Sabe, eu queria entender esse seu gostar. Esse tal de carinho que você sempre fala. Porque carinho, eu conheço como qualquer manifestação de afeto que a gente possa ter por qualquer coisa, geralmente um ser vivo, sei lá. Um afeto desses por amizade, talvez, será que é disso que você está falando? Amizade?
Talvez o mais decepcionante da palavra carinho seja o inho denotando quase que de bobeira um diminutivo que não existe. Um carinho assim, bem pequenininho, olha. É isso o que eu sinto por você.
E essa ânsia corrosiva dentro de mim, de querer ouvir de você o que você nunca me falaria, faz até o muito, antes do carinho, parecer pouco. Porque esse tal de carinho que eu tenho por você, não sei mais chamar assim. Que te gosto. Te gosto muito. Te gosto com um monte de superlativo junto. Que te quero bem e que te queria comigo. Que você me faz bem, tanto quanto me faz mal, mas que só me faz mal quando não está ao meu lado.
Talvez eu precise de você mesmo me dizendo coisas que eu não quero ouvir na mesa do bar. Talvez eu precise que você me segure o rosto, olhe lá dentro de mim e me peça que entenda, de uma vez por todas, que não existe amor. Que amor é coisa criada na minha cabeça, alimentada por todos esses anos de ausência e presença. Talvez eu precise que você segure meu rosto e me diga que não é a hora e que eu não sou a pessoa. Mas talvez nem adiante, porque sou roteirista das melhores histórias de amor, e quando penso em você segurando meu rosto, meu coração protege o cérebro e só se lembra do gosto do seu beijo.
Mania essa de querer reciprocidade e explicação pra tudo. Se o que me fala num dia, some no outro, e se suas palavras vêm e vão como ondas numa maré baixa, cada dia um sentimento diferente. Tento me convencer de que basta lembrar aqueles segundos perdidos no tempo, em que te peguei me olhando, para não precisar substitituir o que seus olhos gritavam por palavra alguma. Seriam seus olhos apenas bons atores? Então basta me lembrar dos beijos inconscientes, molhados de suor, existia um certo amor neles. Basta acreditar que foi só comigo e eu entendo o que é esse seu gostar, que ora me parece brincadeira, ora amor.
Se eu sei que mesmo que me amasse de verdade ou pouquinho, mas que ainda fosse amor, jamais me diria. Não há o que ser entendido, explicado, dito. Há apenas uma sensação de reciprocidade vaga, que é coisa natural de todos os amores. Há apenas uma sensação de que poderia ter sido muito grande e muito bonito, mas não existe espaço na linha do tempo e do agora. Deixa pra mais tarde, quem sabe. Deixa guardadinho no coração os momentos que te fizeram rir, deixa o frio na barriga, o calor dos meus lábios no seu corpo, deixa o meu cheiro grudado no seu travesseiro. Deixa guardado em você o meu gosto e o quanto de espaço você ocupa aqui dentro. E, quem sabe, quando olhar nos seus olhos de novo, eles talvez me mostrem o quanto de superlativo também existe nesse seu gostar.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Antes de dormir
Eram duas da manhã quando ela abriu a porta de casa. Tirou o casaco e as botas, jogou a bolsa no canto do sofá. Foi até o banheiro e, antes mesmo de tirar a maquiagem, se olhou surpresa no espelho por longos minutos: meu deus, e agora? O sorriso rasgado no canto do lábio não escondia a maquiagem borrada, o cabelo emaranhado, o cheiro de corpos misturado, o cheiro do corpo dele. Enquanto olhava no fundo de sua própria íris, tentava entender o que havia acontecido naquele tempo todo, como se tivesse sido arrancada de uma realidade que não conhecia. Ainda guardava o calor da boca na pele, o sabor doce na língua, a voz sussurrada no ouvido, os orgasmos, os dedos, os medos. E era invadida por um turbilhão de lembranças recentes, a química, o gosto do beijo, o abraço, aquele olhar, o toque. Não podia se concentrar em memórias assim, era perigoso demais se apaixonar. Que pensasse apenas nas línguas, lambidas, gemidos. Mas como esquecer que pessoas têm sentimentos, como se controlar para não se envolver? Lavou o rosto para tentar acalmar o coração.
