Tinha um amor pela metade

A menina tinha uma alegria imensa, intrínseca, dessas que dão inveja aos que acordam errado. Não lhe importava absolutamente nada, desde que o dia amanhecesse, mas era especialmente feliz nos dias de céu azul e bolo de chocolate.
Tinha um sorriso infantil, genuíno, desses que se espalham molhados pela cara toda. Ah, como era bonito de ver a menina sorrindo, cantando, assobiando por onde passava, balançando a barra do vestido com uma ingenuidade de cinco anos.
Até que um dia a menina feliz se apaixonou. E ele era complicado demais para esse autismo alegre dela. Seu coração doía dores que jamais havia cogitado experimentar, mas que cuidadosamente escondia atrás dos dentes.
E eu a observava de longe, no bar com um punhado de amigos, escondendo em sorrisos o que os olhos e o coração diziam. Ela tinha um amor pela metade. E até quando aguentaria alimentar o inteiro com metades? Que amava demais o que o meio não preenchia. E ainda que seus amigos falassem alto, gargalhassem, bebessem a vida num brinde de fim de tarde, eu a via. Havia em seus olhos um mar de lágrimas contidas. Em seu sorriso, o desembocar de filamentos de águas salgadas, que só corriam à noite, quando encostava a cabeça em seu travesseiro cheio de ausência. A menina doía.
E eu queria caminhar até ela e lhe dar um abraço desconhecido, porque enxergava suas dores. Queria lhe dizer que a vida é feita de escolhas, e essas escolhas incluem pessoas. Queria lhe dizer que um dia, em alguma estrada, também tropecei no meu sorriso espalhado. Eu também amava o complicado, eu também tinha um amor pela metade.

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