Alguma coisa muda em mim em dias de chuva cinza: o coração pensa.
O frio acalenta a dúvida e enche a saudade de certeza. Saudade boa é a que vem com as escolhas certas.
Varre as folhas mortas do outono, o ciclo está fechado. Amadurece, olha-te por dentro e veja quem você é agora e o tamanho do orgulho que tenho por ser quem é. Passado é constância morta. O futuro, menina, está a um passo do seu instante. Caminha pra frente, a vida te desprende. E o desprendimento trará apenas o que te brilha os olhos e sorri teu coração. Você já escolheu teu caminho e ele tem paz por dentro, olha, lembra. “Que você tenha uma vida boa, pois é uma boa menina”. Seja feliz, incrivelmente feliz.
O ritual: amor egóico
Algumas coisas não fazem sentido e por mais que você tente, nunca o farão. Não tente entender. Se não importa aos envolvidos, deveria ter menos importância ainda para você.
Hoje ele apagou todos os emails, inclusive o que guardava o número de telefone da casa dela. Rasgou as cartas, os bilhetes, as fotos e os sorrisos. Já havia se martirizado demais com resquícios de um semi-amor.
Ela não tem mais a menor consideração por ele; não responde seus telefonemas. O carinho, o amor, nunca saberá ao certo o quanto foram reais ou ilusórios, mas nessa etapa tudo parece ter sido apenas ilusão. Como pode se convencer do inexistente? Como pode entregar seu coração da forma mais barata?
O ritual precisava ser feito há seis meses, mas o dia só chegou hoje. É hora de apagá-la da sua história. Ainda que para você tenha sido especial de alguma forma, ainda que queira levar as boas lembranças, não vale a pena guardar o que outras pessoas teimam em esquecer. Então esquece também. Apaga, finge que nunca existiu.
Ele tinha muito medo de se arrepender de ter cruzado seu caminho um dia. Ela não fazia questão de não ser apenas uma imagem de mágoa e arrependimento, muito pelo contrário – agia de tal forma que algumas pessoas juravam que essa era a intenção. Loucos os que fazem questão de ser um arrependimento na história de alguém. Loucos.O dia amanhecia laranja. Uma única estrela teimava em brilhar na claridade do horizonte. Toca tua vida. Esquece. Apaga. Deleta. Os caminhos estão cheios de pessoas boas e ruins, não foi teu primeiro amor e muito menos será o último.
Talvez ela sofra. Talvez não esteja nem aí pra você. Perguntas que nunca saberá responder, então enterra, desiste de qualquer aproximação, cumpre o ritual. Chega de tentar manter por perto quem não te quer bem.
Um dia você entenderá que relacionamentos não baseados em amor são puramente egóicos. E, a menos que você desista completamente do ego viciado que te liga à esse tipo de amor, você doerá um vazio enorme.Amor e ego são contradições, aprenda isso. Nunca foi amor. Nunca.
FanPage do Samba
Finalmente resolvi aprimorar a fanpage do Samba no Facebook. Como meu perfil é pessoal e eu acabo mesmo não adicionando quem eu não conheço, eu tirei o compartilhamento do blog nele e agora só será dividido com quem curtir a página ou vier aqui! Curtam e acompanhem cada pedacinho de inspiração que vier!
Diário de Olivier em Londres
Pois é, ontem o que eu esperava quase esquecendo aconteceu.
Pra quem não sabe, fui convidada pela GNT para gravar o episódio Diário de Olivier em Londres, com o chef Olivier Anquier. A experiência foi ótima, passei um dia delicioso com a equipe e ontem o programa foi exibido. Eu ainda não assisti, fiquei sabendo pela repercussão.
Queria agradecer aos inúmeros recadinhos fofos que recebi aqui de gente que me viu no programa e se identificou de alguma forma, que fez questão de chegar aqui no Samba, ler quase todos os meus textos e deixar comentários. Foi uma delícia abrir o Samba e ver tanta gente curtindo meus filhotinhos!
