Ana, o menino e o amor amargo

A porta era de madeira de demolição, robusta, enorme, como se lhe dissesse para não bater, não tentar, não entrar. Observou por alguns segundos a arquitetura do lugar onde ela habitava e chegou a ter ciúmes de paredes que pudessem lhe envolver, janelas cúmplices de uma vida que não conseguia mais escavar.
Bateu três vezes. Arrancou o coração da garganta e o guardou no bolso: era hora de não sentir nada. Aqueles medíocres segundos de tempo foram os mais longos do ano inteiro. Será que ela estava em casa? Será que abriria a porta para ele? Será que lhe trataria com frieza?
Ele veio de muito longe para tentar a última vez naquela porta trancada. Ela era uma espécie de fantasia louca, um amor impossível. Ela era tudo o que ele sempre quis com todas as doses de proibições e defeitos. E o mais importante daquele momento era que sabia que ela o amava; ou que o tinha amado. E muito.
A porta se abriu sem qualquer sussurro. Do outro lado, um homem feito. Barbas mais longas que as dele, jeito de quem está bem resolvido com a vida. Não era um menino como ele, era um homem. Perguntou o que queria, ele perguntou se a Ana estava. Ana desceu as escadas correndo, enrolada em um roupão branco, cabelos molhados.
Nenhuma palavra foi trocada em minutos, que pareceram horas para os três. Os olhos de Ana penetravam a alma do menino e era tão nítido perceber o quanto ela havia sofrido. Ela sofria com os olhos: um misto de medo, êxtase, dor e paixão. Metade de seu corpo se inclinava em sua direção, metade lhe continha os pés no chão. Não podia, não podia. Não era mais a hora. Sua chance havia morrido no dia em que ele resolveu ir embora.
Todas as palavras foram ditas pelo silêncio, e o silêncio gritou dentro daquela casa. Ele virou as costas e foi embora mais uma vez. Não sabia se o certo seria lutar pelo amor da sua vida ou deixá-la ser feliz com outra pessoa. Não sabia sequer se dariam certo juntos um dia, pois ao menos haviam tentado.
Ana escorreu uma lágrima do olho esquerdo. Sabia que seria a última vez. Sabia que não teria como explicar para aquele homem ao seu lado o que acontecera nesse breve espaço de tempo e, ainda que o fizesse, ele não entenderia a dimensão de uma vida inteira ali.
O menino olhou apenas uma vez para trás, talvez para se assegurar de que Ana não viria. O amor que existia ali não havia morrido e não morreria nunca. O amor ali amargaria. Era de sabor amargo, desses que se mastigam a vida inteira e não se engolem. Desses que não se esquecem. O que os dois jamais entenderiam é que a decisão de não amar é infinitamente mais forte que o amor em si. A renúncia é permanente. Não importa quantos corações ainda cruzem seus caminhos.

 

O menino pegou o coração de volta do bolso e jogou-o na terra quente. Ali, talvez, endurecesse para sempre.

Talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever

Todo escritor é um exímio leitor, mas o contrário nem sempre é verdade.
Uma vez, em entrevista, me perguntaram por que eu escrevo. Acho que foi a pergunta mais difícil de responder em toda a minha vida. Senti-me quase perdida dentro de um eu que não saberia definir nunca, seria como perguntar por que tenho meu nome, por que tenho meu tom de pele. Seria como perguntar a um monge por que ele reza. Escrever é pedaço, é bioquímica do escritor, é essência e personalidade.
Escrevo desde que me lembro ter aprendido a juntar as primeiras consoantes e vogais, desde que descobri as rimas e me apaixonei pelas palavras. Em épocas em que a internet não era nem ao menos imaginável, eu  me perdia em incontáveis cadernos escondidos no meu quarto. Quantas folhas eu preenchi enquanto desenhava. Fui dessas crianças com grandes calos nos dedos.
Acredito que todo escritor nasce contador de histórias e estórias, é um observador nato do cotidiano, das pessoas, da vida. Todo escritor é artista e  inventor de pequenas loucuras e devaneios. Acredito piamente que quem escreve encontra nas palavras a única saída para organizar sua própria personalidade. Os loucos – talvez os loucos sejam escritores que não sabem escrever e as palavras se perdem de modo ensurdecedor dentro deles. Palavras perdidas são tão perigosas.
“Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens”. Manoel de Barros entendia tudo sobre o universo de um artista e – acredite – escritores são artistas completos. Não conheço um escritor que não seja incrível em outras artes.
Escrever não deve nunca ser forçado. Parafraseando Bukowski, se nunca sair de ti a gritar, faz outra coisa. Escrever não é sentar e esperar, não é olhar a página em branco e procurar ciência em palavras. Escrever é vomitar, é derramar, é deixar escorrer verbo como se escorre sangue em corte profundo. “A menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado
te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio, não o faças.”
Não existe tentativa em ser escritor. Não existe treino, tampouco curso. O escritor de verdade é líquido – nunca sólido, jorra enquanto digita, grita enquanto força a caneta no papel. O escritor entra em transe e se deixa possuir por ele mesmo, é loucura, é víscera derramando as quatro estações de Vivaldi. É drama, nascimento e assassinato.
Não entenda um escritor como lúcido; lúcidos não escrevem. Não acredite em escritor que não tenha nascido um, que escreva por dinheiro ou fama. O verdadeiro escritor nada é além de arte em seu estado mais bruto. Palavra é essência; é o que faz de todo escritor louco e o que o impede de enlouquecer completamente.

