Talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever

Todo escritor é um exímio leitor, mas o contrário nem sempre é verdade.
Uma vez, em entrevista, me perguntaram por que eu escrevo. Acho que foi a pergunta mais difícil de responder em toda a minha vida. Senti-me quase perdida dentro de um eu que não saberia definir nunca, seria como perguntar por que tenho meu nome, por que tenho meu tom de pele. Seria como perguntar a um monge por que ele reza. Escrever é pedaço, é bioquímica do escritor, é essência e personalidade.
Escrevo desde que me lembro ter aprendido a juntar as primeiras consoantes e vogais, desde que descobri as rimas e me apaixonei pelas palavras. Em épocas em que a internet não era nem ao menos imaginável, eu  me perdia em incontáveis cadernos escondidos no meu quarto. Quantas folhas eu preenchi enquanto desenhava. Fui dessas crianças com grandes calos nos dedos.
Acredito que todo escritor nasce contador de histórias e estórias, é um observador nato do cotidiano, das pessoas, da vida. Todo escritor é artista e  inventor de pequenas loucuras e devaneios. Acredito piamente que quem escreve encontra nas palavras a única saída para organizar sua própria personalidade. Os loucos – talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever e as palavras se perdem de modo ensurdecedor dentro deles. Palavras perdidas são tão perigosas.
“Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens”. Manoel de Barros entendia tudo sobre o universo de um artista e – acredite – escritores são artistas completos. Não conheço um escritor que não seja incrível em outras artes.
Escrever não deve nunca ser forçado. Parafraseando Bukowski, se nunca sair de ti a gritar, faz outra coisa. Escrever não é sentar e esperar, não é olhar a página em branco e procurar ciência em palavras. Escrever é vomitar, é derramar, é deixar escorrer verbo como se escorre sangue em corte profundo. “A menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado
te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio, não o faças.”
Não existe tentativa em ser escritor. Não existe treino, tampouco curso. O escritor de verdade é líquido – nunca sólido, jorra enquanto digita, grita enquanto força a caneta no papel. O escritor entra em transe e se deixa possuir por ele mesmo, é loucura, é víscera derramando as quatro estações de Vivaldi. É drama, nascimento e assassinato.
Não entenda um escritor como lúcido; lúcidos não escrevem. Não acredite em escritor que não tenha nascido um, que escreva por dinheiro ou fama. O verdadeiro escritor nada é além de arte em seu estado mais bruto. Palavra é essência; é o que faz de todo escritor louco e o que o impede de enlouquecer completamente.

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Um comentário sobre “Talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever

  1. marina disse:

    Sou historiadora, penso que, muitas vezes os escritores escrevem para eles, ou seja, só eles entendem o que escrevem…

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