Caleidoscópio azul

Teus olhos já não têm o mesmo brilho. É preciso que eu te invente de ponta-cabeça dentro de mim, para que algum resquício de você ainda escorra por dentro. Por favor, não se preocupe, meu amor, te remonto em um caleidoscópio azul. Alguma coisa em você mudou e é tão fácil reconhecer, você é outra pessoa.
Um pé na porta, outro fora do mundo, por onde vaga teu coração? Talvez eu devesse ter te dado um motivo pra ficar, qualquer pedaço de mim que guardasse o buraco da minha cabeça no lado direito do teu peito.. Qualquer pedaço meu que me fizesse um inteiro no meio do teu coração vazio.
Pedi tanto para ficar, quis tanto que não fosse embora. E hoje te monto em um quebra-cabeça do passado, com pequenos pedaços – ilusões, quem sabe – daquilo que você costumava ser. Me faz falta teu sorriso e o bom dia de pasta de dente. Me faz falta um você que não existe mais. Onde você foi parar? Me conta dos teus dias, das tuas dores e desamores. Me mostra onde foi que tudo mudou, em que parte da avenida tua ferida sangrou.
Caleidoscópio azul, de pedaços teus não sei te fazer inteiro nunca mais. Nunca tive sorte em jogos. Cansei de juntar teus cacos, não reconheço mais a tua voz, essas mãos geladas me cansam. Minhas últimas esperanças rasas se quebraram em pedaços doloridos de uma realidade inventada. Agora te guardo em uma gaveta escura, fria – como você, caleidoscópio azul. Não te quero desmontado, em pedaços, tranco com chave – cacos de caleidoscópio são afiados.
E te reinvento de novo em novos sabores. Sei que encontrarei as coisas que gostava em ti em outros sorrisos, cada uma delas milimetricamente distribuída em outras eletricidades. Pedaços dentro de inteiros sem medo. Que você fique bem, caleidoscópio azul, mas não quero mais tuas metades. Talvez você more nos sonhos de alguém, e eu – talvez eu seja a realidade de outrem.

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Um comentário sobre “Caleidoscópio azul

  1. Brunno Lopez (@brunnolopez) disse:

    A gente sempre sabe que alguém está além do comum quando são necessárias várias personalidades para se montar a totalidade do que pessoa era.
    São pedaços inteiros, perfeitamente produzidos. E de tamanha satisfação, quase místicos, eles mudam. Se transformam. Evoluem ou regridem no tempo.

    E essa é a rota das emoções que destinamos. Elas mudam sem levar os móveis, por isso as lembranças nunca saem da nossa sala. E quando colocamos outra realidade, os objetos parecem querer se moldar à nova pessoa, mas é tudo heterogêneo, não?

    Queríamos aquela unidade que completava tanto e que não acreditávamos que mudaria. Que seria parte de outra vida e não saberia mais respirar o mesmo ar que o nosso.

    E então segue para completar outros jogos, outros seres, outros mecanismos de felicidade que precisam dos seus serviços.

    Nós ficamos apenas a olhar para o passado – presente que não dissipa, apenas se materializa no amor atual.

    Muito bom, Milena.

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