Você era feliz comigo

Seus olhos sorriem enquanto passa o indicador pela boca do copo. Você me conta o que tem feito, o que aconteceu contigo nesse tempo todo. Tento perceber onde foram parar os sentimentos, onde está escondida a marca dos meus dentes no seu corpo? Você não me olha nos olhos, eu não falo muito. Guardo tudo o que carregamos juntos disfarçado em indiferença. Não sei se quero saber da sua vida, dessas outras pessoas, do quão fácil foi me esquecer.
A luz falha, seu sorriso já não é mais o mesmo. Não sei se ainda te reconheço dentro dessa pose de quem é feliz. Minhas dores não dóem mais. Eu apenas te analiso. O que fizeram contigo? Onde você foi parar? Você era feliz comigo.
Não leio mais seus pensamentos, porque não tenho vontade. Não faço mais questão da sua presença, pois me acostumei com teu silêncio. Não sinto mais dores, as feridas se transformaram em cicatrizes que me ensinam a nunca mais repetir os mesmos atos. Aprendi demais com você sobre o amor, a minha própria impotência e a superficialidade humana. Sobre a desistência. Sobre o quanto a paixão é ego. Aprendi que existem amores que não acontecem pois nem todo mundo é forte o bastante para carregá-lo. Descobri que existem pessoas que preferem o comodismo da cama quente aos domingos à uma grande história de amor. Nem todo mundo nasceu para lutar, o medo supera a dedicação.
Tento encontrar alguma coisa de nós nesse cenário, uma fração de segundos que me faça te amar de novo. Não sobrou absolutamente nada. Talvez meu coração acelere se você chegar um pouco mais perto e – honestamente – eu ficaria feliz se houvesse alguma reação química. Mas não acredito que ainda tenha deixado qualquer raíz viva de você em mim. Fiz exatamente o que tanto quis: matei nós dois com a faca de Oscar Wilde. Talvez tenha sobrado algum carinho, uma espécie de apego aos três anos que dividimos. Talvez tenha sobrado alguma coisa no meio dessa constante decepção que você foi para mim. De verdade, esperava atitudes infinitamente mais nobres suas, mas você sempre teve razão, meu maior erro foi sempre esperar algo de você. Você, que como tantas outras pessoas não têm muito o que oferecer, pois sequer conhecem seu próprio potencial.
Seus olhos covardemente não ousam encarar em mim toda a mediocridade do fim da nossa história. Eu tento desesperadamente encontrar resquícios da pessoa interessante e alegre que você costumava ser. Mas acho que não sobrou muito. Quem dera seu esforço tivesse sido para me convencer de que é a melhor pessoa do mundo. Quem dera seu esforço tivesse sido para que eu sempre me lembrasse de você com amor.

 

Devaneios aleatórios das 16:28h: a eterna busca incoerente do laço.