Tirou a roupa que ainda guardava o perfume daquela noite louca e deitou-se na cama, nua, como se esperasse o sol nascer para levar embora o que acontecia por dentro, como se somente a escuridão fosse cúmplice dos seus instintos animais. Precisava ser animal, talvez um dia o encontre de novo. Precisava ser racional.
Ajeitou então todos os sentimentos embaralhados, guardou o coração numa caixinha com chave e trancou na gaveta da mesa de cabeceira.
No travesseiro, deixou a mente cheia de perguntas e um fingimento de que nunca mais pensaria nele.– Pelo menos o coração está trancado, pensou a menina boba, quase que em uma prece.
Quando acontece
Enquanto ela dormia ele acariciava-lhe o rosto, emaranhando seus dedos em seu cabelo, desenhando no ar os traços de um sentimento que não sabia mais entender. Desistiria então de analisar, questionar, pois tudo era abstrato e intangível, além da curva entre seu queixo e seu pescoço afogado em beijos, além do perfume de flores que exalava do meio dos seus seios. Não havia mais caminho, todos os passos para trás teriam sido diluídos em algum lugar perdido na metafísica da vida, essas coisas de energia não se explicam, cara. Era um vazio para frente, outro para trás. No mundo inteiro, só havia aquele momento parado no tempo, um relógio que não andava mais e ela, dormindo sobre seu travesseiro, dissipando seu cheiro de flor entre os lençóis, marcando de suor para sempre a sua vida.
Pois que ali dormia um amor desses que não acontecem, um amor improvável escondido dentro de um desejo de pele. Nela se guardavam os segredos que queria descobrir, as noites que sonhava em passar em claro bebendo cerveja, conversando sobre suas infâncias e rindo toda aquela risada que ela tinha. Era ali, entre aqueles lábios, que se podia abraçar com um beijo um sentimento desses que não se explica, mas se sente, e se esconde, porque é preciso se proteger de coisas assim. Do amor improvável, daquela falta de coisas em comum, daquele monte de impecilhos que sempre inventaram, do não poder e não dever. Era essencial se proteger do que crescia, podar a cada dia um pedaço dessa raíz já fincada no peito há tanto tempo.
Não, nunca daria certo, pensava ele, sem nunca ao menos ter tentado. E não existia uma solução, pois a tentativa por si só era um buraco negro, suicídio. A tentativa era um futuro que talvez nunca virá.
A grande verdade é que passavam dias assim, escondiam-se entre beijos e suores e orgasmos, sem sequer saber que seus olhos refletiam o que mais tentavam proteger: aquela parte vulnerável que pulsa tão fortemente toda vez que seus pensamentos se cruzam.
A ausência de palavras já não incomoda quando os olhos falam tudo o que se quer ouvir.
Sobre o que vem e o que vai
Não tente entender. Sinta e deixe acontecer. O que é verdadeiro cria raízes e não vai embora. O que tem que acontecer, acontece no tempo certo.
Se não for para ser, simplesmente aceite e deixe ir. Não existe acaso nos encontros da vida, as pessoas aparecem quando é necessário contribuir de alguma maneira. E quando não for mais o momento de tê-las conosco, elas partirão, de uma forma ou de outra.
Não espere nada de ninguém, nem de nada. Não deixe seu ego chegar a tal ponto em que você espere que as pessoas ajam, pensem e reajam da mesma forma que você. O que a gente dá é gratuito e é preciso aprender a respeitar o tempo e a situação dos outros.
Não reme contra a maré, não gaste sua energia nadando contra a correnteza. Apenas aproveite a oportunidade para guardar todo esse amor em um cantinho do coração, como uma linda lembrança do quanto você ainda é capaz de usá-lo.
O que é para ser, cedo ou tarde, acontece.
Todos os nossos medos, angústias e frustrações estão, de alguma forma, relacionados ao que vivemos no passado ou ao que esperamos do futuro. A gente teme o que poderá acontecer e, se você pensar bem, o que está acontecendo agora, neste exato momento em que você lê este texto, não é tão ruim assim. É a mente quem cria expectativas, é ela quem espera e articula uma infinidade de cenários dentro de você. É a sua mente quem sofre.
