Trânsito, música do caminhão de gás, ultragááááás, logo cedo, não, ouve o ônibus subindo a ladeira? nossa, como fazem barulho esses ônibus, cheiro de gente suada, espreme e tá calor, segura a bolsa, olha a carteira, espera o ônibus na fila imensa, cheiro de sabonete, banho tomado, café pingado em copo de vidro, pão na chapa, buraco na calçada, raíz de árvore querendo vencer, barulho de criança, grito, risada, gente conversando, ocupação humana, buzina e cheiro de gasolina, sabiá, céu azul, trovão, tempestade, águas de março, verão, cheiro de pão fresco, chiado de refogado, cheiro de alho, panela de pressão cozinhando feijão, dona maria e dona amélia conversando na janela, cida e rose falando mal das patroas, carrinho de feira com saco de pastel molhado de óleo, palmito, cheiro de mamão e manga, porteiro dormindo, escola cheia, calor, tá calor, vai pra praia no fim de semana? correr no calçadão, ler um livro na lagoa, ir ao ensaio da escola de samba? a escola de samba, o batuque, a batucada, o pandeiro, o radinho de pilha do peão, a marmita cheia de arroz e feijão, cheiro de jasmim à noite, gosto de caju doce, pele esticada de sol, arde, bronzeado, todo mundo, havaianas, vestido leve, cabelos soltos, cabelo molhado, cheiro de pitanga, bolo de fubá, bolinho de chuva, garoa, parabrisa, inverno, um milhão de cobertores, frio, muito frio, não tem aquecimento, todo mundo fica mais chique no inverno, shopping center, cinema e pipoca, foundue de chocolate, festa junina, paçoca, vinho quente, futebol de quarta feira, queijo, vinho tinto, pão com mortadela, churrasco no quintal, na laje, na casa de praia, piscina, mar quente impróprio para banho, mar lindo, marzão de Deus, moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza! reveillon, tudo branco, fogos e sete ondas, come lentilha pra dar sorte, põe dinheiro embaixo do colchão! onde vai de mini saia? escolher biquini, dieta da lua, rede, cheiro de bronzeador, camarão frito, côco e milho verde, sorvete kibon, alguém quer? de abacaxi? fla x flu, corinthians e palmeiras, galvão, boteco da esquina tem que ter chopp, se o bar é bom o chopp é brahma, gelado, dois dedinhos de colarinho, porção de bolinho de carne seca, pizza, uma roda inteira de amigos, em fevereiro tem carnaval! mais barulho, mais buzina, mais risada, bem-te-vi, teatro, novela no fim do dia, bombril na antena, caminhada no parque, na praça perto de casa, olha a poluição daqui de cima mãe! é quase um manto! sílvio santos e faustão, desenho do pica pau, caverna do dragão, chaves, hebe que gracinha, alcança essa pitangueira? pega aquela vermelhinha pra mim! pára no boteco, café pingado ou chopp gelado? passa no sapateiro, no tintureiro, na costureira, no açougueiro, no chaveiro, marca mão e pé na hora do almoço, claro ou escuro? jabuticaba. liga o rádio, edson e hudson, e esse amor é azul como o mar azul, roda de samba, roda de funk, você não vale nada mas eu gosto de você, muita gente, muita gente, churrasco de gato, centro, igreja cheia, é domingo, procissão de páscoa, olha todo mundo subindo a ladeira, mãe, segurando vela e cantando, sente o cheiro do rio? não fui eu, não! tudo parado, três horas e meia, seis horas no feriado, bala, moça? cereja? meia dúzia, cinco reais! “estou desempregado, por favor colabore comprando essas balinhas por R$ 1”, tem trocado? aceita vale! sonho de valsa? pipoca doce? guaraná!!!! festa de criança tem brigadeiro, beijinho e guaraná, fecha o vidro! risada, barulho, papagaio, cachorro, pamonha, pamonha, pamonha, pamonha fresquinha, é o puro creme do milho, venha experimentar essa delícia, pamonhas de piracicaba!
