Um dia de Madonna

Eram dez da manhã de um típico dia de verão. Anita acordou cedo, como era de costume. Tinha muita coisa pra fazer naquele dia que parecia ser tão normal pra qualquer pessoa, menos para ela.
Fez café coado na hora e atacou um pedaço de cheesecake de padaria na geladeira. Hoje não seria o dia de cereal integral, iogurte e mamão. Era seu aniversário de trinta anos.
Meu Deus, como o tempo passou rápido. Tantas imagens vieram na sua mente, o aniversário de vinte parece que foi ontem! Lembra quando entrou na faculdade? Já passaram doze anos, Anita!! Doze anos! Engraçado que ela não sentia o peso da idade… ainda não via rugas, nem pés de galinha. Seus seios talvez estivessem um pouco mais caídos, mas era abençoada por fazer parte da geração silicone. Mais alguns meses fazendo hora extra no jornal renderiam gloriosos 300 mililitros de cada lado!
Se sentia diferente hoje. Como se um número, uma volta da Terra mudassem tudo. Sentia como se não devesse nada a ninguém. Por isso colocou seu vestido verde com um belo decote, coisa que nunca, em outra idade, usaria pra trabalhar. Se maquiou generosamente, mas ainda assim deixando um ar de naturalidade. Usou aquele batom framboesa que temia há tantos meses, afinal, nunca se sentia bem de lábios cor de rosa. E, claro, seu perfume da sorte, guardado só pra ocasiões especiais e noturnas.
Saiu de casa a caminho do trabalho, dirigindo seu Corsa azul pelas ruas da Vila Mariana. Um acidente na 23 de Maio deixou tudo parado, mas ela não se importaria se chegasse um pouco atrasada hoje. Ligou o rádio, nada de inspirador, colocou seu cd preferido. Madonna, The Immaculate Collection. Passou pra faixa 4 e aumentou o máximo que pode. Abriu o vidro do carro, porque queria que todo mundo ouvisse e entendesse a mensagem.  “Don´t go for second best baby, put your love to the test”!!!
Nesse dia ela nem ligou para os vendedores de bala que lhe olhavam com a maior cara de interrogação possível. Riu achando que todo mundo em volta provavelmente estaria pensando que teve uma noite de sexo incrível, enquanto a boa verdade eram seus 30 anos.
Cantou o mais alto que pode porque era tudo o que queria dizer naquele momento. Precisava tomar uma decisão hoje.
Anita tinha um relacionamento com um cara do trabalho, Beto, aquele cafajeste de todo departamento. Moreno, alto, bonito e sensual. Talvez ele fosse a solução dos seus problemas… por um tempo, mas agora já não tinha mais futuro. Não queria mais um cara que resolvesse seus problemas sexuais e não ligasse quando estivesse doente. “Sateen sheets are very romantic, what happens when you´re not in bed!!”, gritou com Madonna.
Assim que chegou à redação, chamou Beto pra um café. Ele percorreu os olhos por ela, com aquele vestido verde e aquele decote. Ela conhecia bem aquele olhar e era dele que estava farta. Beto ficou um pouco desconsolado com a nova notícia, mas não deu o braço a torcer por um relacionamento mais maduro.
Anita trabalhou feliz como nunca. Ganhou bolo da chefe, presentes e cartões. Almoçou com as amigas da faculdade e ligou pra todas as meninas solteiras promovendo uma noite regada à champagne ou tequila, se preferissem.
No final do dia passou na casa da mãe, na floricultura e na massagista, afinal era seu dia. Tirou o vestido infalível do armário, aquele cinza escuro tomara-que-caia. Tomou banho de banheira com velas e incenso, “what you need is a big strong hand to lift you to a higher ground!! Make you feel like a queen on a throne, make him love you till you can´t come down!!” Fez uma maquiagem poderosa e esperou a carona das meninas.
Acabaram a noite num pub australiano, ao som de uma ótima banda de garagem, cantando sucessos de pop rock antigos, da época em que todas elas saíam nas noites paulistanas à caça. Hoje só queriam dançar, cantar alto e brindar. Anita lavou a alma de tequila, de melhores amigas, de olhares vorazes, de gargalhadas. Sentiu o poder de um vestido tomara-que-caia em um corpo balzaquiano, o sabor da tequila em um paladar mair refinado, a delícia de ter história pra contar.
Namorado? Hoje não. Nem lipoaspiração, nem silicone, nem nada. Queria voltar aos tempos em que ainda não tinha certeza de nada. E esse tempo começava hoje. “You deserve the best in life, so if the time isn´t right then move on! Second best is never enough, you´ll do much better on your own” Alguém já tinha dito… a vida não começa aos trinta, mas que fica muito mais divertida, ah fica.

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