Olhos brilhantes

Madalena é a menina que mora na casinha azul da rua sete. Seu quarto dá para o quintal da casa e sempre tem um vasinho de violetas na janela. Mas Madalena quase nunca fica por lá.
Ela gosta mesmo é de ficar na calçada da porta de casa vendo a vida passar. Todas as tardes senta sozinha com seu caderno de poesias e busca inspiração até escrever uma. Só não é por causa da poesia que a menina passa a tarde ali; é por causa da inspiração: Joaquim. O filho do português, dono da venda que fica em frente à sua casa. Toda tarde Joaquim vem ajudar o pai na venda.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim. Ainda mais quando ele carrega ossacos de cebolas de um lado para o outro e seus cabelos negros caem pelo rosto molhado de suor. Joaquim também tem os olhos brilhantes por Madalena. Ainda mais quando ela escreve e seus cachos cor de mel tentam delicadamente entrar no decote de seu vestido. Mas Madalena e Joaquim só se conhecem pelos ois, tudo bem e como vai.
Ela nunca namorou, dezessete anos de pura virgindade. Nunca deu um beijo sequer. Madalena não quer qualquer um. Diz que antes só do que mal acompanhada. Acredita em príncipe encantado chegando de cavalo branco e buquê de flores. Ou em príncipe encantado chegando de bicicleta com um saco de cebolas.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim, mas só os olhos, porque o resto treme só de chegar perto dele. Morre de vergonha e todas as palavras que sempre quis falar não saem nem bem baixinho da boca. Entalam na garganta como um nó de marinheiro.
Madalena é menina boba, sonha em se casar na Igreja de véu e grinalda com Joaquim. Em morar na casa amarela de portas e janelas brancas da rua dezoito. Em ter quatro filhos e um gato. Não sabe como é beijar, mas beija Joaquim em todos os seus sonhos. Não sabe o que é sexo, mas tem desejos molhados todas as noites. Joaquim não faz questão de se casar com Madalena, embora já tenha pensado nisso. Gosta do seu sorriso, do seu olhar, do seu oi trêmulo. Imagina seus beijos, seu cheiros, seus gostos, seus seios.
Madalena tem os olhos brilhantes por Joaquim, que tem os olhos brilhantes por Madalena. Mas o problema é que todas as tardes – entre a casinha azul e a venda do português – os dois esperam a vida passar e, ah, como ela passa devagar na rua sete.

 

 

*Este texto foi escrito por mim em 1997, quando eu  tinha 17 anos.

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2 comentários sobre “Olhos brilhantes

  1. Gustavo disse:

    Bacana o texto!

    PS. Cheguei no seu blog procurando no google como se faz pra cozinhar
    feijao em lata hahaha
    pq suas tags eram “feijao em lata”?

    como nao achei nada soh coloquei na panela e deu certo haha

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