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
La Solitudine
Abri os olhos às cinco e meia da manhã, acordada por um trovão que entrou pela janela. Voltei a dormir até o despertador do marido tocar, quinze minutos depois. Ele se foi e eu fiquei, estirada na cama como carne de sol. Fiquei e fiquei e fiquei. Imaginando que a chuva lá fora cairia por mais um dia inteiro e o meu pequeno apartamento seria minha caverna de novo. Mais um dia.
Abri os olhos às dez e meia da manhã com o barulho da minha amiga, vizinha de cima. Mandou um sms, disse que tá trocando de sofá. Pensei, será que chove ainda? Um pedaço de mim queria que chovesse, outro queria que fizesse sol. Outro não tava nem aí. Fazia sol.
Já é meio dia e eu ainda não fiz nada a não ser um suco de couve com laranja. Mas não lavei a louça, ainda nem arrumei a cama. Ontem, nesse horário, eu ouvia Madonna em alto e bom som enquanto cantarolava Holiday e arrumava a casa. Ontem, nesse horário eu estava a caminho da academia, feliz por nada. Sorri pra passarinho e flor e dei oi pro gato de pata branca.
Ontem eu fiz cheesecake de framboesas frescas, salmão grelhado com gengibre e chilli, batatas assadas com alecrim do Jamie Oliver e mais suco de couve.
Meus planos hoje eram andar no parque que descobri aqui perto de casa. Ir na academia com uma amiga à noite, mas ainda espero a resposta da amiga. Acho que vou lutar contra um eu interior e ir pro parque. Vou arrumar a cama e lavar a louça.
Um outro eu interior grita. Diz “que saco, sozinha de novo!”. “Que saco, meio dia e você ainda não abriu a boca pra falar um A pra ninguém”. Muda por conta própria. Tagarela emudecida.
Tô cansada de fazer coisas sozinhas. Tô cansada de passar o dia todo sem falar com ninguém. Quero trabalho, ninguém me dá. Quero dinheiro, ninguém me dá. Quero amigos, ninguém me dá.
Passo o dia fazendo coisas sozinha, tentando ser social na academia, no supermercado. Mal respondem meus ois, será que sou quase invisível?
Espero o dia todo o marido chegar. Quando ele chega, a gente nem se dá conta, quando vê já é hora de começar a se arrumar pra dormir. As sete horas que ele passa em casa voam em proporção geométrica. As outras sete, oito, sabe-se lá quantas que eu passo sozinha, penam pra passar.
Às vezes é bom ficar sozinha. Mas é que hoje me enchi por completo de mim mesma. Amanhã passa.
La solitudine fra noi,
Questo silenzio dentro me
E l’inquietudine di vivere
Se a vida fosse perfeita
Se a vida fosse perfeita, você teria comemorado ontem seus sessenta e seis anos ao lado da gente. Teria me dito que não queria que eu morasse longe, que estudasse Direito, que não parasse de escrever.
Se a vida fosse perfeita, você acordaria tarde nesta manhã de sábado e tomaria café com a gente na padaria. Eu faria macarrão com brócolis e alho para o almoço, porque soube que você gostava. Quem sabe a casa estivesse cheia, com muitas histórias, risadas, queijos e vinhos. E eu estaria ao seu lado brindando sem o nó na garganta que me dá agora.
Eu compararia minhas mãos com as tuas, tão iguais, mas que eu só posso comparar por fotos. Eu me veria em você ao invés de ouvir dos outros o quanto somos parecidos.
Se a vida fosse perfeita, você ficaria tão orgulhoso de nós! De quando entramos na faculdade, de quando moramos fora do país e nos viramos muito bem. Teria o coração na mão nos dias das nossas formaturas.
