Amor morno é placebo

Amor é loucura para os lúcidos, zona de conforto para os loucos. Pois não sei sair do amor, posto que é dentro dele que eu moro. Porque amor que é amor há de ser louco, intenso, imediatista; amor morno é placebo. Não aprendi a assoprar para esfriar, não sei comer pelas beiradas, traga-me o amor fervendo em febre convulsiva, quero queimar a língua e beber-te com quinze por cento de teor alcoólico. Delira-me. Devora tudo que há está parado dentro de mim há mais de dois minutos, me prende, me revira o estômago e quebra minhas regras, minhas pernas. Ensina esse coração tolo a entender a sua língua pelo meu corpo, me tira o sono, provoca-me devaneios alheios à tudo aquilo que acreditei um dia. Entrega-me o que te há de mais bonito por dentro, que sou louca, mas o amor que guardo no peito é puro, é amor louco. Não me dê amor processado, requentados de um coração cicatrizado. Encanta minha vida com a sua presença longe, invade meus sonhos, minha boca, minhas coxas. Invade a minha vida e finca bandeira dentro de mim. Enlouquece. (Me). Pois que não sei viver em qualquer lugar são, se dentro do meu peito é o que de sagrado eu conheço. Pois que se me arranca da demência tola, me joga na clareza dos amores mornos, e não, lá é banal demais e eu não sei lidar. Me deixa nesse buraco sem fundo do seu amor insano, pois na loucura o cair é constante e cair não dói, o que dói é o solo. Não-duplo. Deixe-me assim em queda livre, febre ardendo, cabeça rodando, me deixa assim confortavelmente imune, pois aqui, só aqui dentro da loucura é que tem amor real, e eu nunca aprendi a viver em lugar são.

Sentido

Caminho pelas ruas do interior da Inglaterra, faz frio, muito frio, e ainda não amanheceu. Não são sete da manhã e os primeiros raios de sol surgem incrivelmente vermelhos em um horizonte plano, plano como uma ilha sem saída. Os acordes de Robby Krieger alucinam meus ouvidos e eu apenas observo meus pés entre folhas e orvalho congelados. Olha por onde andam esses meus pés.
E essas pessoas que cruzam meu caminho, terão elas corrido atrás do que realmente queriam na vida? Teriam elas segurado seus desejos nas pontas dos dedos e deixado escorrer? Rostos tristes de quem nega a vida, de quem não corre atrás, rostos tristes de quem desiste antes de tentar. Seriam elas do tipo de pessoas que brilham os olhos para o que querem, mas se mediocrizam atrás da culpa do não merecimento? Não posso, não devo, não olhe mais para isso, continue caminhando, é fácil demais para ser felicidade. Um dia te ensinaram que é preciso sofrer para merecer a felicidade e vou te dizer uma coisa: essa é a maior mentira que já te contaram. Ser feliz é fazer sentido da vida, ser feliz é sentir vida.
Talvez eu faça parte de uma pequena fatia da humanidade que não tem medo de arriscar, de virar a mesa e mudar o que incomoda. E a minha falta de medo é o que mais amedronta. Sou feita de coragem e um milhão de receios, sou exatamente igual a todo mundo. A diferença entre mim e você é que não sei parar. Não sei me acostumar, acomodar me anula. E eu não aprendi a olhar o que me brilha e não seguir, não aprendi a fugir de mim mesma. Muito pelo contrário, eu fujo cada vez mais para dentro.
Não sei que parte da vida você perdeu dizendo não, não sei o quanto de vida ainda perderá. Mas de que vale estar vivo se não puder fazer o que realmente importa? Qual é o sentido de tudo isso à sua volta, se você não tem coragem de correr atrás do que quer?
Mude.
Corra riscos. Ninguém chega a lugar nenhum sem arriscar. O máximo que pode te acontecer é viver.

 

Corre, que os dias escorrem líquidos pelos dedos. A vida não espera, nenhum nascer do sol é igual a outro. A mediocridade pode até ser parte presente, mas não deveria nunca ser o sentido da sua existência.

 

If you do it, it will be something. If you don´t do it, it will never be anything.