Corte esse paradigma dentro da sua cabeça, desfoque todos os pensamentos e sentimentos ruins, e tudo fluirá com muito mais naturalidade.
Não é o coração que dói, é a mente que trabalha demais.
PS: Aconselho a leitura do livro “O poder do agora”, de Echkhart Tolle. Tá, é meio “auto-ajuda”, se quiser classificar assim, mas abre um pedacinho da sua cabeça que sempre esteve adormecida: o foco.
PS2: O texto acima foi escrito por mim, publicado no Facebook e readaptado para o Samba. 🙂
Caminhos
Em todas as vezes em que você veio, eu te estendi a minha mão. Mesmo quando você não olhou para trás. E você voltou com sede, porque alguma coisa em mim te faz falta, você sabe que sempre volta. E eu estendi novamente a mão, o corpo, o coração, até que te entregasse aquela parte exposta, cheia de feridas, medos e inseguranças.
Mais uma vez você se vai sem olhar pra trás, sem se dar conta de todas as palavras jogadas ao vento, sem se dar conta de todos os sentimentos estilhaçados pelo chão. Dessa vez você soltou minha mão e se foi. E eu parei por alguns instantes para te ver caminhar em passos largos na direção oposta, sem sequer voltar os olhos ao que deixou. Que eu fui para você talvez um nada, é o que mais gritou enquanto você partia. Um eco vazio. Engoli seco esse tudo, tão cheio de nada, um coração inteiro atravessando a garganta. Pois que agora eu comecei a caminhar, e não quero olhar pra trás. Ainda te dá tempo, não sei ao certo quanto, de me alcançar na outra direção. Só não espere que te estenda a mão depois que encontrar o meu caminho de volta. Volta. Enquanto ainda estamos na mesma estrada.
Que seja puro
Muitas vezes me cobram um texto aqui, outro ali, me chamam para escrever em lugares diferentes e, principalmente, reclamam dos meus exílios literários. Eu sei que já tenho um “público” fiel, e não tenho a menor modéstia para fingir que não, muito pelo contrário, meu lado leonino é apaixonado por ele. Mas o que vocês, queridos, têm que entender é que se não existem textos frequentes é porque existe paz. Às vezes é só falta de inspiração mesmo, mas quase sempre é paz.
Porque não só escrevo de cabeça quente, mas de sangue quente, de coração fervilhando. Porque o que eu transformo em palavras é praticamento um fluido da minha alma, escarrado aqui. E quando há paz, há silêncio. As palavras ecoam dentro de mim, mas não fazem tanta questão de sair. Pois é, sou regida por esse turbilhão gramatical, ele manda em mim. Quando se sente suficiente, ele quer sair. Quando não quer, não sai. E permanece aqui, no meu mais bonito arquivo: a minha cabeça.
A poesia só vem da dor, ou do amor dolorido; a intensidade jorra da loucura, não da serenidade.
Tenho aprendido muito sobre mim aqui de volta. Ou melhor, tenho reaprendido, resgatado, reabsorvido. Mas não pense que tenho me encontrado, isso não. Tenho me descoberto, pois me encontrar me limitaria demais e eu não sei viver com paredes. Não quero me encontrar, preciso de horizontes. Já dizia Oscar Wilde, “only the shallow know themselves”.
Talvez o que eu tenha vindo procurar, isso sim, eu já tenha encontrado. Ou esteja encontrando neste exato momento, consciente ou inconscientemente. Acredito na correnteza da vida e sei que um dia, quando olhar para esta fase da minha vida, entenderei perfeitamente e saberei onde todas as pontas se encaixaram.
Entendam que tenho aprendido a cuidar de mim, a separar o joio do trigo, a deixar ir o que não é meu e deixar vir o que tem que vir. Tenho feito projetos, tenho planejado o presente, o futuro, tenho vivido menos de passado. Tenho recebido provas imensuráveis de amor e desamor. Tenho testado meus medos e minhas inseguranças. E tenho aceitado, principalmente, exatamente tudo do jeito que é. Deixa o rio correr seu rumo e desembocar no mar. Deixa o mar ter maré baixa e maré cheia. Deixa a vida acontecer.
