Você chega de mansinho com os braços abertos e me aperta contra o seu peito entrelaçando meu mundo, fechando a minha vida dentro de um sorriso manso. E é nessa hora, quando meu coração encosta o teu, que um buraco preenche, ainda que quase à superfície, mas é nessa hora que meu mundo vira agora e nada além da tua respiração na curva do meu pescoço deveria importar. É por você que sou aqui.
E é você quem enxuga as minhas lágrimas, me puxa para o seu colo e diz enquanto divide meu cabelo com os dedos que todas as dores do mundo em mim vão passar. Nos teus olhos cinzas, um leve reflexo meu mora dentro há quase dez anos. E um flashback de vida em pequenos frames engole meu choro e eu te amo tanto. Tanto. Meu amor real, meu amor sempre presente, minha história mais bonita. É só por você que sou aqui.
Congela a gente assim nos seus braços desajeitados, congela meu sorriso mais inteiro, meu mundo desse lado de cá, dentro dos seus olhos de esquilo. É por você que sou aqui. E só isso deveria calar todas as minhas angústias.
Categoria: Crônicas, Contos & Ladainhas
A maior parte das minhas crônicas é fictícia. Quando for verdade, eu aviso!
Ah, se eu te contasse
Ah, se eu te contasse que consigo ver todos esses seus sonhos de madrugada, se eu te dissesse que o cheiro dele ainda está na sua roupa, que as palavras dele ainda sussurram no seu ouvido, você acreditaria em mim? E se eu te contasse que ele pensa em você antes de dormir, e que já o vi fechar os olhos durante um beijo e relembrar teus lábios? Eu sei de tudo isso, mas eu não posso responder a esse monte de pergunta que você tenta acorrentar todas as manhãs dentro do travesseiro. Por que tão tarde, por que tão cedo, por que a pessoa certa na hora errada, por que a pessoa errada na hora errada? Não existem respostas, não há o que entender. Você é quem espera demais dos outros e inventa enredos nessa cabeça torta, cheia de vazios. Deixa as coisas do jeito que estão. Existem amores que foram feitos pra não acontecer, pra serem colocados em uma caixinha e trancados junto com todas essas palavras ferozes que teu peito cospe.
Te acalma, corações partidos sempre dóem. E entende, de uma vez por todas, que nem sempre é falta de amor, nem sempre existe culpado. Agora vá, levante. Engole esse choro, enxuga essas lágrimas e caminha pra frente. Sempre existirão outras esquinas, outros corações. E se isso for pra ser só história, que você aprenda a não ter medo de ponto final.
Você tinha razão
Você tinha razão.
Quando segura a minha mão e olha dentro de mim sem dizer nada e me diz tudo.
Que eu sou o mundo para você.Você tinha razão.
Do quanto se importa, do quanto me cuida.
Quando conta as sardas do meu rosto com a ponta do nariz e me beija sorrindo.Você tinha razão.
Quando no fim do dia me abre um coração inteiro em um abraço apertado.
Quando faz qualquer coisa para o meu dia terminar bem.
Quando se importa de verdade com o que eu estou sentindo, com cada lágrima corrida, com cada angústia estancada.Não me faz mal.
Faz questão de fazer bem.Você tinha razão.
E agora eu vejo o quanto de tempo perdi tirando água de um barco que não se move.
Rema pra frente. Não se entrega mais sem retorno.
Amores de verdade são para muito poucos. E você é dona de um dos mais bonitos.
Não perde, re-foca, re-ama, esquece.
A gente só reconhece o tamanho de um amor quando não é amado. Você tinha razão.
Meio-amor
Não que ela fosse a última bolacha do pacote, não se engane. Estava cheio de meninas em volta querendo absolutamente tudo que ela também quer. Sexo constante com um pouco de amorzinho. Era bonita, charmosa, tinha um sorriso que valia por dois. Mas não parava trânsito nenhum. O problema, meu amigo, é que ela era daquelas que quando a gente encosta dá choque de 220v. Não sei te explicar. Ela me liga, ela me desliga, ela faz uma carga elétrica correr pelo meu corpo que eu talvez nunca tenha sentido igual. Ela é furacão.
