Ele foi meu maior significado de vida

A vida, para ele, era algo muito simples, uma folha seca recolhida em algum lugar especial e guardada dentro de um livro. A vida, para ele, morava nos pequenos detalhes, nos menores gestos, nos maiores sorrisos. Ele sabia, melhor do que ninguém, a como colocar em prática a felicidade.
Não havia tempo ruim, não existiam dificuldades, por piores que fossem. O que mais lhe importava era o quanto poderia fazer sorrir assim que o sol nascesse. Alegria.
Alegria era pescar na praia, pingado de padaria, mandioca frita. Alegria era bloco de carnaval na rua e banda de palhaço. Alegria era contar piada o dia inteiro e rir de desenhos animados com a gente. Alegria era deitar no seu colo pra assistir filme de bang-bang antes de dormir. Ele fazia a melhor pizza do mundo, ele me ensinou que as rosas falavam. Ele me mostrou o quanto as rugas vão aumentando com o tempo, entre os dedos grossos que entrelaçavam as minhas mãos todos os dias nas poltronas lado a lado. Ele me ensinou que todo mundo é amigo, até que nos provem o contrário. Ele era a vida mais natural que eu já conheci, ele era a chácara da USP, as galinhas correndo no campo, ele era meu abacateiro e minha pitangueira. Ele era a visita certa de todo fim de tarde, a que trazia  mangas de presente, porque sempre soube que eu gostava de manga. Ele era os pequenos detalhes, o caldo da cana, o radinho de pilha. O meu colo no sofá de casa contando as minhas melhores histórias, meus contos de fada reais.
Era com ele que eu dividia o quarto quando dormia em sua casa, e ele era meu maior herói e me protegeria dos monstros que entrariam pela janela. Foram pra ele todos os meus presentes feitos na escola, todo o meu amor de filha.
Era ele quem me chamava de Mizinha e virava o mundo de cabeça pra baixo por mim. Era ele quem me visitava no trabalho à tarde, e ninguém reclamava disso, porque era lindo receber uma visita assim no trabalho. Era com ele que eu almoçava toda quinta-feira e todo domingo, era dele que eu cuidava quando começou a ficar doente.
Foi ele quem disse antes de partir para não chorar, porque a vida é assim mesmo. Não chora, Mi. Não chora agora.
Ele foi minha maior alegria, meu melhor amigo, meu maior significado de vida. Ele foi minha maior dor, minha maior perda.
E até hoje me lembro de pequenos momentos, flashbacks que cruzam minha mente quase todos os dias. como se a minha mente tentasse encaixá-lo na minha realidade ainda. E é pra ele que eu ainda olho todos os dias antes de dormir, no pequeno porta-retrato ao lado da minha coisa.
Vô, olha quanta vida eu tenho vivido do jeito que você me ensinou.  Olha quanta coisa aconteceu e você não estava comigo. Nove anos sem você e as lágrimas parecem que nunca vão cessar. A saudade boa, o tempo trouxe. A falta que você me faz nunca será curada.

Feliz 05 de Janeiro, vozão. Era dia de comprarmos bolo pra você na praia. Feliz 98 anos, onde quer que você esteja.

Te amo absurdamente.
Mizinha

 

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2 comentários sobre “Ele foi meu maior significado de vida

  1. FerAmante disse:

    Mi, vc coloca por escrito sentimentos que eu nunca consegui colocar. Vc, muitas vezes, traduz meu coração. Que bom que vc teve seu Vô. E que eu e a Cris tivemos o Vô Jonas e a Vó Nilde. Somos seres humanos mais completos por causa deles. Bojo com saudades!

  2. Alan disse:

    Milena, essa foi uma das melhores descrições do que eu considero o Santo Graal. Do que eu persigo na minha vida: esse foco constante, mas intuitivo e natural, do que realmente importa, do que realmente deixa a vida plena. O seu avô parece ter encontrado isso.

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