Aos que querem manter contato, voltem sempre ou me sigam no twitter: @micastino
Muito obrigada por cada palavra de carinho, cada pedacinho de energia boa jogada aqui no Samba, de verdade! 🙂
PS: O Samba nunca foi um blog de culinária, o Olivier acabou explicando errado. A GNT me achou através de posts que já fiz no passado contando sobre as comidas estranhas. Eu sou escritora e aqui não tem receita nenhuma, desculpa o mal entendido, gente! 🙂
Incoerência: desabafo de uma quarta à noite
Descobri que as pessoas são completamente incoerentes. De uma incoerência falsa, superficial. Nada tem a ver com uma pequena loucura, há sanidade em todos os poros. A incoerência é apenas falsidade.
Não aguento mais superficialidade, pessoas rasas com invejável marketing pessoal. Não tenho mais saco para gente que tenta fugir de estereótipos, criando outros ainda piores. Não suporto mais cascas interessantes que escondem personalidades podres, espíritos mesquinhos sem consideração alguma. Não respeito quem brinque com sentimentos, sejam eles quais forem. Não aguento mais me apaixonar por seres humanos decepcionantes. Onde foram parar os elos das amizades de adolescência? Como se fazia isso?
Não peço muito, peço gente como eu. Que aja de acordo com o que pensa e sente, que não tenha medo de ser julgado por ser quem é. Que preze e considere os outros com suas cargas emocionais, suas dores e seus corações. Que não pisem em corações. Peço gente que saiba entender o sensível, que consiga ler as entrelinhas de um olhar. Gente que se emocione mais com o ser humano do que com um jogo de futebol.
Peço o gesto, muito mais que as palavras. E das palavras, peço somente as honestas. Peço a sinceridade, comigo e consigo. Sejam sinceros com vocês mesmos, com o que sentem e pensam. Peço apenas o verdadeiro, a aceitação, o discernimento. Apenas diga ou faça algo para alguém, se o fizer com todo o seu coração.O que as pessoas não percebem é que quanto mais incoerentes são, mais fracas e mal resolvidas se mostram. A coerência nada mais é do que a lapidação da personalidade; é quando mente, alma e coração querem as mesmas coisas.
Lealdade e genuinidade têm sido nobrezas raras de se encontrar no ser humano.
Tragam-me os pertencentes ao mundo
Ando com preguiça de amizades reais e virtuais que não agregam nada. Ando com tolerância zero para pessoas superficiais, desinteressantes, sonsas, falsas e dissimuladas. Sentimentos que mudam do dia pra noite, corações que pulsam ontem e adormecem hoje.
Não quero mais perder meu tempo com pessoas que consomem minha energia, que seguram minha evolução. Só quero ao meu lado as pessoas que me amam de verdade e que estarão comigo para o que der e vier. Sem falsas expectativas, sem espíritos complicados. Só quero o que flui, gente líquida, do bem. Gente que sabe se pronunciar e não tem medo de dizer o que sente; odeio pessoas emperradas.
Quero os livres de pensamento – mas os livres mesmo, não os que estão presos na ideia de liberdade. Sem nós na garganta e no coração, sem problemas remoídos, sem cicatrizes abertas.
Tragam-me os pertencentes ao mundo, quero os amantes do planeta e dos bichos. Quero tudo o que não for estereótipo e vier sem rótulo. Quero gente livre, sem máscara e sem medo. E que, principalmente, tenha bom gosto musical.
Ana, o menino e o amor amargo
A porta era de madeira de demolição, robusta, enorme, como se lhe dissesse para não bater, não tentar, não entrar. Observou por alguns segundos a arquitetura do lugar onde ela habitava e chegou a ter ciúmes de paredes que pudessem lhe envolver, janelas cúmplices de uma vida que não conseguia mais escavar.
Bateu três vezes. Arrancou o coração da garganta e o guardou no bolso: era hora de não sentir nada. Aqueles medíocres segundos de tempo foram os mais longos do ano inteiro. Será que ela estava em casa? Será que abriria a porta para ele? Será que lhe trataria com frieza?
Ele veio de muito longe para tentar a última vez naquela porta trancada. Ela era uma espécie de fantasia louca, um amor impossível. Ela era tudo o que ele sempre quis com todas as doses de proibições e defeitos. E o mais importante daquele momento era que sabia que ela o amava; ou que o tinha amado. E muito.
A porta se abriu sem qualquer sussurro. Do outro lado, um homem feito. Barbas mais longas que as dele, jeito de quem está bem resolvido com a vida. Não era um menino como ele, era um homem. Perguntou o que queria, ele perguntou se a Ana estava. Ana desceu as escadas correndo, enrolada em um roupão branco, cabelos molhados.
