O senhor de branco

Tinha mais de setenta anos, com certeza. Ou talvez oitenta e poucos. O que sei é que ficava muito bonito de branco.
Ele sentava-se todos os dias, por volta das quatro da tarde, no banco da praça que ficava na frente de sua casa. Trazia sempre um livro, um jornal e uma caixinha metálica, quase enferrujada.
Tinha muitas rugas pelo rosto, a pele morena, manchas senis nos braços e nas mãos enrugadas. Pouco cabelo, todos eles brancos, assim como o discreto bigode. Usava óculos, de armação larga, escondendo um pouco seus grandes olhos castanhos, meio turvos pela catarata. Tinha um nariz protuberante, um sorriso macio, voz forte e uma doce gargalhada.
No inverno ficava ainda mais charmoso. Usava boinas diferentes e suspensórios. Sempre tão elegante e tão simples.
Quando se sentava no banco da praça, o mundo parava. Aquele era seu único momento, livre de qualquer julgamento. Eu não sabia o que acontecia na sua vida, não sabia se tinha esposa, filhos, netos ou bisnetos. Também não me importava muito, já que eu gostava de observá-lo naquele espaço único de tempo, que se repetia como uma rotina perfeita. Quatro em ponto, só não vinha quando chovia torrencialmente.
Seus atos eram previsíveis para quem já o conhecia, ou o via de longe. Abria a caixinha metálica e tirava de lá palha de milho. Colocava cuidadosamente fumo de corda, enrolava a palha e amarrava com uma fitinha. Acendia uma das pontas e tragava com muito carinho. Abria o jornal e o lia rapidamente. Com mais cuidado e atenção lia o livro, o qual nunca consegui identificar de longe.
Passava lá algumas horas e às vezes se desconcentrava com um cachorro, um passarinho ou uma borboleta. Prestava uma atenção incrível em cenas como estas. Um dia o peguei olhando para o céu e sorrindo. Olhei também e vi nuvens cor de rosa que teimavam em fazer formas diferentes. Há tantos anos que eu não olhava para o céu às quatro da tarde!
Os cachorros pareciam uma grande paixão. Quando não se aproximavam por vontade, eram chamados por ele. E ele fazia tanta festa! Conversava com os animais, os afagava e morria de rir! Ainda tentava puxar uma conversa ou outra com seus donos, era majestoso com a palavra e os causos. Mas nem todo mundo o levava à sério.
Depois de tantos meses, resolvi um dia me aproximar. Cheguei perto devagarzinho e me sentei ao seu lado sem dizer nada. Ele me olhou e sorriu. Perguntou se eu queria um cigarro ou amendoim. Eu disse que não, e sorri de volta.
Foram tantas as tardes de conversa. Descobri que seu nome era José. Era filho de italianos que vieram à São Paulo há muitos anos. Descobri que era casado com uma senhora muito bonita, a qual ele chamava de “grega”, tinha quatro filhos e oito netos.
Ele me contou da infância na fazenda e dos momentos de guerra. Me ensinou a cuidar de rosas e a fazer polenta assada. Me falou de sua paixão por praia e por mandioca frita com caipirinha. Me contou que já fora frentista, mecânico e barbeiro. Disse que todo ano pescava no mar e ia à Igreja com sua esposa no aniversário de casamento.
Em tantas quatro da tarde ele me ensinou tanta coisa. Me contou tantas histórias que preenchiam seus oitenta e nove anos. Sim, oitenta e nove, descobri. Não parecia, pois tinha coração e alma de menino, e falava como um simples sábio.
Entre cigarros de palha, amendoins japoneses e café frio, conversamos por meses. E só depois de muito tempo que lhe perguntei que livro lia. Disse ser “O livro dos espíritos”, de Alan Kardec. Foi então que ele pegou na minha mão, com aquelas mãos calejadas de vida, e me disse com a sabedoria mais simples e humilde que já senti: “Um homem velho tem que cuidar do presente e da mente, menina, por isso o jornal. Tem de celebrar o passado com gosto, por isso o cigarro de palha. E tem que, acima de tudo, cuidar do futuro. Por isso leio Kardec.”
Nunca me esqueço desse senhor. Em nenhum dia da minha vida. Da última vez que o vi ele me disse pra não chorar porque tudo haveria de ficar bem.

* Para meu avô, com a maior saudade que alguém pode sentir nessa vida.

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