“I really enjoyed our conversation”

Noite gelada de dois graus negativos, eu caminhei até o ponto de ônibus depois de um café com um amigo na Starbucks. O painel dizia que o ônibus só chegaria em uma hora, tempo que me pareceu extremamente longo debaixo de uma temperatura dessas. Hesitei esperar, me sentei e procurei dinheiro na minha carteira que fosse suficiente pra um táxi. Estava tendo um dia de merda, dane-se pagar um táxi pra casa, eu trabalho e o frio não compensa.
Nem me dei conta de que havia outra pessoa sentada no ponto de ônibus também, coisas da vida, às vezes estamos cegos demais para olhar a um palmo. Só percebi que alguém estava ao meu lado quando ouvi:
– Você foi esperta com o frio, colocou botas longas. Muito bonitas, as suas botas.
Eu então me virei para o lado e lá estava um senhor negro, vestindo um sobretudo e sapatos sem meia. Não aparentava ter muito dinheiro, mas também não era mendigo, era apenas alguém esperando um ônibus como eu. Agradeci o elogio e falamos um pouco do frio, como todo começo de conversa na Inglaterra.
Quando me dei conta, eu já havia mudado dois bancos para o lado dele e estávamos falando de economia, guerras e história política. Algo nele me encantava, qualquer assunto que eu trazia ele dominava completamente. Falava como um professor. Foi então que me contou que veio da Somália para a Inglaterra há 32 anos para fazer MBA em Agricultura na Universidade de Reading. Viveu dois anos na Suécia e voltou para Reading para um PhD, hoje em dia ele é Professor independente, ou particular, como chamam no Brasil.
A cada desfecho de conversa meu sorriso se transformava, ele me emanou uma paz que eu não sentia há muito tempo. Uma conversa que eu não tinha há muito tempo. O frio já não era tão presente, eu perdi meu gorro no meio do caminho e só o percebi na calçada do outro lado da rua meia hora depois. O táxi não fazia mais sentido. Aquela conversa, aquele senhor africano, aquele momento, aquilo tudo era vida para mim.
Esperamos o ônibus por uma hora e, como nada parece acaso, ele esperava exatamente o mesmo ônibus que eu.
Entramos juntos e nos sentamos lado a lado, a conversa tinha que continuar. Eu podia me ver ali, conversando sorrindo com alguém, como há muito tempo não fazia. Eu senti meus olhos brilharem.
O ponto dele era pouco antes do meu. Antes de descer do ônibus me disse:
– Muito prazer, Milena. “I really enjoyed our conversation”. Te desejo uma boa vida, porque você é uma boa menina.
Eu agradeci, desejei-lhe uma boa vida também e foi somente quando ele se levantou que percebi que era deficiente físico. Não tinha o braço direito e andava torto. Desceu do ônibus e me acenou da calçada até continuarmos a jornada.
Eu não consegui esconder o leve sorriso no rosto, a sensação de ter conhecido uma pessoa especial, o orgulho que tenho de mim  mesma quando não faço o que a maioria das pessoas faz: cortar conversas com estranhos. Me senti abençoada pela vida por ter tido a oportunidade de dividir uma hora de frio com um ser humano tão único. Por ter aceitado um elogio às minhas botas, por ter escolhido ficar, ao invés de procurar um táxi.
Foi então que percebi como aquele acaso não parecia acaso. A frase “eu realmente gostei da nossa conversa” me causou um frio no estômago na hora. Essa frase é uma das principais de um filme que eu adoro, “O Último Samurai”. Assisti ao filme essa semana novamente e ela sempre fica presa em mim, pois vem do diálogo entre um líder samurai Japonês e seu prisioneiro, o capitão do exército Americano. O samurai diz querer ter ” conversas” para conhecer melhor seu inimigo, mas no contexto e decorrer do filme você percebe que seu único interesse e fascínio é o ser humano. E quando o senhor africano me disse a mesma frase, com exatamente a mesma estrutura, senti um arrepio na espinha. Como se a vida estivesse me dando de presente um pouco de entendimento, de abrangência, um pouco daquilo que é uma das minhas maiores paixões e eu talvez tenha perdido na frieza da Europa: as pessoas.
Eu não sei se algum dia verei o Senhor Jamal de novo. Se querem mesmo minha opinião, não sei de certo se ele era real. Voltei quinze anos na minha vida, para as páginas de um livro que diziam sobre a sincronicidade e a aparição de “anjos” em determinados momentos nossos. O senhor africano era tudo o que eu precisava naquela hora. A nossa conversa me encheu de paz, sabedoria, felicidade, orgulho e humildade. O que ele me disse ontem, no fim de um dia tão complicado, foi imprescindível. Que eu tenha uma boa vida, porque sou uma boa menina. E se nunca mais nos virmos, Senhor Jamal, I have really enjoyed our conversation. O ser humano ainda é uma das minhas maiores paixões e fascínios.

