia e eu chorei, meu Deus, como eu chorei. Foi como se tentassem apagar um pedaço de mim.
Tanta falta cabe ainda dentro de mim, e ainda espero o tal do tempo que dizem curar tudo. Porque não cura. Não cura o meu egoísmo humano de ter desejado que você fosse imortal, que vivesse para sempre. Não cura essas lágrimas que escorrem dos meus olhos sempre que penso em você com um pouco mais de profundidade. Perder dois pais foi difícil demais pra mim, vô.
Às vezes me lembro de coisas tolas, da gente junto. Me lembro de você, quase sem enxergar, indo ao meu trabalho me visitar no meio da tarde. Você me deixava com o coração na mão e eu tinha que te observar da porta da rua até que virasse a esquina, rezando para que nenhum carro te machucasse no caminho. E quando eu me oferecia pra caminhar com você de volta, você ficava bravo, ninguém era capaz de ousar sua liberdade.
E então comecei a usar meu horário de almoço para ir à feira com você, te ajudar a escolher as frutas e as notas de dinheiro certas, sem que ninguém abusasse da sua condição. Te levava para casa e almoçava com você e a vovó, meu Deus, como tenho saudades disso.
Nunca vou me esquecer de um dia em que caminhava de volta da feira com você, e meus olhos escorriam. Você não percebeu, pois mal conseguia enxergar, mas, naquele instante, eu pensava no quanto sentiria falta de momentos como aquele. E me lembro de pensar que um dia voltaria mentalmente àquele momento tão mágico, e quis eternizá-lo em mim, e consegui, vô.
Cada pedaço da minha vida dividida com você foi um pouco de magia. Das tardes deitada no seu colo, escutando as histórias da sua infância. Das noites em que dividíamos o quarto do tio Zé, você na cama perto da janela, pra me proteger dos monstros voadores. Dos filmes de bang-bang na tv, que eu mal entendia, mas adorava assistir em preto e branco. Do jeito que pensava em mim sempre que comprava ou ganhava qualquer coisa. Da simplicidade de momentos divididos pescando ou debaixo de pés de pitanga e abacateiros.
Queria por mais uma vez sentir seus dedos calejados entrelaçado aos meus, do jeito que me dava a mão e não dizíamos nada. Queria por mais uma vez ver seu sorriso, sentir essa alegria mais pura que já conheci na minha vida. Ainda te vejo em mim e te verei eternamente e, quem sabe um dia, ainda nos encontraremos de novo e você me contará mais algumas histórias sobre a fazenda de café onde viveu. Quem sabe um dia conseguirei ouvir dentro de mim a sua voz de novo. Esquecer lentamente a sua voz, isso é o que mais me dói.
Feliz aniversário, vô.

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12 comentários sobre “Cinco de Janeiro

  1. Drika disse:

    Estou aqui aos prantos!!! Perdi meu avô ha 7 anos, 3 semanas antes do meu casamento e ainda doi muito!!! Mtas saudades, ne???

  2. Taty disse:

    Mi,

    Sua sensibilidade sempre me encanta e admira!!! Eu já deveria esperar, mas a cada post seu, tenho uma nova surpresa!

    Linda e merecida homenagem… avós são grandes anjos em nossas vidas!!

    Beijos, querida!

  3. Franciele disse:

    Não há como ler esse texto e não se emocionar, é a transcrição da dor, da ausência, da saudade e de um laço eterno de amor alimentado agora pela lembrança. Me emocionei. Sei que não existem palavras capazes de amenizar essa saudade, na verdade nada cessa esse vazio, não há substituição pra alguém q amamos, ao menos esse é meu pensamento. A dor de perder alguém pra morte é inenarrável, o tempo parece ser inútil frente a ela como tu disse, o tempo não cura, não essa dor.
    Seria ótimo se algumas pessoas fossem eternas, no entanto essa eternidade só permanece nas lembranças q jamais findarão. Belo texto triste.
    Lamento pela sua perda e te desejo força.
    bjo

  4. Rachel disse:

    Mi,
    Eu como vc, lembro muito bem da minha vida com meus avós e sou muito feliz por ter tido eles ao meu lado.
    Por ter tido avós maravilhosos é que deixei a Inglaterra a 1 ano e 10 meses atrás, para dar a chance dos meus filhos sentirem o que é crescer tendo avós.
    Meu coração se enche de alegria quando vejo meus filhos e os avós juntos, brincando, rindo, se abraçando… Nestes momentos percebo que fiz a coisa mais acertada da vida.
    Beijos

  5. camila Relva disse:

    OI Milena,

    Descobri seu blog hoje !
    Suas palavras sobre seu avô são lindas! Me emocionei demais !

    Bom, acho que nos conhecemos…. estudei com a sua prima Carol, sou eu a Camila.

    Parabéns pelo Blog!

    Beijo

    Camila

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