É que eu gosto de dizer seu nome inteiro, assim, sem abreviações, como se eu te derramasse pela minha boca.
E fico repetindo só pra mim, na esperança morna de te fazer meu por um instante.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Coração de papel
É que em mim bate um coração idiota. Desses corações trouxas, masoquistas, de papel remendado. Rasgado, colado com fita, rabiscado, molhado de lágrima, perfurado. Burro que só ele. Um coração com distúrbio de déficit de atenção. Um coração que se alimenta dos amores mais nobres e pobres, um coração faminto, desregrado. Coração mole. Quanto mais rasga, mais se ajuda a rasgar. Quanto mais desmancha, mais se faz a molhar.
E é bem dentro desse coração idiota que você mora. De graça, sem contrato, sem nada em troca, usado, abusado. Escambo de mão única. Usucapião de um coração burro de papel. E ele é tudo o que eu tenho (com você dentro).
Proposta
Então moraremos juntos, não quero saber de papel assinado. Alugaremos aquele apartamento do folheto guardado na sua gaveta, de varanda branca com vista pro parque. A gente tira as bicicletas da garagem do meu pai. Nas manhãs chuvosas de fim de semana, vou acordar mais cedo pra te fazer café, assobiando alguma música dos Stones. Nas outras, a gente pedala juntos até o Ibirapuera. Vou deitar descalça na grama, você vai me avisar que tenho sorvete no canto esquerdo do lábio. Passaremos tardes jogando video game ou fazendo guerra de travesseiro. Você vai me fazer rir das suas piadas mais bobas, eu vou tocar violão pra você e cantar aquela sua música favorita. Ficaremos dias inteiros na cama, como se o tempo lá fora não existisse, como se o mundo desaparecesse com o único intuito de absorver nós dois. Você vai me acordar com o sorriso mais bonito do mundo e eu vou te contar sobre o meu dia até você pegar no sono. Dividiremos a pizza da noite no café da manhã, as garrafas de cerveja e o banheiro. Faremos café discutindo as diferenças entre Tarantino e Guy Ritchie, você vai me contar do último Kafka que leu e eu vou te explicar porque gosto tanto de García Márquez. Não porque precisamos nos impressionar, mas porque gostamos das mesmas coisas, e por isso é leve. Eu vou vestir suas roupas para dormir, você vai emaranhar seus dedos no meu cabelo enquanto assistimos ao futebol na tv. Vamos assistir filmes de conchinha e ter lâmpadas em cada canto da cama para nossos livros. E um dia, assim, de repente, decidiremos pedir férias e passaremos uma semana de mochilas na Itália. Você ensinando arte renascentista, eu ensinando tipos de uvas. E assim andaremos a vida, e a única coisa que levarei de ti será o jeito que seus olhos esticam quando te faço rir. E te juro, não sei se vou envelhecer ao seu lado. Não posso te prometer uma vida sem defeitos, mas te digo que enquanto estivermos tentando, eu ficarei contigo. E que se não existe paixão eterna, que exista todo o nosso amor por inteiro, toda a nossa verdade no olhar, toda essa paz intercalada com batidas aceleradas de coração.
Gato de rua
Queria entender por que ele brilha tanto dentro dos meus olhos. Esse jeito de falar que me dobra as pernas, me falta o ar por tantos minutos e eu não morro. Queria entender por que eu viro líquido quando ele me sorri. Logo eu, sempre tão treinada pra esse tipo de homem, sempre tão madura pra esse tipo de lábia, fui cair justo na dele, menino arisco, gato de rua. Queria entender o que ele tem que me domina, que me vicia, que me desmancha. O que se dissolve em mim e me emburrece quando ele olha dentro dos meus olhos e diz meia dúzia de palavras tiradas de um verso de quinta categoria. Queria descobrir que tipo de reação química pesada acontece dentro de mim quando ele desliza a mão na minha pele e me beija a nuca. Queria injetá-lo na veia e morrer de overdose dele todos os dias.
Ah, gatos de rua, sempre tão interessantes. A gente solta no mundo, mas eles não esquecem o caminho de volta, a gente tenta segurar de dia e perde no cair da noite.
Tanto tempo, tanto vício, tanta coisa presa entre a gente e eu não sei por onde começar a desatar os nós. Você não tem certeza se me quer longe e eu te quero perto. Você me puxa, eu te solto. Vem e vai, vai e volta. E assim domina meus ciclos, meus círculos, meus vícios. Me prende em você, eu te prendo em mim.E talvez um dia a gente descubra como não alimentar amores de estimação.