O problema dos furacões é que são indomáveis. Passam, derrubam a sua vida inteira e te levam junto, só eles sabem pra onde. Ou melhor, não sabem nada. Esse tipo de gente-furacão não sabe de onde veio, nem pra onde vai. Só tem uma certeza: desarrumar sua vida e levar seus sentidos junto. Ela era isso pra mim. Surgiu do nada, foi embora do nada, e nas épocas de tempestade volta ainda mais forte. Sempre volta. Porque sempre vai.
Sei lá que tipo de poder é esse, sabe, de mexer lá dentro de mim. De fazer corpo, coração e cabeça se desmancharem com duas palavras clichês e
meia dúzia de orgasmos. Putes grila, eu não controlo mais. Eu perdi completamente o controle do barco e me entreguei muito mais do que devia. Você sabe, me protejo até me apaixonar, depois disso, eu perco a consciência. E foi assim, é assim que acontece há três anos. Ela indo, vindo, indo, vindo, levando tudo o que eu tenho de bom e me alimentando de migalhas de um semi-amor escondido em desejo sexual. Talvez seja só isso mesmo, pele. Embora ela faça questão de me confundir com a certeza de meias palavras não ditas de que me ama. Ela não diz. Mas também não nega. É do tipo formada, escolada, gata de rua. Arisca. Me enrola, me prende, me segura, porque sabe que eu gosto dela pra caralho. Me alimenta de migalhas de meio-amor.
E eu ia te contar que ela foi embora mais uma vez. Disse que me gosta, mas pra eu seguir minha vida. Pra tocar o barco e ficar com quem me ama. Que ela me faz mal, que ela me prende. E não quer me magoar, porque me gosta. Pois é, a sutileza dos maiores foras da humanidade. Te gosto, tenho um carinho por você, mas amar que é bom, porcaria nenhuma. Ninguém vive de carinho. E eu amo. Ou acho que amo. Ou talvez esteja apenas em um transe alucinógeno de vício em adrenalina. Tipo caçador de tempestade.
A verdade é que eu nunca vou saber o que a prende em mim. Não sei porque ainda não foi por completo, me apagou dos contatos, cortou relacionamento comigo. O que a prende em mim é um mistério escondido embaixo da asa de um amor impossível.
O que me machuca é o jeito que me confunde, sabe. E talvez seja essa confusão que me prenda tanto. Esse não-te-amo-mas-não-te-deixo. E vou te dizer, dói. Doeu ouvir algumas coisas que eu não esperava. Mas um dia passa, ah, a gente sabe que um dia vira passado, a gente olha pra trás e não se conforma. Que seja. Não me contento com raspas e migalhas de semi-amor.
Eu não sei mais o que te dizer, cara. Só sei que estou quase bem, quase curado, quase pronto pra outra. Outra. Eu queria que tudo isso passasse, tenho visto que ela muitas vezes ela me faz muito mais mal do que bem. E já me fez tanto bem um dia. Mas não é mais assim e eu tenho que entender que as pessoas mudam, as situações se renovam, o amor degrada. Não sei. Talvez ela volte um dia, mas cheguei ao ponto de me questionar por que estou fazendo isso comigo. Por que estou deixando alguém fazer tão pouco caso de mim. Por que estou deixando quebrar meu coração, assoprar e pedir desculpa. Talvez um dia eu canse, talvez um dia ela não seja mais furacão. Um dia ainda conseguirei olhá-la como chuva de inverno, daquelas geladas, daquelas que a gente diz não, não vou enfrentar, mesmo de guarda-chuva.
Um brinde ao amor próprio, meu amigo. Um brinde à tudo que não nos trava o sorriso. E que venha a maré boa, a bonança, os amores cheios.
A verdade era só uma
A verdade era só uma: queria ser parte presente e significante em sua vida. E ela metia os pés pelas mãos em tentativas frustradas e doloridas de continuar. Apenas continuar o que nunca foi. Ou o que foi, talvez apenas para ela. Ou o que foi para os dois, deixa dessa imaturidade adolescente e aprende a enxergar que nem tudo é como você quer. Coração mimado. Quer, quer, quer. Se não tem, chora. Coração de merda.