Como eu disse, estou em paz.
Enquanto isso, é noite. Deito na areia da praia esperando a maré subir. Que me lave a alma. E peço a um céu cheio de estrelas que me purifique o coração. Que me decante de todos os sentimentos que não me pertencem e me purifique o coração.
Bifurcação
Então faz duas semanas que cheguei ao Brasil. Minha vida na Inglaterra se resume a um depósito de 10m2. Todas as minhas coisas estão encaixotadas, como um rodapé de página esperando o próximo capítulo.
Absorvi essa vinda ao Brasil como um retiro espiritual e emocional (muito mais emocional), um tempo necessário para me colocar no lugar, uma etapa imprescindível para me chacoalhar e deixar o que é morto cair de vez. Preciso me renovar, preciso renascer como uma borboleta que rasga seu casulo, como uma fênix que ressurge das cinzas, e esse renascimento dói. Não, não pense que estou preparada para a dor, muito pelo contrário. Estou preparada para o que for melhor para mim e, se no meio da tempestade eu acabar me arranhando, prefiro acreditar que faz parte da jornada. Prefiro entender como cicatrizes de uma vida bem vivida, nunca fui de não dar a cara para bater. E quem dá a cara pra bater, tem que estar disposto a apanhar.
Em duas semanas de Brasil, muita coisa já aconteceu. Os sinais gritam e eu não quero ouvir, as ondas batem forte no meu rosto, eu sufoco, eu afogo, eu continuo nadando contra a maré.
E foi somente hoje que percebi que sempre precisei de circunstâncias e pessoas para me focar. Deus, como estou errada. O quanto cobrei uma atitude dos outros, para que eu pudesse me posicionar! E isso não é um jogo de baseball, eu não preciso saber onde os outros irão ficar para poder escolher a minha base!
Então hoje eu percebi. Preciso parar de querer fazer de mim e dos outros uma coisa só. Preciso deixar de esperar que as pessoas ajam do modo como eu gostaria e acredito que agiria no lugar delas. A vida não é didática. Tenho que riscar meus planos, afogar minhas expectativas.
Hoje eu aprendi que preciso de um pouco mais de egoísmo, um pouco menos de altruísmo. E essa é uma decisão nem um pouco prepotente. Descobri que se existe uma coisa em que preciso focar, essa coisa sou eu. Está na hora de escolher minha base antes dos outros e saber me posicionar sem referências. Tenho que novamente cuidar do jardim para que venham as borboletas.
E enquanto tudo isso acontece, deixo meu coração aberto para o que vier, sei que, de alguma forma, o que for melhor é o que virá. E quem se importa, fica. O que é essencial e verdadeiro, fica.
Está na hora de tirar meu coração do playground.
Estrada torta
Acordei com uma sensação de ser muito idiota, talvez aquela velha mania de olhar em volta quando as coisas estão mudando e tentar encontrar um motivo em si mesmo. Acho que sempre temos um porque que dependeu de atitudes nossas. Ou da falta delas.
Nem sempre a culpa do mundo é minha, eu sei, mas gosto de rever os cenários e procurar o que fiz para contribuir com tais situações. Pode parecer bobagem, mas eu sempre acho alguma coisa. As coisas andam em ciclos e os ciclos dependem de todos os pontos envolvidos.
Tenho uma sensação idiota de ter me perdido em uma estrada tortuosa, cheia de deslumbramento e distração. E sinto que foi tudo de propósito, que mais uma vez a vida se encarregou de colocar um violinista, uma banda de palhaços e alguns cachorros em cada curva, tudo muito bem enfeitado. Um teste de foco. E acabei me perdendo, ainda consigo ver o destino final, e sei que quero chegar nele, mas a estrada é tão interessante. Me perdi.
Preciso aprender a focar de novo, porque todo mundo neste circo está sendo pago, menos eu. Se eu me perder, não chego ao destino. Se não chegar ao destino, perco tudo o que tenho.
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Deixar de ser idiota é saber focar no que se quer lá dentro das entranhas. E você sabe muito bem o que é.
