Um dia você vai entender que é preciso apenas um gesto de alguém para mudar os roteiros.
Eu sempre acreditei no amor, sabe. Nesse amor que chega destruindo, arrancando as pétalas do coração, ardendo, machucando, mexendo lá no fundo. E não entendia o amor medíocre, o estar acompanhado para não estar só.
Durante muitos anos eu fui criando uma espécie de armadura, uma camada de espinhos que era acionada ao menor contato lá de dentro. Caí tantas vezes, cara. Sempre quis quem gostasse mais, talvez porque eu tivesse medo de alguma coisa cutucando a carne exposta, viva, a vulnerabilidade. E quando achava que estava tudo amadurecido o suficiente para expor a minha parte mais branca, alguém me atacava com uma espada fria, no mais fundo e puro amor.
É, eu pareço forte e você bem pensa que eu sou, mas a minha armadura é de vidro. Ao menor estalo tudo se desmorona. Eu tento segurar, você sabe, mas aqui dentro está tudo em frangalhos. E eu vou recolhendo meus pedaços pelo chão e recolando nas mesmas beiradas frágeis, aquelas que há tanto tempo vem sendo recoladas. Em cada vinco tem um nome.
Seria bom se pudéssemos viver a vida ao contrário. Começar com um pequeno pedaço de nós e ir recolhendo outros no meio do caminho para chegarmos ao fim inteiros, completos. Mas a realidade é que assim que nascemos vamos deixando cacos da gente. E isso não é de todo ruim, porque existem pessoas que guardam nossos cacos para sempre. Sim, existem pessoas que guardam. E existem pessoas como você, que puxam a pele descascada pra cair mais rápido. Que querem chegar perto sem entender que a parte exposta está aqui, com espinhos em volta. E se quiser continuar insistindo eu me desarmo. E cairei de novo. Com você, tenho certeza. E levantarei e recolherei o caco com o teu nome e o recolarei em algum pedaço de mim.
E aprendo a ser humana de novo, levantar, tirar o pijama e continuar sendo, sem expectativa nenhuma. E continuar indo, e abrindo, e armando, e desarmando. E esperando um gesto seu pra mudar o caminho.
Ciclo
“Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para
fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e
com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem
magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos,
apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão
nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a
solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente.
E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e
se sucedem e deixam sempre sede no fim.”Caio Fernando Abreu
Pedaços
Eu podia te mandar um email ou dizer tudo isso quando você abrisse a porta de casa, mas rabisco umas letras aqui na esperança de que um dia você leia. Ou não. Talvez eu apenas tenha que recolher meus cacos mais uma vez e transformá-los em palavras para, quem sabe, entender o que se passa dentro de mim. É, a minha incoerência chega a esse ponto. Escrever para ver se entendo.
Até que ponto um grande amor resiste. Até que ponto um grande amor resiste?
Não, não me faça perguntas. Não quero imaginar as respostas que assombram a minha mente. Há alguma coisa quebrada aqui dentro, e eu tenho medo de mexer na fragilidade.
Você me conhece melhor que ninguém. Sabe que não dou avisos se não puder cumpri-los. Mais uma vez, e dessa vez é a última, peço para que emende esta linha fina e faça dela uma corda de marinheiro.
Puta merda, como eu te amo. Mas não sei viver com coisas quebradas dentro de mim.
Sometimes I feel like saying Lord, I just don´t care. But you´ve got the love I need to see me through.
You owe it to yourself
Eu amo essa música. “Some people”, Goldfrapp.
Some people kill for less
Some people find it hard to get dressed
Some people, well
Ask how old I am
Some people live in a life
Some people need more than a slice
But when it fades
When the glitter’s gone
You know it
You owe it to yourself
You won’t let it make you mad
It’s already crazy
Old and lonely when the shade is down
The brighter lights just smells their empty heads
Some people don’t get much
Some people feel they’re in touch
With spirit worlds, talking to you now
Some people just gotta say
Some people just wanna play
They get a kick when it’s all messed up
You know it
You owe it to yourself
You won’t let it make you mad
It’s already crazy
You know it
You owe it to yourself
You won’t let it make you mad
It’s already crazy
And what you thought you lost was just mislaid
All the poems written in your skin
You know it
You owe it to yourself
You won’t let it make you mad
It’s already crazy
You know it
You owe it to yourself
You won’t let it make you mad
It’s already crazy
And what you thought you lost was just mislaid
And all the poems written in your skin
Você não vai deixar isso te enlouquecer
As coisas já estão loucas
Estava apenas bagunçado
Mais um
Eu já mal dou conta de escrever pra dois sites e ter tempo aqui pro blog. Pois bem. Acham que não. Porque me convidaram para um terceiro site, o Top Talent. Entrou lá meu primeiro artigo, “30. E agora?”. Passem lá!
A louca da portuguesa…
… Continua me rastreando.
A cada dia eu tenho pelo menos uma ligação não atendida , um sms e uma mensagem de voz.