Sabe, algumas coisas eu tenho aprendido durante essa caminhada. Que não é possível se apegar a nada ou ninguém e ser feliz ao mesmo tempo. As pessoas vêm e vão com a efemeridade que deveriam ter, como se houvesse um contrato pré registrado do tempo em que são necessárias para qualquer transformação em você.
Se existe uma energia maior que rege tudo em harmonia, ela não apenas atrai, ela afasta. O tempo, ah, o tempo, esse sim talvez seja o maior adversário da vida e o maior aliado. À medida em que te apressa, te ensina – seja qual for o melhor caminho. E é ele quem decide o que fica, por quanto tempo e o que substitui. É ele quem tira e dá.
Tudo que morre aduba o novo que insiste em querer nascer. Tudo o que vai, leva consigo um espaço de tempo que não voltará nunca mais. Descobri que as pessoas se apegam muito mais ao tempo do que à qualquer outra coisa. Aquele minuto presente, aquela tarde no sofá, aquele vinho chileno. Me traga de volta o momento, a pessoa é apenas cenário. Quero aquilo que me fez sentir, e não o objeto deturpado.
As pessoas são ruins e boas e, ainda quando querem ser boas, são ruins. E só o são porque existe o apego ao momento e à história. Existe o apego àquele beijo na mão embaixo do edredom, às risadas trocadas na madrugada quente caminhando pela praia. Existe uma eterna busca de vínculo com a realidade e com a fantasia. Qual a linha entre a ilusão e a verdade? Qual o exato segundo de tempo em que decidimos precisar de alguém ou algo?
O ser humano vive uma constante busca por laços, por referências que lhe delimitem um período de espaço. Por gente que possa chamar de sua, por mãos com as quais possa contar quando mais precisa. O ser humano busca o apego, pois sem ele é quase impossível escrever uma história. E essa é a grande essência da vida. Ter linhas e páginas viradas, sem passado. Ter laços fortes, sem apego. Como é mágico o aprendizado.
O tempo me deu muitas rasteiras, e hoje  percebo que foram sempre ao me apegar à algo ou alguém. Eu caio, eu respiro, eu me levanto. Descobri que o desespero destrói o amor e o bom senso, então finalmente aprendi a não deixá-lo controlar.
A vida me chacoalha e questiona o comodismo mais uma vez. Como se eu fosse destinada a ser nômade e dinâmica, como se as emoções fossem imprescindíveis na vida de uma contadora de histórias. Não se apegue. Não se apegue à mão ao lado, nem ao chão que pisa. Não se apegue à este exato segundo do tempo, porque se existe uma verdade absoluta, ela é chamada de inconstância.
A mudança é a única certeza da vida. A natureza recicla e nunca se apega ao momento, pois um dia ele volta – em outras circunstâncias, é verdade.
Aprendi que o amor é o oposto perfeito da necessidade. E o tempo – este é apenas o grande maestro. É em função dele que a harmonia acontece. E basta observar uma árvore no jardim para entender que se sou feita dos mesmos átomos, minha vida deveria ser regida da mesma forma. As folhas crescem, morrem e adubam. As pessoas e as situações também. Para toda folha seca que cai, existe a esperança do novo que nasce. A primavera sempre volta – em mim e em você. 

A minha necessidade

A minha necessidade é de abraços apertados, de olhos fechados. De colo macio, braços enroscados, cafuné nos cabelos enquanto desisto do mundo. A minha necessidade é de beijo lento na boca, encriptando dentro de mim as melhores frases da humanidade. É de mãos entrelaçadas quando ninguém vê, é de pés que se encontram embaixo do edredom.
Quero aquele olho no olho que pára o tempo, quero meus sorrisos beijados. Quero enxergar meu reflexo na sua retina, na rotina dos longos e molhados dias ao lado esquerdo da sua cama. Beija meu corpo um milhão de vezes. Acaricia a minha barriga enquanto adormeço, esquece os lábios entre os meus joelhos. Aperta a minha mão e me faz cócegas quando entristeço. Segura meu rosto e diz que a vida é agora com dezessete beijos entre o queixo e as pálpebras. A minha necessidade é daquela paz que anula o mundo e faz tudo parecer infinitamente mais leve quando estou dentro do seu abraço.

Amor de bicho

É no fundo dos seus olhos que vejo o brilho mais intenso. O medo diluído na confiança construída diariamente. Seus olhos confiam em mim mais do que em qualquer outra coisa desse mundo. Minha voz te acalma, te ensina. Meus dedos afagam teu coraçãozinho quente.
Te observo dormindo dentro de um sonho qualquer, com o que será que você sonha? Chega bem pertinho de mim, chama a minha atenção do jeito que só você sabe fazer. Coloca sua cabeça embaixo da minha mão para que eu consiga afagar-te a alma, tão imensa.
Deita em cima de mim, quietinho, quietinha. Acalma a minha calma que te ama. Olha no fundo dos meus olhos e me permite ser esse brilho refletido na sua alegria, na sua saúde, em pequenos pulinhos de felidade pela sala, em rabos abanando sua paixão. Fecha esses olhinhos de bicho enquanto entrega-me teu pequeno mundo, confia em mim sua vida mais bonita enquanto encosta sua testa na minha.
Divide sua respiração comigo, esse amor puro e incondicional. O amor mais bonito de todos os tempos, o amor de bicho.