Ele foi meu maior significado de vida

A vida, para ele, era algo muito simples, uma folha seca recolhida em algum lugar especial e guardada dentro de um livro. A vida, para ele, morava nos pequenos detalhes, nos menores gestos, nos maiores sorrisos. Ele sabia, melhor do que ninguém, a como colocar em prática a felicidade.
Não havia tempo ruim, não existiam dificuldades, por piores que fossem. O que mais lhe importava era o quanto poderia fazer sorrir assim que o sol nascesse. Alegria.
Alegria era pescar na praia, pingado de padaria, mandioca frita. Alegria era bloco de carnaval na rua e banda de palhaço. Alegria era contar piada o dia inteiro e rir de desenhos animados com a gente. Alegria era deitar no seu colo pra assistir filme de bang-bang antes de dormir. Ele fazia a melhor pizza do mundo, ele me ensinou que as rosas falavam. Ele me mostrou o quanto as rugas vão aumentando com o tempo, entre os dedos grossos que entrelaçavam as minhas mãos todos os dias nas poltronas lado a lado. Ele me ensinou que todo mundo é amigo, até que nos provem o contrário. Ele era a vida mais natural que eu já conheci, ele era a chácara da USP, as galinhas correndo no campo, ele era meu abacateiro e minha pitangueira. Ele era a visita certa de todo fim de tarde, a que trazia  mangas de presente, porque sempre soube que eu gostava de manga. Ele era os pequenos detalhes, o caldo da cana, o radinho de pilha. O meu colo no sofá de casa contando as minhas melhores histórias, meus contos de fada reais.
Era com ele que eu dividia o quarto quando dormia em sua casa, e ele era meu maior herói e me protegeria dos monstros que entrariam pela janela. Foram pra ele todos os meus presentes feitos na escola, todo o meu amor de filha.
Era ele quem me chamava de Mizinha e virava o mundo de cabeça pra baixo por mim. Era ele quem me visitava no trabalho à tarde, e ninguém reclamava disso, porque era lindo receber uma visita assim no trabalho. Era com ele que eu almoçava toda quinta-feira e todo domingo, era dele que eu cuidava quando começou a ficar doente.
Foi ele quem disse antes de partir para não chorar, porque a vida é assim mesmo. Não chora, Mi. Não chora agora.
Ele foi minha maior alegria, meu melhor amigo, meu maior significado de vida. Ele foi minha maior dor, minha maior perda.
E até hoje me lembro de pequenos momentos, flashbacks que cruzam minha mente quase todos os dias. como se a minha mente tentasse encaixá-lo na minha realidade ainda. E é pra ele que eu ainda olho todos os dias antes de dormir, no pequeno porta-retrato ao lado da minha coisa.
Vô, olha quanta vida eu tenho vivido do jeito que você me ensinou.  Olha quanta coisa aconteceu e você não estava comigo. Nove anos sem você e as lágrimas parecem que nunca vão cessar. A saudade boa, o tempo trouxe. A falta que você me faz nunca será curada.

Feliz 05 de Janeiro, vozão. Era dia de comprarmos bolo pra você na praia. Feliz 98 anos, onde quer que você esteja.

Te amo absurdamente.
Mizinha

 

E que o sol de Janeiro não te deixe esquecer

Que nem sempre o melhor é virar a página, às vezes é preciso trocar de livro.
Que para deixar de beber o café requentado, frio e amargo é necessário esvaziar a xícara.
Que existe um jardim inteiro cheio de possibilidades, mas é preciso que coloques o pé para fora.
Que nem sempre o que vinga ou não vinga é amor. Mas o que brota, este sim, é essência dele.

Brilha, coração. Brilha o sol do peito.

Tu és tulipa em meio às margaridas. O amor é todo você.