Se nada tivesse mudado, você seria meu Papai Noel, meu super herói, meu melhor amigo. E eu nunca inventaria estórias na escola de que você estava apenas viajando. Seriam para você os meus presentes do segundo domingo de Agosto, e este dia talvez não fosse tão desconfortável assim.
Eu sei que me daria bons conselhos e um colo para os momentos difíceis. Eu sei que estaria com o coração na mão naquele meu “sim” em um três de Março. E que choraria, diria pra todo mundo o quanto estava orgulhoso e pediria que me cuidasse bem.
Se a vida fosse perfeita, você esperaria ansioso pelos meus trinta anos. Me contaria histórias da minha infância, coisas que eu não consigo lembrar. Contaria-me as tuas histórias. Que eu só conheço através de outras bocas.
E quando eu achasse teus textos e poemas perdidos em alguma caixa, correria para te mostrar. A gente daria muita risada, que substituiríam as lágrimas que acompanham teus papéis. E você então não seria apenas lembrança. Não seria apenas a foto três por quatro que eu carrego na minha carteira.
Se a vida fosse perfeita, pai, aquela pinta nunca teria existido. Não teria mudado todo um destino. E você não se culparia por ter de deixar a mulher que amava e seus dois bebês. Não se frustaria tanto e entenderia, pai, que a vida não é perfeita.
Sei que onde quer que esteja, está lendo esse texto agora. E talvez teu coração, tão puro e em uma paz tão incondicional, saiba como evitar as lágrimas que despencam no meu rosto. Não, você não teria lágrimas. Teria apenas amor e saudade.
Se a vida fosse perfeita, pai, eu também teria apenas amor e saudade. Mas eu ainda faço parte deste plano onde o coração dói e o egoísmo humano me faz querer puxar você da minha foto e começar tudo de novo. Tenho tanta coisa pra dizer, mas as lágrimas me sufocam. Sei que olha por nós, meu Anjo Maior. Sinto-te em mim todos os dias.

O senhor de branco
Tinha mais de setenta anos, com certeza. Ou talvez oitenta e poucos. O que sei é que ficava muito bonito de branco.
Ele sentava-se todos os dias, por volta das quatro da tarde, no banco da praça que ficava na frente de sua casa. Trazia sempre um livro, um jornal e uma caixinha metálica, quase enferrujada.
Tinha muitas rugas pelo rosto, a pele morena, manchas senis nos braços e nas mãos enrugadas. Pouco cabelo, todos eles brancos, assim como o discreto bigode. Usava óculos, de armação larga, escondendo um pouco seus grandes olhos castanhos, meio turvos pela catarata. Tinha um nariz protuberante, um sorriso macio, voz forte e uma doce gargalhada.
No inverno ficava ainda mais charmoso. Usava boinas diferentes e suspensórios. Sempre tão elegante e tão simples.
Quando se sentava no banco da praça, o mundo parava. Aquele era seu único momento, livre de qualquer julgamento. Eu não sabia o que acontecia na sua vida, não sabia se tinha esposa, filhos, netos ou bisnetos. Também não me importava muito, já que eu gostava de observá-lo naquele espaço único de tempo, que se repetia como uma rotina perfeita. Quatro em ponto, só não vinha quando chovia torrencialmente.
Seus atos eram previsíveis para quem já o conhecia, ou o via de longe. Abria a caixinha metálica e tirava de lá palha de milho. Colocava cuidadosamente fumo de corda, enrolava a palha e amarrava com uma fitinha. Acendia uma das pontas e tragava com muito carinho. Abria o jornal e o lia rapidamente. Com mais cuidado e atenção lia o livro, o qual nunca consegui identificar de longe.
Passava lá algumas horas e às vezes se desconcentrava com um cachorro, um passarinho ou uma borboleta. Prestava uma atenção incrível em cenas como estas. Um dia o peguei olhando para o céu e sorrindo. Olhei também e vi nuvens cor de rosa que teimavam em fazer formas diferentes. Há tantos anos que eu não olhava para o céu às quatro da tarde!