 

 

*Uma pequena homenagem à todos os bichos que já passaram pela minha vida, em especial ao meu cachorro e às minhas coelhas – que ainda dividem todo esse amor terreno. Se existe um céu de bichos, é para ele que quero ir.

 

 

 

Caleidoscópio azul

Teus olhos já não têm o mesmo brilho. É preciso que eu te invente de ponta-cabeça dentro de mim, para que algum resquício de você ainda escorra por dentro. Por favor, não se preocupe, meu amor, te remonto em um caleidoscópio azul. Alguma coisa em você mudou e é tão fácil reconhecer, você é outra pessoa.
Um pé na porta, outro fora do mundo, por onde vaga teu coração? Talvez eu devesse ter te dado um motivo pra ficar, qualquer pedaço de mim que guardasse o buraco da minha cabeça no lado direito do teu peito.. Qualquer pedaço meu que me fizesse um inteiro no meio do teu coração vazio.
Pedi tanto para ficar, quis tanto que não fosse embora. E hoje te monto em um quebra-cabeça do passado, com pequenos pedaços – ilusões, quem sabe – daquilo que você costumava ser. Me faz falta teu sorriso e o bom dia de pasta de dente. Me faz falta um você que não existe mais. Onde você foi parar? Me conta dos teus dias, das tuas dores e desamores. Me mostra onde foi que tudo mudou, em que parte da avenida tua ferida sangrou.
Caleidoscópio azul, de pedaços teus não sei te fazer inteiro nunca mais. Nunca tive sorte em jogos. Cansei de juntar teus cacos, não reconheço mais a tua voz, essas mãos geladas me cansam. Minhas últimas esperanças rasas se quebraram em pedaços doloridos de uma realidade inventada. Agora te guardo em uma gaveta escura, fria – como você, caleidoscópio azul. Não te quero desmontado, em pedaços, tranco com chave – cacos de caleidoscópio são afiados.
E te reinvento de novo em novos sabores. Sei que encontrarei as coisas que gostava em ti em outros sorrisos, cada uma delas milimetricamente distribuída em outras eletricidades. Pedaços dentro de inteiros sem medo. Que você fique bem, caleidoscópio azul, mas não quero mais tuas metades. Talvez você more nos sonhos de alguém, e eu – talvez eu seja a realidade de outrem.

O amor não morre

Quando um amor termina, termina também um pedaço da gente. O que era quente congela, os dias azuis e ensolarados se fecham dentro de um coração acinzentado. A vida perde as cores. Dói, eu sei. Tudo que termina dói. E talvez seja este o maior desafio do ser humano, aprender a lidar com a efemeridade de tudo. A vida também termina e às vezes nem é preciso morrer para isso.
Mas talvez você não saiba que amor não morre. A única imortalidade do ser humano mora no amor. O que é finito é paixão, desejo, derivados de um ego mal acostumado. Escuta bem: o amor não termina.
Talvez você o esqueça, talvez seja forte o suficiente para arrancá-lo do seu cotidiano. Talvez você consiga passar meses sem ouvir falar seu nome, sem querer saber da sua vida. Mas não deixe a mágoa tomar decisões por você. Aprenda que o que morre brota o novo, ainda que o novo seja o antigo.
Não tente esconder, não finja, não fuja. Relacionamentos acabam todos os dias, sentimentos, nem sempre. O amor é a única realidade que existe. Se a paixão acabou, que as estradas se dividam em uma bifurcação. Mas nunca renegue o amor que guardou por alguém. Não faz sentido dizer que não amou quem tanto amou um dia apenas pelo fim de um relacionamento. Não faz sentido menosprezar o que fez teu coração sorrir da forma mais sagrada que você conhece. E aprenda: o amor não machuca, o amor não dói. O amor é desapego em seu estado mais bruto. O que dói é apenas o ego. O que morre, também.