Adultescência

Às vezes eu sinto falta de acreditar mais nas coisas. Sabe quando você jurava por tudo o que era mais sagrado no mundo que quem deixava seu presente embaixo da árvore ERA o Papai Noel?? Esse tipo de coisa. Claro que não vou me pegar agora, nessa altura do campeonato, tentando acreditar em coelhinho da Páscoa. Mas sinto falta de ser mais boba.
Tenho uma amiga inglesa aqui que é dez anos mais nova que eu. Não é nenhuma menininha, mas é boba que só. Também não é burra, só é de uma ingenuidade que eu nunca vi na vida. Desligada que só ela… Eu mandei um torpedo dizendo “I´m on Tamiflu” e ela me respondeu “uau amiga, o que é isso? parece tão exótico!!” Eu me mato de rir, né… Vou fazer o que?
Mas eu bem que queria ter um pouco mais dessa ingenuidade, esse desligamento do mundo real. Desde que me mudei de mala e cuia pra Inglaterra, desde que resolvi botar a cara na mundo, virei uma pessoa séria, racional. Sou 100% cabeça… e coração, só quando convém.
E eu acho que eu costumava ser mais coração… As coisas faziam menos sentido, mas eram mais coloridas. E se não fizessem sentido também, quem é que se importava? O tempo passava devagar o suficiente para olhar as nuvens correndo no céu ou acompanhar uma trilha de formiga. Se eu quisesse muito alguma coisa, era bem fácil de resolver. Pedia pra fada do dente. Ou pro gnomo do jardim em troca de uma maçã. Ou pro próprio velhinho barbudo. Tudo tinha uma solução e – o que é melhor – essa solução nunca partia de mim. Alguém criava um problema e criava uma solução. E quando eu me dava conta tudo já tinha passado, como um assopro de machucado. Quando casar, passa. Passa nada.
Acho que a gente perde muito a magia da ingenuidade ao longo da vida. As coisas continuam sem fazer muito sentido, mas se eu fizer alguma coisa errada eu não vou de castigo, eu vou ser processada ou ir pra cadeia, ou qualquer coisa do gênero. Os preços a serem pagos são muito maiores e não tem ninguém pra resolver por você.  Você é adulto com A maiúsculo, igual àqueles chatos que iam na sua festinha e ficavam só conversando ao invés de brincarem.
E como se tudo isso já não bastasse, a gente ainda liga a tv e compra jornal pra ver notícia. Pra deixar a vida ainda mais pesada, porque a gente tem que se atualizar. Preferia ser que nem minha amiga e descobrir o que é Tamiflu só se precisasse dele… eu já sabia bem antes de começar a tomar! Tá certo que o conhecimento é importante, cultura geral e blá blá blá. Mas juro que quando o telejornal começa, ou quando chega uma conta pelo correio, eu tenho vontade é  de sair correndo pro balanço do jardim. Resolve pra mim, fada do dente.

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3 comentários sobre “Adultescência

  1. Jenifer disse:

    Se vc conseguir contactar a fada do dente, por favor, me diga como encontra-la. Ela bem q podia aparecer na televisao, no jornal, na propaganda do radio, dentre os anuncios laterais do facebook… Espero que vc esteja melhor e se cuidando. Gosto mto das suas palavras, sempre dou uma olhadinha por aqui. Get well soon!!!

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