Os cachorros pareciam uma grande paixão. Quando não se aproximavam por vontade, eram chamados por ele. E ele fazia tanta festa! Conversava com os animais, os afagava e morria de rir! Ainda tentava puxar uma conversa ou outra com seus donos, era majestoso com a palavra e os causos. Mas nem todo mundo o levava à sério.
Depois de tantos meses, resolvi um dia me aproximar. Cheguei perto devagarzinho e me sentei ao seu lado sem dizer nada. Ele me olhou e sorriu. Perguntou se eu queria um cigarro ou amendoim. Eu disse que não, e sorri de volta.
Foram tantas as tardes de conversa. Descobri que seu nome era José. Era filho de italianos que vieram à São Paulo há muitos anos. Descobri que era casado com uma senhora muito bonita, a qual ele chamava de “grega”, tinha quatro filhos e oito netos.
Ele me contou da infância na fazenda e dos momentos de guerra. Me ensinou a cuidar de rosas e a fazer polenta assada. Me falou de sua paixão por praia e por mandioca frita com caipirinha. Me contou que já fora frentista, mecânico e barbeiro. Disse que todo ano pescava no mar e ia à Igreja com sua esposa no aniversário de casamento.
Em tantas quatro da tarde ele me ensinou tanta coisa. Me contou tantas histórias que preenchiam seus oitenta e nove anos. Sim, oitenta e nove, descobri. Não parecia, pois tinha coração e alma de menino, e falava como um simples sábio.
Entre cigarros de palha, amendoins japoneses e café frio, conversamos por meses. E só depois de muito tempo que lhe perguntei que livro lia. Disse ser “O livro dos espíritos”, de Alan Kardec. Foi então que ele pegou na minha mão, com aquelas mãos calejadas de vida, e me disse com a sabedoria mais simples e humilde que já senti: “Um homem velho tem que cuidar do presente e da mente, menina, por isso o jornal. Tem de celebrar o passado com gosto, por isso o cigarro de palha. E tem que, acima de tudo, cuidar do futuro. Por isso leio Kardec.”
Nunca me esqueço desse senhor. Em nenhum dia da minha vida. Da última vez que o vi ele me disse pra não chorar porque tudo haveria de ficar bem.
* Para meu avô, com a maior saudade que alguém pode sentir nessa vida.
Um dia de Madonna
Eram dez da manhã de um típico dia de verão. Anita acordou cedo, como era de costume. Tinha muita coisa pra fazer naquele dia que parecia ser tão normal pra qualquer pessoa, menos para ela.
Fez café coado na hora e atacou um pedaço de cheesecake de padaria na geladeira. Hoje não seria o dia de cereal integral, iogurte e mamão. Era seu aniversário de trinta anos.
Meu Deus, como o tempo passou rápido. Tantas imagens vieram na sua mente, o aniversário de vinte parece que foi ontem! Lembra quando entrou na faculdade? Já passaram doze anos, Anita!! Doze anos! Engraçado que ela não sentia o peso da idade… ainda não via rugas, nem pés de galinha. Seus seios talvez estivessem um pouco mais caídos, mas era abençoada por fazer parte da geração silicone. Mais alguns meses fazendo hora extra no jornal renderiam gloriosos 300 mililitros de cada lado!
Se sentia diferente hoje. Como se um número, uma volta da Terra mudassem tudo. Sentia como se não devesse nada a ninguém. Por isso colocou seu vestido verde com um belo decote, coisa que nunca, em outra idade, usaria pra trabalhar. Se maquiou generosamente, mas ainda assim deixando um ar de naturalidade. Usou aquele batom framboesa que temia há tantos meses, afinal, nunca se sentia bem de lábios cor de rosa. E, claro, seu perfume da sorte, guardado só pra ocasiões especiais e noturnas.
