“I really enjoyed our conversation”

Noite gelada de dois graus negativos, eu caminhei até o ponto de ônibus depois de um café com um amigo na Starbucks. O painel dizia que o ônibus só chegaria em uma hora, tempo que me pareceu extremamente longo debaixo de uma temperatura dessas. Hesitei esperar, me sentei e procurei dinheiro na minha carteira que fosse suficiente pra um táxi. Estava tendo um dia de merda, dane-se pagar um táxi pra casa, eu trabalho e o frio não compensa.
Nem me dei conta de que havia outra pessoa sentada no ponto de ônibus também, coisas da vida, às vezes estamos cegos demais para olhar a um palmo. Só percebi que alguém estava ao meu lado quando ouvi:
– Você foi esperta com o frio, colocou botas longas. Muito bonitas, as suas botas.
Eu então me virei para o lado e lá estava um senhor negro, vestindo um sobretudo e sapatos sem meia. Não aparentava ter muito dinheiro, mas também não era mendigo, era apenas alguém esperando um ônibus como eu. Agradeci o elogio e falamos um pouco do frio, como todo começo de conversa na Inglaterra.
Quando me dei conta, eu já havia mudado dois bancos para o lado dele e estávamos falando de economia, guerras e história política. Algo nele me encantava, qualquer assunto que eu trazia ele dominava completamente. Falava como um professor. Foi então que me contou que veio da Somália para a Inglaterra há 32 anos para fazer MBA em Agricultura na Universidade de Reading. Viveu dois anos na Suécia e voltou para Reading para um PhD, hoje em dia ele é Professor independente, ou particular, como chamam no Brasil.
A cada desfecho de conversa meu sorriso se transformava, ele me emanou uma paz que eu não sentia há muito tempo. Uma conversa que eu não tinha há muito tempo. O frio já não era tão presente, eu perdi meu gorro no meio do caminho e só o percebi na calçada do outro lado da rua meia hora depois. O táxi não fazia mais sentido. Aquela conversa, aquele senhor africano, aquele momento, aquilo tudo era vida para mim.
Esperamos o ônibus por uma hora e, como nada parece acaso, ele esperava exatamente o mesmo ônibus que eu.
Entramos juntos e nos sentamos lado a lado, a conversa tinha que continuar. Eu podia me ver ali, conversando sorrindo com alguém, como há muito tempo não fazia. Eu senti meus olhos brilharem.
O ponto dele era pouco antes do meu. Antes de descer do ônibus me disse:
– Muito prazer, Milena. “I really enjoyed our conversation”. Te desejo uma boa vida, porque você é uma boa menina.
Eu agradeci, desejei-lhe uma boa vida também e foi somente quando ele se levantou que percebi que era deficiente físico. Não tinha o braço direito e andava torto. Desceu do ônibus e me acenou da calçada até continuarmos a jornada.
Eu não consegui esconder o leve sorriso no rosto, a sensação de ter conhecido uma pessoa especial, o orgulho que tenho de mim  mesma quando não faço o que a maioria das pessoas faz: cortar conversas com estranhos. Me senti abençoada pela vida por ter tido a oportunidade de dividir uma hora de frio com um ser humano tão único. Por ter aceitado um elogio às minhas botas, por ter escolhido ficar, ao invés de procurar um táxi.
Foi então que percebi como aquele acaso não parecia acaso. A frase “eu realmente gostei da nossa conversa” me causou um frio no estômago na hora. Essa frase é uma das principais de um filme que eu adoro, “O Último Samurai”. Assisti ao filme essa semana novamente e ela sempre fica presa em mim, pois vem do diálogo entre um líder samurai Japonês e seu prisioneiro, o capitão do exército Americano. O samurai diz querer ter ” conversas” para conhecer melhor seu inimigo, mas no contexto e decorrer do filme você percebe que seu único interesse e fascínio é o ser humano. E quando o senhor africano me disse a mesma frase, com exatamente a mesma estrutura, senti um arrepio na espinha. Como se a vida estivesse me dando de presente um pouco de entendimento, de abrangência, um pouco daquilo que é uma das minhas maiores paixões e eu talvez tenha perdido na frieza da Europa: as pessoas.
Eu não sei se algum dia verei o Senhor Jamal de novo. Se querem mesmo minha opinião, não sei de certo se ele era real. Voltei quinze anos na minha vida, para as páginas de um livro que diziam sobre a sincronicidade e a aparição de “anjos” em determinados momentos nossos. O senhor africano era tudo o que eu precisava naquela hora. A nossa conversa me encheu de paz, sabedoria, felicidade, orgulho e humildade. O que ele me disse ontem, no fim de um dia tão complicado, foi imprescindível. Que eu tenha uma boa vida, porque sou uma boa menina. E se nunca mais nos virmos, Senhor Jamal, I have really enjoyed our conversation. O ser humano ainda é uma das minhas maiores paixões e fascínios.

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