Expectativa demais dá nisso, pensava ela. Não tinha nada além de um amor impossível e lindo, ah que amor bonito esse inatingível, inalcançável, que amor bonito esse escondido debaixo de cobertas requentadas. Porcaria de amor que dói, esse que não se pode ter. Mas era amor, não era? Foi amor um dia? Ou foi carinho disfarçado pra te levar pra cama, sua besta. Sexo não, não podia ser só sexo, embora o sexo fosse incrível.
Tentava desesperadamente manter com gozo as lágrimas de um amor não correspondido. Todas as noites, apenas quando ele queria. Era o preço do amor errado. Burra, burra, caiu que nem um patinho nessa lábia mais antiga da humanidade. Justo ela, sempre tão espertinha.
Ah, que te amava tanto, sabia? De dar nó no coração antes de dormir, quando te desejava boa noite quietinha dentro da cabeça. Boa noite, meu menino. Dorme bem. Fica bem. Seja feliz. Mas seja feliz comigo, não me venha com essa putaria de ser feliz com outra pessoa. Mentira, não pensa assim, menina má. Seja feliz com quem quiser, com quem tenha esse poder lindo de te fazer bem. Talvez eu não mais o tenha. E sonha comigo, um dia, qualquer, randômico, como aqueles antigos. Presença de Anita.
Te amava muito, ou talvez nem soubesse o que era amor. Ou apego. Ou insegurança. Ou ego. Ou dor. Ou calor. Que porcaria de sentimento é esse, sentimento lindo de unhas afiadas? Me deita no seu ombro esquerdo. Acaricia a minha mão sem dizer nada e me sorri um silêncio macio. Um beijo daqueles na mão era só o que precisava agora. E aqueles nos joelhos e na parte de trás das coxas.
Vem aqui, vai. Ou me deixa te esquecer pra sempre, sem que se esqueça de me amar.
Tinha um amor pela metade
A menina tinha uma alegria imensa, intrínseca, dessas que dão inveja aos que acordam errado. Não lhe importava absolutamente nada, desde que o dia amanhecesse, mas era especialmente feliz nos dias de céu azul e bolo de chocolate.
Tinha um sorriso infantil, genuíno, desses que se espalham molhados pela cara toda. Ah, como era bonito de ver a menina sorrindo, cantando, assobiando por onde passava, balançando a barra do vestido com uma ingenuidade de cinco anos.
Até que um dia a menina feliz se apaixonou. E ele era complicado demais para esse autismo alegre dela. Seu coração doía dores que jamais havia cogitado experimentar, mas que cuidadosamente escondia atrás dos dentes.
E eu a observava de longe, no bar com um punhado de amigos, escondendo em sorrisos o que os olhos e o coração diziam. Ela tinha um amor pela metade. E até quando aguentaria alimentar o inteiro com metades? Que amava demais o que o meio não preenchia. E ainda que seus amigos falassem alto, gargalhassem, bebessem a vida num brinde de fim de tarde, eu a via. Havia em seus olhos um mar de lágrimas contidas. Em seu sorriso, o desembocar de filamentos de águas salgadas, que só corriam à noite, quando encostava a cabeça em seu travesseiro cheio de ausência. A menina doía.
E eu queria caminhar até ela e lhe dar um abraço desconhecido, porque enxergava suas dores. Queria lhe dizer que a vida é feita de escolhas, e essas escolhas incluem pessoas. Queria lhe dizer que um dia, em alguma estrada, também tropecei no meu sorriso espalhado. Eu também amava o complicado, eu também tinha um amor pela metade.
Aprende, que dói menos.
O amor é um armário cheio de formas diferentes de se gostar. Tem dias em que a gente troca, tem formas que nos viciam, tem aquelas que sabemos que não nos caem bem. A forma que vicia é a mais perigosa.
Um dia você vai gostar de alguém ao ponto de virar o mundo de ponta cabeça por essa pessoa. Alguém que te tire o chão, te faça perder o ar, que te machuque com bobagem, que doa uma ausência constante dentro de você. Porque você gosta demais, mesmo sabendo que não deveria se doar tanto assim? Talvez não. Talvez você esteja apaixonado pelo verbo, não pelo sujeito.