Saiu de casa a caminho do trabalho, dirigindo seu Corsa azul pelas ruas da Vila Mariana. Um acidente na 23 de Maio deixou tudo parado, mas ela não se importaria se chegasse um pouco atrasada hoje. Ligou o rádio, nada de inspirador, colocou seu cd preferido. Madonna, The Immaculate Collection. Passou pra faixa 4 e aumentou o máximo que pode. Abriu o vidro do carro, porque queria que todo mundo ouvisse e entendesse a mensagem. “Don´t go for second best baby, put your love to the test”!!!
Nesse dia ela nem ligou para os vendedores de bala que lhe olhavam com a maior cara de interrogação possível. Riu achando que todo mundo em volta provavelmente estaria pensando que teve uma noite de sexo incrível, enquanto a boa verdade eram seus 30 anos.
Cantou o mais alto que pode porque era tudo o que queria dizer naquele momento. Precisava tomar uma decisão hoje.
Anita tinha um relacionamento com um cara do trabalho, Beto, aquele cafajeste de todo departamento. Moreno, alto, bonito e sensual. Talvez ele fosse a solução dos seus problemas… por um tempo, mas agora já não tinha mais futuro. Não queria mais um cara que resolvesse seus problemas sexuais e não ligasse quando estivesse doente. “Sateen sheets are very romantic, what happens when you´re not in bed!!”, gritou com Madonna.
Assim que chegou à redação, chamou Beto pra um café. Ele percorreu os olhos por ela, com aquele vestido verde e aquele decote. Ela conhecia bem aquele olhar e era dele que estava farta. Beto ficou um pouco desconsolado com a nova notícia, mas não deu o braço a torcer por um relacionamento mais maduro.
Anita trabalhou feliz como nunca. Ganhou bolo da chefe, presentes e cartões. Almoçou com as amigas da faculdade e ligou pra todas as meninas solteiras promovendo uma noite regada à champagne ou tequila, se preferissem.
No final do dia passou na casa da mãe, na floricultura e na massagista, afinal era seu dia. Tirou o vestido infalível do armário, aquele cinza escuro tomara-que-caia. Tomou banho de banheira com velas e incenso, “what you need is a big strong hand to lift you to a higher ground!! Make you feel like a queen on a throne, make him love you till you can´t come down!!” Fez uma maquiagem poderosa e esperou a carona das meninas.
Acabaram a noite num pub australiano, ao som de uma ótima banda de garagem, cantando sucessos de pop rock antigos, da época em que todas elas saíam nas noites paulistanas à caça. Hoje só queriam dançar, cantar alto e brindar. Anita lavou a alma de tequila, de melhores amigas, de olhares vorazes, de gargalhadas. Sentiu o poder de um vestido tomara-que-caia em um corpo balzaquiano, o sabor da tequila em um paladar mair refinado, a delícia de ter história pra contar.
Namorado? Hoje não. Nem lipoaspiração, nem silicone, nem nada. Queria voltar aos tempos em que ainda não tinha certeza de nada. E esse tempo começava hoje. “You deserve the best in life, so if the time isn´t right then move on! Second best is never enough, you´ll do much better on your own” Alguém já tinha dito… a vida não começa aos trinta, mas que fica muito mais divertida, ah fica.
Adultescência
Às vezes eu sinto falta de acreditar mais nas coisas. Sabe quando você jurava por tudo o que era mais sagrado no mundo que quem deixava seu presente embaixo da árvore ERA o Papai Noel?? Esse tipo de coisa. Claro que não vou me pegar agora, nessa altura do campeonato, tentando acreditar em coelhinho da Páscoa. Mas sinto falta de ser mais boba.
Tenho uma amiga inglesa aqui que é dez anos mais nova que eu. Não é nenhuma menininha, mas é boba que só. Também não é burra, só é de uma ingenuidade que eu nunca vi na vida. Desligada que só ela… Eu mandei um torpedo dizendo “I´m on Tamiflu” e ela me respondeu “uau amiga, o que é isso? parece tão exótico!!” Eu me mato de rir, né… Vou fazer o que?