Domingo passado eu fui trabalhar e peguei meu celular na hora do almoço. Havia uma mensagem dela dizendo que estava em Reading. Eu entrei em pânico, não queria de jeito nenhum que ela soubesse onde eu trabalho, porque se já me cerca assim, imagine se souber onde eu fico.
Dei uma de louca e trabalhei com o cabelo jogado na cara. Já tava quase indo comprar um boné, marcar uma ida no salão pra virar loira, sei lá.
Depois de um tempo ela me ligou de novo. Felizmente a gente não se trombou. Eu mandei uma mensagem meio mal educada, dizendo que estava trabalhando demais e não posso atender telefone (repare que eu NUNCA atendi nenhuma ligação dela até hoje). Ela me respondeu “ah, não sabia que trabalhava tanto!” Ô criaturaaaa!! Óbvio que não sabia!! Alguém conta pra ela que vinte minutos não é conhecer alguém???
Isso me mostrou que o buraco é mais embaixo. Ainda assim, depois da mensagem, ela me ligou de novo. Gente, se a infeliz não entende quando tá sendo cortada é porque é doida de pedra mesmo.
Pior que isso foi ela ter me deixado uma mensagem dizendo que estava com febre (oi???). E outra dizendo que estava jantando com o namorado. Tive vontade de responder “e o kiko?”, mas ela não ia entender mesmo.
Resolvi que daqui a alguns dias, se ela ligar de novo, vou fazer alguém atender e dizer que não é mais meu número.
Ah, gente, já tenho doido demais na minha vida. Ontem vi duas brasileiras conversando aqui em Reading e fiquei bem quietinha na minha. Ó, tô aprendendo.
Chá com leite
E depois do inverno mais doloroso da minha vida, de 1 mês com temperaturas negativas inimagináveis, de uma semana com 40 centímetros de neve sem derreter, eu entro em casa e ligo a chaleira elétrica. Coloco um saquinho de chá preto em uma caneca, completo com a água fervendo e é aí que mora o x da questão, minha gente: ponho leite.
Foi nesse ato impensável, nesses minutos medíocres de um dia qualquer depois do trabalho, que eu cheguei a uma conclusão. Estou definitivamente adaptada.
Não, esta não foi minha primeira xícara de chá com leite, não. Mas foi a primeira xícara de chá com leite que não sofreu nenhum processo cognitivo, nenhum tipo de bloqueio psicológico, nada que não fosse puramente natural e rotineiro. Sim. O chá com leite foi a minha bandeirinha fincada na terra. Cá estou, amigos, em uma cidade do interior da Inglaterra chamada Reading. Um lugar cheio de história, com uma Igreja de 837 A.C. e uma prisão que acomodou Oscar Wilde. Cá estou, num país que ainda não chamo de meu. Mas que já chamo de casa.
Leia: Confidências, escrito em Dezembro de 2008.
Magpies, explodam.
Eu ia falar do frio e tralalá, mas sei que ninguém mais aguenta meus neurônios congelados falando da mesma coisa. Então eu vou falar do demônio, vulgarmente conhecido por Magpie. Sim, essa avezinha é um lobo em pele de cordeiro. Linda parada, linda voando, que nem essas putinhas de esquina. Mas abre a boca, só sai – e entra – desgraça.
Pombos, por exemplo. Eu já nunca fui muito fã. Pombinha, o caralho, bicho sujo. Acho que é porque cresci numa escola que tinha pombos em tudo quanto era canto e eu era cagada, literalmente. Óbvio que meu amor aos animais se extende aos pássaros, insetos e tal, mas não é porque eu amo animais tanto – ou mais – que humanos, que eu tenho que gostar de aranha, por exemplo. Ou de mosquito. Mosquito faz parte do quê na cadeia alimentar?? No próximo mundo, ó senhor criador, invente pipocas para alimentar lagartixas. Odeio mosquito.
Aqui em Reading tem muito pombo, sabe, eles vem em cima, dão asada na minha cara. Um dia fiquei observando as criaturas na praça e, cara, vários deles não tinham mais as patas!!! Eram toquinhos de perna sem dedos! Outros tinham os dedos infeccionados. Tive dó e nojo. Sabia que o cocô do pombo tem uma substância química que se for inalada em quantidade suficiente pode te matar de problemas pulmonares???? Bicho sujo. Sujo, sujo.
Magpie é um pombo travesti. E ainda pior, porque grita escandalosamente como uma boa bicha enfeitada. Os gritos de magpie são de querer soltar um rojão pra ver se encobre.
Outro dia fui pro trabalho na neve e vi uma Magpie comendo vômito no chão. Tem coisa mais podre que isso??? Tá, eu sei que ela é um pássaro irracional, que não distingue vômito de comida e todas essas abobrinhas aí que vocês estão pensando. Dane-se. Bicho sujo. Porco. Magpie é uma mistura de corvo com urubu. E pombo. E camarão.