Existe uma linha tênue entre a paixão e o vício, quase uma obsessão, mas prefiro chamar de vício. E, geralmente, a gente não sabe exatamente quando cruza essa linha e deixa as borboletas no estômago para trás. O que te fazia bem acabou faz tempo, olha agora: só restou a falta de carinho, uma constante insistência sua em uma história que não tem mais linha. Só restou você, fazendo boca-a-boca em uma história de amor que passou.
Você se viciou no que aquela pessoa te proporcionou, naquilo que te fez sentir. Você mistificou e encantou um cenário comum. Você fez fogueira de uma faísca. Você alimentou, inventou, você se iludiu. E não, não sou capaz de colocar a culpa somente em ti, ninguém alimenta vícios de pessoas sozinho. A verdade é que você se viciou nos sentimentos e nas sensações, e não na pessoa que te proporcionou isso.
Então pare de dizer que ama, pare de achar que ama, porque talvez nem seja isso. Talvez seja apenas o seu ego mimado, implorando por pão e água. Talvez seja uma fase pela qual você precisava passar. E passou.
Sempre chega a hora em que é preciso vestir a maturidade emocional e decidir recuar, aprender a distinguir em que ponto a sua vida parou por causa de alguém. Quanto de energia você desprende em quem não está na mesma estrada? O quanto você se preocupa com quem não se importa com você? É muito óbvio, você se deixou levar mais do que o outro. A outra pessoa está ali, tranquila, o coração dela não dói como o seu. A tua ausência não é presente para ela. A tua vida não lhe interessa. Se interessasse, ela faria questão de te dar pequenos gestos de carinho ao longo do dia. Aprende: se você for importante para alguém, esse alguém lhe mostrará isso. E, se não mostra, é porque você não importa.
Chega de remar contra a maré, de querer escrever desesperadamente a continuação de uma história no rodapé da página. Chega de implorar o amor, o carinho e a atenção de quem não o faz por merecer. Olha em volta, quanta gente querendo te fazer sorrir de graça. Quanta gente que se interessa por você, de verdade.
Amor é mérito, querendo ou não. Consentido ou não. Ame quem merece o que você sente. E chega de insistir no que ficou para trás. Aprende a cuidar da sua vida, daqueles outros que se importam, aprende a desviciar. Nenhum vício é saudável e nenhum vício dura para sempre.
Arranca essa pessoa da sua veia, esse seu ego mimado pedindo comida, e se cuida. Cuida de você, porque está todo mundo cuidando de si.
Se ao invés de vício, isso for amor, não se preocupe, você saberá. Pelo outro, não por essa sua cabeça louca que inventa tudo.
Amor é a morte do ego. Não há como ter os dois, ego e amor. (Osho)
Quem ama cuida
Às vezes eu subestimo um pouco o que eu sinto por você, sabe. Talvez por terem se passado tantos anos entre a gente, talvez por termos uma história tão comprida. Eu te absorvo como sendo parte da minha vida, do meu dia a dia, e esqueço o quanto tudo isso é uma escolha, o quanto toda vez que acordamos, confirmamos um “sim, é aqui o meu lugar, é você”.
A gente deita no sofá no sábado à tarde a assiste a qualquer desses filmes na tv, bebendo cerveja. Você segura a minha mão e fala alguma coisa só pra me fazer rir. A gente cozinha juntos, a gente faz tudo juntos. E se eu estou meio doente, você me cuida. Faz chá pra mim. E é bem nessa hora que eu reconheço.Eu adormeci no sofá e você chegou quietinho com um cobertor para me cobrir. Achou que eu estava dormindo, mas eu vi tudo de olhos fechados. You tucking me in, como naquela música, I´ll be the one to tuck you in at night. E é aí, bem aí, bem quando que te pego de surpresa, me olhando na cama enquanto o dia amanhece, procurando minha mão no meio do sono, é bem aí que eu reconheço o que é o amor real. Todo o resto é pura ilusão. Porque se um dia alguém disse uma verdade absoluta, é esta aqui: quem ama cuida. Mesmo. De verdade.
Sim, aqui é o meu lugar. E é você quem me cuida. E eu te amo tanto que dói.