Só não esquece o meu caminho, menino arisco. Não esquece o caminho da minha coxa e te deixo sair à noite, se quiser.
Superfície
Difícil é aprisionar o intenso. O intenso se machuca livre ou preso. Ele é feito de expectativa, fantasia e ilusão, e só por isso dói. A intensidade é incompreendida, porque ameaça a fortaleza alheia, porque dá trabalho, porque vira responsabilidade. Sejamos todos menos intensos. Sejamos todos easy going, corações livres, quase superfície. E que exista felicidade nisso.
Vamos jogar nossos corações por cima do muro, façamos a revolução inversa, aquela de aprender a amar menos. Joga teu coração pra cima do muro e deixa boiar nesse vazio. Deixa ficar na superfície. A superfície não dói e a intensidade do amor um dia passa. Agora corre, foge, pois o coração intenso é daqueles que tentam voltar. Corre e não olha pra trás, deixa que se acostume nesse oco, nesse plano onde não pode se enraizar.
E quem sabe, acostumados, ainda seremos os mesmos. Quem sabe na superfície não sejamos menos.
Amarra
Então tente controlar todos os impulsos elétricos que insistem em agir mais do que devem. Algeme cada dedo para que não escreva nada, corte a língua fora para que não chame. Amarre o coração com nós cegos para que ele não grite mais que a boca. Segure todas as vontades, engula-as com água. Finja que o que bate no peito não martela na mente. E quem sabe assim o passional se transforma em racional, quem sabe assim a gente vira outra pessoa, quem sabe assim o que tem que se acalmar se acalma, quem sabe assim você volta a gostar de mim.
Fraqueza
Se eu estiver num dia ruim, não precisa vir, não espero carinho de ninguém. Infelizmente aprendi a suportar as dores sozinha, a vida longe de tudo se encarregou de me ensinar. Mas se decidir vir, só te peço um favor: venha apenas com o coração. Caso contrário, respeite a minha fraqueza de longe.
Não é ego, não é drama, é apenas meu lado humano mais fraco. Pedras não ajudam ninguém a se levantar. Mãos, sim.
Olhos brilhantes
Madalena é a menina que mora na casinha azul da rua sete. Seu quarto dá para o quintal da casa e sempre tem um vasinho de violetas na janela. Mas Madalena quase nunca fica por lá.
Ela gosta mesmo é de ficar na calçada da porta de casa vendo a vida passar. Todas as tardes senta sozinha com seu caderno de poesias e busca inspiração até escrever uma. Só não é por causa da poesia que a menina passa a tarde ali; é por causa da inspiração: Joaquim. O filho do português, dono da venda que fica em frente à sua casa. Toda tarde Joaquim vem ajudar o pai na venda.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim. Ainda mais quando ele carrega ossacos de cebolas de um lado para o outro e seus cabelos negros caem pelo rosto molhado de suor. Joaquim também tem os olhos brilhantes por Madalena. Ainda mais quando ela escreve e seus cachos cor de mel tentam delicadamente entrar no decote de seu vestido. Mas Madalena e Joaquim só se conhecem pelos ois, tudo bem e como vai.
Ela nunca namorou, dezessete anos de pura virgindade. Nunca deu um beijo sequer. Madalena não quer qualquer um. Diz que antes só do que mal acompanhada. Acredita em príncipe encantado chegando de cavalo branco e buquê de flores. Ou em príncipe encantado chegando de bicicleta com um saco de cebolas.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim, mas só os olhos, porque o resto treme só de chegar perto dele. Morre de vergonha e todas as palavras que sempre quis falar não saem nem bem baixinho da boca. Entalam na garganta como um nó de marinheiro.
Madalena é menina boba, sonha em se casar na Igreja de véu e grinalda com Joaquim. Em morar na casa amarela de portas e janelas brancas da rua dezoito. Em ter quatro filhos e um gato. Não sabe como é beijar, mas beija Joaquim em todos os seus sonhos. Não sabe o que é sexo, mas tem desejos molhados todas as noites. Joaquim não faz questão de se casar com Madalena, embora já tenha pensado nisso. Gosta do seu sorriso, do seu olhar, do seu oi trêmulo. Imagina seus beijos, seu cheiros, seus gostos, seus seios.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim, que tem os olhos brilhantes por Madalena. Mas o problema é que todas as tardes – entre a casinha azul e a venda do português – os dois esperam a vida passar e, ah, como ela passa devagar na rua sete.
*Este texto foi escrito por mim em 1997, quando eu tinha 17 anos.