Nenhuma palavra foi trocada em minutos, que pareceram horas para os três. Os olhos de Ana penetravam a alma do menino e era tão nítido perceber o quanto ela havia sofrido. Ela sofria com os olhos: um misto de medo, êxtase, dor e paixão. Metade de seu corpo se inclinava em sua direção, metade lhe continha os pés no chão. Não podia, não podia. Não era mais a hora. Sua chance havia morrido no dia em que ele resolveu ir embora.
Todas as palavras foram ditas pelo silêncio, e o silêncio gritou dentro daquela casa. Ele virou as costas e foi embora mais uma vez. Não sabia se o certo seria lutar pelo amor da sua vida ou deixá-la ser feliz com outra pessoa. Não sabia sequer se dariam certo juntos um dia, pois ao menos haviam tentado.
Ana escorreu uma lágrima do olho esquerdo. Sabia que seria a última vez. Sabia que não teria como explicar para aquele homem ao seu lado o que acontecera nesse breve espaço de tempo e, ainda que o fizesse, ele não entenderia a dimensão de uma vida inteira ali.
O menino olhou apenas uma vez para trás, talvez para se assegurar de que Ana não viria. O amor que existia ali não havia morrido e não morreria nunca. O amor ali amargaria. Era de sabor amargo, desses que se mastigam a vida inteira e não se engolem. Desses que não se esquecem. O que os dois jamais entenderiam é que a decisão de não amar é infinitamente mais forte que o amor em si. A renúncia é permanente. Não importa quantos corações ainda cruzem seus caminhos.
O menino pegou o coração de volta do bolso e jogou-o na terra quente. Ali, talvez, endurecesse para sempre.
Talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever
Todo escritor é um exímio leitor, mas o contrário nem sempre é verdade.
Uma vez, em entrevista, me perguntaram por que eu escrevo. Acho que foi a pergunta mais difícil de responder em toda a minha vida. Senti-me quase perdida dentro de um eu que não saberia definir nunca, seria como perguntar por que tenho meu nome, por que tenho meu tom de pele. Seria como perguntar a um monge por que ele reza. Escrever é pedaço, é bioquímica do escritor, é essência e personalidade.
Escrevo desde que me lembro ter aprendido a juntar as primeiras consoantes e vogais, desde que descobri as rimas e me apaixonei pelas palavras. Em épocas em que a internet não era nem ao menos imaginável, eu me perdia em incontáveis cadernos escondidos no meu quarto. Quantas folhas eu preenchi enquanto desenhava. Fui dessas crianças com grandes calos nos dedos.
Acredito que todo escritor nasce contador de histórias e estórias, é um observador nato do cotidiano, das pessoas, da vida. Todo escritor é artista e inventor de pequenas loucuras e devaneios. Acredito piamente que quem escreve encontra nas palavras a única saída para organizar sua própria personalidade. Os loucos – talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever e as palavras se perdem de modo ensurdecedor dentro deles. Palavras perdidas são tão perigosas.
“Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens”. Manoel de Barros entendia tudo sobre o universo de um artista e – acredite – escritores são artistas completos. Não conheço um escritor que não seja incrível em outras artes.
Escrever não deve nunca ser forçado. Parafraseando Bukowski, se nunca sair de ti a gritar, faz outra coisa. Escrever não é sentar e esperar, não é olhar a página em branco e procurar ciência em palavras. Escrever é vomitar, é derramar, é deixar escorrer verbo como se escorre sangue em corte profundo. “A menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado
te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio, não o faças.”
Não existe tentativa em ser escritor. Não existe treino, tampouco curso. O escritor de verdade é líquido – nunca sólido, jorra enquanto digita, grita enquanto força a caneta no papel. O escritor entra em transe e se deixa possuir por ele mesmo, é loucura, é víscera derramando as quatro estações de Vivaldi. É drama, nascimento e assassinato.
Não entenda um escritor como lúcido; lúcidos não escrevem. Não acredite em escritor que não tenha nascido um, que escreva por dinheiro ou fama. O verdadeiro escritor nada é além de arte em seu estado mais bruto. Palavra é essência; é o que faz de todo escritor louco e o que o impede de enlouquecer completamente.