Mas eu bem que queria ter um pouco mais dessa ingenuidade, esse desligamento do mundo real. Desde que me mudei de mala e cuia pra Inglaterra, desde que resolvi botar a cara na mundo, virei uma pessoa séria, racional. Sou 100% cabeça… e coração, só quando convém.
E eu acho que eu costumava ser mais coração… As coisas faziam menos sentido, mas eram mais coloridas. E se não fizessem sentido também, quem é que se importava? O tempo passava devagar o suficiente para olhar as nuvens correndo no céu ou acompanhar uma trilha de formiga. Se eu quisesse muito alguma coisa, era bem fácil de resolver. Pedia pra fada do dente. Ou pro gnomo do jardim em troca de uma maçã. Ou pro próprio velhinho barbudo. Tudo tinha uma solução e – o que é melhor – essa solução nunca partia de mim. Alguém criava um problema e criava uma solução. E quando eu me dava conta tudo já tinha passado, como um assopro de machucado. Quando casar, passa. Passa nada.
Acho que a gente perde muito a magia da ingenuidade ao longo da vida. As coisas continuam sem fazer muito sentido, mas se eu fizer alguma coisa errada eu não vou de castigo, eu vou ser processada ou ir pra cadeia, ou qualquer coisa do gênero. Os preços a serem pagos são muito maiores e não tem ninguém pra resolver por você. Você é adulto com A maiúsculo, igual àqueles chatos que iam na sua festinha e ficavam só conversando ao invés de brincarem.
E como se tudo isso já não bastasse, a gente ainda liga a tv e compra jornal pra ver notícia. Pra deixar a vida ainda mais pesada, porque a gente tem que se atualizar. Preferia ser que nem minha amiga e descobrir o que é Tamiflu só se precisasse dele… eu já sabia bem antes de começar a tomar! Tá certo que o conhecimento é importante, cultura geral e blá blá blá. Mas juro que quando o telejornal começa, ou quando chega uma conta pelo correio, eu tenho vontade é de sair correndo pro balanço do jardim. Resolve pra mim, fada do dente.
O que corre no sangue
Acredito em tudo o que faz meu coração bater mais forte,
Meu sangue pulsar quente,
E o suor escorrer gelado pelo rosto.
Minha alma pede paixão, boa sorte e paz de espírito.
Meu corpo pede frio na barriga, pernas que tremem e arrepio,
Minha mente pede novidade, um pouco de loucura e desafio.
Dou valor à família de sangue e àquela que escolhi para seguir a jornada de perto.
Dou valor à jornada. Ao vento no rosto, à chuva caindo, ao cheiro de terra molhada.
Aos pés na grama, à areia branca, ao céu infinitamente azul, à espiritualidade.
Às altas montanhas, à noite estrelada e às tempestades.
Acredito em Deus, em energia, em amizade, em inspiração
Quero acreditar que as escolhas que fiz sempre foram as melhores,
E que as estão por vir nunca me deixem dúvidas no coração.
Procuro o que me chacoalhe, o que eu possa olhar pra trás e dizer que sim, fui lá e fiz.
E que eu continue buscando, sentindo, escolhendo ser aprendiz
Que sempre haja o equilíbrio e a vida bem vivida,
O sorriso espontâneo e um pouco de devaneio,
Que o amor sempre se multiplique, que a gargalhada doa a barriga,
Que sempre existam os melhores amigos e o copo meio cheio,
Que o proibido não faça mal se te fizer feliz e que haja sempre alguém para cuidar de nós,
Venha de cima ou do lado, desde que não estejamos sós
Que haja liberdade, abraço apertado, intensidade,
Um amor que te acalme, mãos e ombros para os momentos de escuridão
E quando meu rosto estiver cheio de rugas, quero que eu entenda
Que a vida é feita de escolhas e a felicidade constante é simplesmente uma opção.
