Gato de rua

Queria entender por que ele brilha tanto dentro dos meus olhos. Esse jeito de falar que me dobra as pernas, me falta o ar por tantos minutos e eu não morro. Queria entender por que eu viro líquido quando ele me sorri. Logo eu, sempre tão treinada pra esse tipo de homem, sempre tão madura pra esse tipo de lábia, fui cair justo na dele, menino arisco, gato de rua. Queria entender o que ele tem que me domina, que me vicia, que me desmancha. O que se dissolve em mim e me emburrece quando ele olha dentro dos meus olhos e diz meia dúzia de palavras tiradas de um verso de quinta categoria. Queria descobrir que tipo de reação química pesada acontece dentro de mim quando ele desliza a mão na minha pele e me beija a nuca. Queria injetá-lo na veia e morrer de overdose dele todos os dias.

Ah, gatos de rua, sempre tão interessantes.  A gente solta no mundo, mas eles não esquecem o caminho de volta, a gente tenta segurar de dia e perde no cair da noite.
Tanto tempo, tanto vício, tanta coisa presa entre a gente e eu não sei por onde começar a desatar os nós. Você não tem certeza se me quer longe e eu te quero perto. Você me puxa, eu te solto. Vem e vai, vai e volta. E assim domina meus ciclos, meus círculos, meus vícios. Me prende em você, eu te prendo em mim.

E talvez um dia a gente descubra como não alimentar amores de estimação.

Só não esquece o meu caminho, menino arisco. Não esquece o caminho da minha coxa e te deixo sair à noite, se quiser.

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