Anna, eu resolvi te deixar ir

Anna,

Eu resolvi te deixar ir. A mágoa já passou, as feridas estão cicatrizando levamente de fora pra dentro, porque dentro ainda me dóem. Não posso colocar toda a culpa de um amor impossível em você. Não posso esperar que seja tão emoção quanto eu, que tenha menos razão nesse jogo sem fim onde a razão é a única coisa que faz sentido. Você nunca quis me machucar e eu sei disso. E sei também do tanto que me amou, não precisa dizer com os lábios o que teus olhos me disseram um dia. Hoje eu consigo olhar para trás e ver o quanto você procurou o meu bem, e se um dia me fez algum mal, foi apenas por ter se envolvido mais do que podia.
Não dava mais para insistir, eu sei, Anna. Por maior que seja o amor, nem sempre é possível tocá-lo. Por isso estou aqui hoje, na beira norte do rio, curvando meu corpo sobre a ilhazinha onde a gente se escondeu por tantos dias. Revivendo de novo os cheiros e sons que me lembram o gosto da tua pele, o calor do teu beijo em mim. Me perguntando se um dia a vida cruzará nossos caminhos mais uma vez.
Fiz um barquinho de papel pra você, Anna. Ele é você. E quando eu te soltar por esse rio, quero que navegue tranquila. Embrulhei nele todo o amor que senti por você um dia – e ainda sinto – pra que de algum jeito, quando sentir que a vida te machuca um pouco, possa lembrar-te do quanto alguém te amou um dia. Não guardo mágoa nenhuma, menina. Só te quero bem e feliz. E também quero ficar bem e feliz. Você disse que tudo isso era melhor pra todo mundo e hoje eu entendo o quanto isso foi importante para mim. Cara, como eu te amei. Como eu pensei em você por cada dia desses três anos e meio, mesmo quando nos separamos daquela outra vez.
Eu sinto tanta falta tua. Sinto falta desse monte de coisa bonita que vinha com esse “nós” improvável. Do nosso amor, da nossa história, de você me dizendo que não queria parar. E hoje, olha pra gente, Anna. Você me pedindo para desistir e eu desistindo. Você me pedindo para esquecer tudo e eu esquecendo.

Vai barquinho. Leva contigo todo esse amor absurdo e impossível que tenho por ti. Segue teu rumo, encontra o que procura. Seja feliz, muito feliz, ainda que não seja eu o motivo da tua felicidade. Tente lembrar-se de mim de vez em quando e de todas as horas lindas que dividimos. Tenta me esquecer devagar. E aprenda a seguir teu coração nesse meio tempo de vida em que estivermos separados.
Se nos veremos novamente? Não sei, Anna. Não sei ao menos se nos falaremos mais alguma vez. Mas as portas estão abertas, você sabe e sempre soube. As portas estão sempre abertas pra você. Te cuida bem, tá? Quem sabe um dia a gente senta numa mesa de bar, sem medos e sem corações, e bebe um amor impossível.
Deixei de tentar entender, estou apenas entregando meu amor por você, um barquinho, ao mundo. Que a vida cuide das nossas estradas, do nosso futuro. Que você consiga se encontrar na tua estrada e eu na minha. Que nós dois sejamos apenas amor, sem ressentimentos. Sem drama. Sem mágoa.

Vai, barquinho, vai, segue tua correnteza. Eu sigo meu caminho de volta com todo um nó na garganta e a esperança de que o tempo cura todos os corações. E se um dia nossos caminhos se cruzarem de novo, a vida se encarregará de encaixar as peças. O que tiver que voltar, volta um dia, mas não nos preocupemos com isso agora. Vai, barquinho. Apenas vá. Eu vou também. Te cuida, Anna. Te amo imensamente.

 

 

Anna, eu resolvi parar

Anna,

Eu resolvi parar. Não consigo mais continuar assim, como se tudo estivesse bem, como se existisse algum tipo de amizade, como se eu não passasse por uma crise de abstinência dessa droga pesada que é o teu carinho. Ainda me dói uma dor estranha, leve mágoa de um amor rejeitado, um gosto amargo do teu beijo na minha boca. Arrancou de mim a agulha e agora eu não sei o que fazer sem doses intravenosas suas.
Meus dias são longos e eu vou vivendo. Levantando todo dia de manhã com você na cabeça e essa sua vidinha perfeita gritada aos sete mares. O gosto amargo na minha boca mais uma vez. Por você não ter tentado, não ter encarado, por ter desistido de um dia para o outro. Por você ter me trocado por uma versãozinha inacabada e fácil de mim. Ele é novo, eu sei, tem uma cabeça bacana e é interessantíssimo, como todo mundo no começo. Mas isso passa, e eu sei, menina, que um dia você vai me olhar de novo e pensar em tudo o que poderia ter sido e não foi. Foi. Uma escolha tua.  Decidida, seca, dura como um soco no meu estômago. Não quero mais. E ainda acho que a pior coisa do mundo é ouvir de alguém que você gosta um “seja feliz, segue a tua vida”. Um murro no peito, um aperto no coração. Porque eu sei melhor do que você que posso ser feliz a hora que eu quiser, mas eu quero ser feliz contigo perto.
Me pergunto se ainda pensa em mim de vez em quando, se ainda me deseja, se tudo isso não passa de uma mera tentativa de matar um amor que não pode ser. Será que já passei na sua vida? Será que três anos assim são varridos pra debaixo de um tapete no fundo da memória? Será que isso que me dói não dói mesmo em ti, nem um pouquinho? A sua vida perfeita. O meu mundo errado.
Você está me ensinando a olhar em volta. A amar o mundo sem você por perto. Eu já passei por isso uma vez, deveria ser fácil, mas não é. Porque eu me permiti te amar sem ter medo de entregar meu coração. E esse é o único arrependimento que eu tenho. Você não sabe o que fazer com o meu amor.
E o que eu queria te dizer nesta carta, mais uma vez não consegui.
Que estou andando, que estou esquecendo seu sorriso, o calor debaixo do edredom. Que estou  esquecendo como brilham os teus olhos e o o som da tua voz . Que estou esquecendo o quanto de amor eu ainda guardo por ti. É, eu tô tocando a vida. Um pouco mais humano, um pouco mais forte. Só não te esqueça que dores assim encouraçam um ser humano e talvez um dia seja tarde demais. Estou apenas seguindo uma escolha tua.