Brasil, pra mim
Ser Brasileira pra mim é uma benção. Acredito que Deus tenha escolhido a dedo os abençoados a nascerem nesse pedaço do mundo, um mundo novo, de pouca história e lindas estórias. Ser Brasileira, pra mim é o que há de mais sagrado no meu sangue.
Sei que você pode estar lendo isso agora e pensando na infinidade de coisas ruins que acontecem na nossa terra, desde o minuto em que Cabral colocou seus olhinhos vorazes sobre ela. Sei de tudo, sei de toda a corrupção de todos os governos, de toda a ignorância de um povo, de toda a falta de civilidade, de toda a picaretagem. Sim, eu sei de tudo. E sempre soube. E a bem da verdade, pensei muito em me rebelar quando era adolescente e fazer passeatas contra o Collor e a poluição visual, me mudar pra um país mais evoluído. Mas tudo isso não passou de uma passeata contra o aumento da mensalidade da minha faculdade e um intercâmbio de férias na Europa.
Ok, eu tenho uma situação um pouco mais privilegiada do que a maioria do nosso povo e pude fazer um pouco mais da minha vida. Mas meus avós não tinham nada, e tudo o que tive a vida inteira foi custo de muito suor. Sou bisneta de italianos colonos, como uma grande parte de São Paulo. Sou Paulista, cresci no asfalto, andei de carro e ônibus a vida toda, respirei “ar regular” desde criança.
Sou de um país cheio de defeitos, cheio de desigualdades e coisas feias, mas não vim aqui pra falar disso. Vim aqui pra abrir seus olhos, você que mora aí e reclama todos os dias. Você, Brasileiro, que não quer nem ouvir sobre as coisas boas que existem ao seu redor.
Por obra do destino eu fui “exilada” por mim mesma. Fui colocada no outro canto do mundo pra dar espaço a um amor que eu só podia ter aqui, na Europa. E um ano e meio sem colocar meus pés no Brasil me tornaram uma pessoa muito pior. Uma pessoa cheia de medos, de dúvidas, sem vida. Eu vivi uma vida aqui, até então, que eu relutava pra enfrentar. Comecei uma vida do zero, como se tivesse nascido de novo e essa vida não foi nem um pouco fácil. Faltava uma parte de mim, faltava uma família inteira, uma penca de amigos e uma alma que só existia num lugar do mundo.
Vou te contar uma coisa… eu moro no interior da Inglaterra. Uma cidade quase sem crimes, com algumas coisas interessantes pra se fazer, com gente do mundo todo. Estou a meia hora de Londres e todo seu agito. Tenho amigos do mundo todo aqui, uma casa alugada, um emprego, um marido nacional. Pode parecer a vida perfeita, aquela que muita gente sonhou, mas é aí que mora a questão. Você se adapta? Adaptação é um processo muito fácil quando se tem dia pra voltar pra casa. Quando não se tem, a estória é bem diferente.
A Inglaterra pode parecer um sonho, o povo é muito cordial e receptivo, mas sempre falta alguma coisa. Eu sempre tenho a sensação de morar em um país fantasma. É porque aqui, minha gente, falta alma.
Falta a alegria que o Brasileiro tem desde que nasce, falta a ginga, o jogo na cintura pra lidar com os repentes da vida, falta o lado positivo, o otimismo, o sacudir a poeira e dar a volta por cima. Falta um olhar que diz tudo e um sorriso que abre portas, falta alguém respondendo o seu bom dia mesmo sem nunca ter te visto na vida. Falta alguém pra te dizer do nada “vá com Deus”. Falta um Deus. Falta uma religião, faltam crenças, faltam bençãos. Falta vida, falta alma.
Todos os dias da minha vida aqui eu tento me lembrar de que sou Brasileira. De que nasci com um sorriso pra quem quiser recebê-lo. De que nasci com otimismo e com vontade de vencer na vida e mudar o mundo. Nasci num país onde o tempo passa mais devagar, onde as pessoas dançam e cantam, onde as crises passam e mudam.
Eu sou Brasileira do dedinho do pé ao fio de cabelo, e muitas vezes queria ser a típica Brasileira ao invés das sardinhas no rosto branco. Queria que as pessoas não me dissessem que jamais imaginariam que sou do Brasil. Queria transbordar toda essa magia que só a gente tem.
O mundo tem muitos defeitos. Todos os países tem seus problemas, e os daqui são tão grandes quanto os daí. Mas a gente continua vivendo… o Brasileiro continua empurrando a carroça e fazendo a vida acontecer. Sem extremismos, num país abençoado com inverno e verão decentes, com um dia que nunca escurece antes das cinco e meia da tarde. Com temperaturas amenas, chuvas que trazem aquele cheiro de terra molhada.
Sabe um fim de tarde, desses de sentar na grama e ver o sol se por? Aqui se você tiver sorte, conseguirá fazer isso por duas semanas no ano. Sabe uma noite enluarada, com seus amigos ao relento? Sabe as árvores sempre ricas, o verde sempre verde, os pássaros na sua janela? Sabe o cachorro da vizinha latindo, o galo cantando, as crianças fazendo barulho e brincanco na rua? Sabe o barulho, de gente viva? Aqui não tem. Eu dou graças a Deus quando ouço um cachorro latindo, pra quebrar o silêncio do dia.
O cheiro de pão quentinho saindo na padaria, a música do caminhão de gás que você odeia, aquele cheirinho de alho e cebola refogando todo santo dia… A felicidade de ir pra praia a hora que der na telha, as pessoas andando de bicicleta, correndo no calçadão, a benção de um dia de sol quase todos os dias do ano. Um sol que esquenta.
O porteiro que sabe a sua vida inteira, o vizinho que vem te ver quando você tá doente, o médico que te conhece desde pequeno, a sua avó que faz aquele bolo de fubá à tarde e anota as receitas nos programas femininos da tarde. Aquele bolo que perfuma a casa toda. As novelas que todo mundo assiste, o santo futebol de quarta feria. O cafézinho, de todas as horas, de todos os lugares… “a senhora aceita um café?” Quanta Brasilidade tem nessa pergunta, meu Deus! O nosso café incomparável, a generosidade do nosso povo, o papo que vem do nada e dura horas com alguém que você nunca viu antes. As praças, os parques. O parque com ciclovia, quadra de futebol, de tênis. As quadras públicas para as nossas crianças terem o que fazer. O Bem-te-vi, o sabiá, o papagaio do vizinho…
É tanta Brasilidade que faz a nossa alma reviver. É tanta coisa pra se fazer no mesmo espaço de 24 horas… é um tempo mais útil, que passa mais devagar. É um povo que te acolhe e que ama a vida. É um povo que luta, que dá e recebe. São almas. Almas ensinadas a viver. Por isso que digo que Deus nos escolheu a dedo.
Nós sabemos aproveitar a vida, sabemos o valor de cada dia. Sabemos o quanto é importante a família e a amizade, o quanto vale o contato com o próximo. Sabemos que as dificuldades estão aí para serem superadas, e não há nada que desanime o nosso samba. Porque a vida tá aí, pra quem quiser viver. E ela passa rápido demais para sermos melancólicos e desacreditados. Passa rápido demais para vivermos sem crença e sem amor. Pra vivermos sem alma.
O Brasil é um país com alma. E é essa alma que eu nunca, nunca hei de renegar na minha vida. Porque o dia em que eu fizer o que muitos brasileiros fazem por aqui, “esquecer o Brasil”, eu estarei morta e longe da minha essência que me faz ser quem eu sou. Quem eu nasci pra ser. Uma Brasileira, com muito orgulho e muito amor.