Matar um amor é a forma mais dolorosa de acabar com um.

 

“Anna,
You come and ask me, girl,
To set you free, girl,
You say he loves you more than me,
So I will set you free,
Go with him.”

 

O que eu quero em 2012

Não quero nenhuma resolução de ano novo desta vez. Chega de repetir itens de uma eterna e infinita lista que eu nunca cumpro. Chega de hipocrisia e de apologia à esse modo de pensar mesquinho, onde a gente só faz o que deveria fazer o ano inteiro, nos últimos dias dele. O que eu quero para este ano é me tornar mais humana.
Que em 2012 eu aprenda a lidar melhor com o apego. Não vou esperar que eu me desapegue de tudo como em um milagre budista, mas que eu aprenda a rever meu comportamento e saiba lidar melhor com o significado – principalmente das pessoas – pra mim. Que eu aprenda a não esperar nada dos outros. Mesmo. Que definitivamente eu deixe de lado essa minha mente adolescente corrompida por contos de fadas e entenda que ninguém pode dar além do que quer. Ou do que pode.
Que eu aprenda a aceitar as pessoas como elas são e nunca espere nada de volta. Que eu enxergue todas elas com suas mochilas cheias de vida, dores, corações quebrados, esperanças frustradas, e que entenda que nem sempre é possível ir além do que se deseja. Que eu entenda que pessoas não mudam, mas podem tentar. Que nem sempre o que foi, é e será. Que eu aprenda a viver menos de passado e consiga virar minhas páginas sem temer o branco. Que eu entenda que todo mundo sofre, todo mundo ama, e tudo é um constante aprendizado. Que eu aprenda principalmente a deixar de querer entender o por que de tudo, como uma criança mimada de cinco anos de idade. Pensar não resolve, só machuca.
Que eu entenda que a vida não tem sentido se não houver amor, e que amor não se cobra, não se pede de volta. E que se um dia alguém não me oferecer amor de volta, que eu me lembre da velha mochila. Cada um sabe o que traz no coração, às vezes as pessoas simplesmente não sabem o que fazer com o amor.
Que eu deixe de me importar com quem não se importa comigo, com quem não faz questão de ser parte presente na minha vida e saiba guardar os momentos bons no passado, trancados à chave, e não relute querendo trazê-los à vida no presente. Que eu aprenda a olhar tudo o que tenho comigo com olhos de gratidão. E que eu curta muito tudo o que eu tenho.
Que eu aprenda, acima de tudo, a viver o hoje, a curtir o agora, a guardar o ontem e não pensar no amanhã.

E que, ainda que me desapegue, deixe de entender, não me importe tanto, não espere nada, que eu nunca perca a minha essência. Que eu nunca deixe o sangue parar de correr quente no meu pulso. Que eu nunca perca a fé no ser humano e na vida, pois essa é a maior fé que eu tenho. Que eu nunca desista de amar mais e mais a cada dia, ainda que meu coração se quebre. Que eu nunca sufoque a minha intensidade para agradar aos outros. Que eu nunca seja desleal com os meus sentimentos, ainda que precise matar alguns. Que eu nunca deixe de transpirar a verdade por mim mesma, que eu nunca deixe de acreditar que a cada dia nasce uma oportunidade de sermos felizes, mas acima de tudo, uma oportunidade de sermos nós mesmos. Melhores e lapidados.